Putas são um mito. Prostitutas, mulheres da vida, meretrizes, a mãe do outro... Todas são mentira. Não existem de fato. São histórias da carochinha para adultos, lendas urbanas, mentirinhas aumentadas, contos de fadas - ou de fodas, dependendo do ponto de vista.
Eu já entrei em muitas casas de baixo meretrício e já conversei com as moças que, aparentemente, deveriam vir prostradas em bandejas de ouro, com uma maçã na boca. Mas não eram essa oferenda toda. Eram só... Moças.
Já fui em prostíbulos só para ver damas sofridas, as tais que vendiam o corpo para garantir um sustento mambembe. Queria achar também as mulheres ousadas, que davam o que davam porque queriam - e ainda faziam disso um lucro. Queria as meninas calejadas, sempre à sombra de cafetões malucos. Queria ver uma puta de filme, de livro, de música, de relatos de maridos casados e infiéis.
Cacei Geni. Cacei Satine. Cacei Rita. Cacei Bruna. Cacei Eva. Cacei Rosa. Cacei Maria Madalena. Nada. Não veio nada disso. Nem daquilo. Nem daquilo outro. Juro que não criei expectativa demais.
E eu só queria uma puta. Uma só, daquelas das quais sempre ouvimos falar... Moças de cabarés; cortesãs suaves dos tempos antigos; garotas estapeadas que guardam pequenos cortes nas fuças por causa dos tabefes constantes; divas que sempre pegam os melhores clientes; mães de família que aceitam velhos suados para levar o leite às crianças; aspirantes a modelos que não deram certo e resolveram então, dar, literalmente, errado; máquinas de sexo que não beijam na boca.
Não tinha.
Achei só mulheres.
Mulheres que se apaixonam como todas as outras.
Que choram.
Riem.
Praguejam.
Dançam.
Conversam.
Seduzem.
Dormem.
Pagam a conta de luz.
Querem fazer o trabalho da melhor forma possível.
Ficam de saco cheio às vezes.
Reclamam do salário quando o chefe do clube é tão muquirana quanto qualquer empresa que emprega com carteira assinada.
Mulheres sem magia.
Que não são dignas de serem recebidas com pedradas. Nem com aplausos em demasia.
E que vivem de dieta.
Vida de puta é só vida de gente.
Gente comum.
Putas são mito. Não me ofereçam as mulheres retratadas em bons filmes ou em péssimos livros. Não me ofereçam as putas fantasiadas de histórias tristes ou de prazer intenso. Não me ofereçam as putas das letras de música.
Eu já sei de toda a verdade:
Putas não existem.
O que me chateou no seu texto é você continuar a chamá-las de putas, pois são apenas moças. Daí que o lirismo ficou meio estreito e, em vez de ludibriar o preconceito, o utiliza veladamente.
antoniokntz · Uberlândia, MG 23/1/2007 17:13
Para mim está muito, mas muito bom. Pra mim vc mostrou o que eu tb acho, que a famosa "puta", aquele ser quase sem alma, só com sesações, não existe, existem mulheres, e também existem homens. Só fica isto de sugestão, se vc achar que cabe, pq pra mim já está excelente. Uma linha para as "putas homens", ou os "putos", enfim.
Mas parabéns pelo seu texto. Me lembrou de um que eu escrevi um tempão atrás. Vou caçar ele e dar uma lapidada pra postar aqui tb.
Tá ótimo
talvez tenha sido você quem pixou isso...
http://www.flickr.com/photos/vania_medeiros/221637142/
hehehe.
Ai, mas tah um deboche esse texto, eu adorei mesmo mesmo. "garotas estapeadas que guardam pequenos cortes nas fuças por causa dos tabefes constantes" MARCOU.
Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 26/1/2007 21:51
"O que me chateou..." foi o fato de não poder votar duas vezes no seu texto: maravilhoso. Dá a impressão que vc resolveu verificar o que é que estava acontecendo com as mulheres e voltou do campo com a verdade: com o "mito" desmistificado. Vc tem toda razão: as "putas" existem somente na mente masculina, são uma projeção do imaginário masculino.
Rodolfo Arruda · Marília, SP 25/2/2007 04:42
O triste do texto é que desconstrói a doce ilusão de que putas existem :-)
O bom é que é um excelente texto! Parabéns
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