eu e os homens do bem e do mal

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Lucas de Meira · Curitiba, PR
30/9/2008 · 83 · 1
 

Sexta-feira de folga, bermuda, camisa pólo, chinelos, tirei o dia pra pagar as contas no Centro. Bancos, loja aqui loja ali, dinheiro vai e dinheiro vai, enfim, parei prum chope. Dois, enquanto via passear o arsenal feminino enfeitando a Rua das Flores. Aí desanimei com as rugas e com a pança criada, a mulherada desviava, colando olhos num bombado tatuado da mesa ao lado. Então decidi que iria embora a pé, começando vida nova, buscando a forma perdida. E logo lá estava eu, na canaleta dos ônibus, ou invadindo a ciclovia. Empolgadaço, assoviava, meio besta.
Anoitecia e eu cansava. Quis desistir e tomar o ônibus, mas na Estação Viaduto Capanema, descobri que não me sobraram mais que centavos. Eis que podia ser o destino, quem sabe, os deuses também me querendo saudável. Assim reencontrei forças pra persistir. A canseira havia passado. E já me sonhava esbelto, cheio de músculos rodeados por garotas e mais garotas. Talvez com um dragão tatuado nas costas.
Quase na metade da viagem, naltura do Jardim Botânico, vi um rapaz pedalando um caroço de freio de pé. O rapaz era muito feio, o bigode parecia disfarce de banguela. Tentei andar mais rápido, mas um dos chinelos arrebentou. O ciclista era mesmo um assaltante. Dois, o outro desescondeu-se do mato, assim que o primeiro me abordou, era ainda mais feio, canivete na mão, nariz quase no queixo:
- E aí? Tem um vale-transporte pra me arrumá?
Peguei a carteira e mostrei o vazio:
- Olha, amigo, não tenho nada não. Tanto que estou voltando a pé da cidade, estou duro duro.
O segundo bandido baixou o canivete:
- Foi mau. Paramo o cara errado, meu...
E eu tentando consertar o chinelo. De repente veio esta:
- Pô, não qué um troco pra pegá o bonde?
- Não, não, que é isso..
- É perigoso aqui de noite, gordinho. Nóis samo marginal, mais samo uns marginal do bem. Vai que você cruza com uns lôco mal intencionado aí. A gente te dá umas moeda.
- Não, obrigado, eu..
- Ô, Cônio, dá uns dois real pro cara!
- Não, por favor...
- Nota miúda só tenho de cinco, Zé.
- Dá essa mesmo pra ele.
- Não, eu já disse que não precisa, que é isso..
- Pega, - disse o Cônio, segurando minha mão, pondo nela a cédula de cinco reais..
- Aproveita que hoje nóis tamo abonado, gordinho. Fizémo os bolso duns bóizinho, no Jardim Dazamé, tamo mandando bem na fita. Pega o buzum, não fica marcando aí na rua, cara, vai vazando, vai aí, e cuidado, piazão, juízo, maluco! – disse o Zé.
- Falou! - o Cônio, pedalando, o Zé tentando pular no bagageiro.
Ignorando os alertas, prossegui na caminhada. Até encontrar um bar, já perto de casa. Lá, torrei, em três cervejas e meia-pinga, o dinheiro ganho dos bandidos, comemorando a sorte, ou seja lá, e as eventuais calorias perdidas.

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Ailuj
 

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Beijos

Ailuj · Niterói, RJ 30/9/2008 10:44
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