Há poucas horas atrás assisti o por do sol daqui de cima de onde ajudei a construir essa fantástica cidade de pedra no topo dessa montanha sagrada. Senti a tristeza que os mortos sentem por saber que essa era a ultima vez que via meu povo feliz, os homens acendendo as fogueiras, as mulheres chamando as crianças enquanto começavam a preparar a comida, as crianças se recusando a parar de brincar. A vida.
Mas isso foi horas atrás, agora já é noite e estou sentado sobre tapetes de peles de animais no centro de nosso quarto de cerimônia, rodeado pelos meus doze sacerdotes que preparam a bebida que tomarei quando a mãe lua estiver alinhada com as grandes estrelas que nos mostram quando devemos plantar, quando devemos colher.
Tomarei essa bebida, feita de cacto e de ayuasca, entrarei no mundo dos sonhos e dele não voltarei mais. Eu sei disso, meu povo não sabe.
Meu povo. Meu povo que vive feliz aqui em cima da montanha. Eles não sabem.
Sou o mais velho. Fui o primeiro a chegar aqui no topo dessa montanha no meio da selva quando eu ainda era jovem. Fui o primeiro a sugerir aos anciões de nossa tribo que deixássemos a selva lá embaixo e construíssemos uma nova cidade aqui em cima usando as pedras que a mãe terra, nossa querida pachamama, colocou aqui para nós. E assim fizemos. Aprendemos a dividir a pedra em pedaços que se encaixam e com esses pedaços construir nossas casas e nossos templos de adoração, aqui bem no topo da montanha.
Logo após construirmos nossas primeiras casas aqui em cima, fizemos nossa primeira cerimônia onde tomei a bebida sagrada, mesmo contra a vontade dos sacerdotes mais velhos. E nesse primeiro sonho vi como seria toda nossa cidade: as casas, os templos, as pequenas plataformas para cultivo das plantas medicinais, as grandes plataformas para cultivo do maiz, da yucca, da papa; de nossa comida. E assim fizemos.
E assim vivemos felizes. Até agora.
Até agora, pois desde a ultima época de frio, a cada vez que tomo nossa bebida sagrada vejo coisas que, cada vez mais, não entendendo. Luzes que se movimentam, homens vestidos com estranhas roupas falando línguas desconhecidas, grandes coisas que voam, espelhos que não são feitos de água que mostram imagens que não são reflexos. Coisas que não entendo. Coisas que sei que são uma ameaça a meu povo. Infinitas coisas que temo.
Desde a primeira dessas visões fiquei assustado. E assustado comecei a ordenar a meus sacerdotes que preparassem a bebida cada vez mais forte pensando que assim ela me mostraria o significado dessas visões. Mas não. Me enganei. Cada vez mais forte nossa bebida sagrada me mostrou cada vez mais visões que não entendo. Cada vez mais assustadoras. Luzes que cruzam o ar, imensas cidades muito iluminadas com casas que parecem torres quadradas muito altas.
Mas nada disso me assustou mais que a ultima visão: nossa cidade, ou melhor, as ruínas de nossa cidade vazia, invadida por muitas pessoas, falando diferentes línguas. Essas pessoas andando por entre o que sobrou de nossas casas, de nossos templos, de nossos canteiros, de nossos jardins. Essas pessoas observando, olhando tudo, de vez em quando apontando pequenas caixinhas para o que sobrou de nossas casas. Depois de olharem toda nossa cidade essas pessoas vão embora. Mas no dia seguinte outras pessoas chegam e fazem as mesmas coisas. Olham, olham e vão embora. O que significa isso ?
Atormentado por não saber o que dizem essas visões, atormentado por não ter dito nada disso a meu povo, daqui a pouco tomarei pela ultima vez a bebida. Sei que esse é o caminho certo pois não há outro.
Lá, do mundo dos espíritos, eu, meu pai, o pai de meu pai, todos nós, mostraremos ao nosso povo o que devem fazer para se proteger dessa ameaça. Assim será, eu sei.
Já sentindo saudade de todos de minha cidade, levanto de meus tapetes de peles e saio olhar a posição de nossa mãe lua no céu.
Aqui fora faz um pouco de frio, as pessoas se agrupam junto as fogueiras enquanto cantam, as crianças teimam em continuar correndo pelas estreitas ruas. Os mais velhos se protegendo do frio com mantas de alpaca olham tudo com imensa gratidão à pachamama que nos proporciona tudo isso.
A lua esta alinhada com as estrelas da maneira exata como eu sei que deve de ser. Ordeno e um de meus sacerdotes sobe no ponto mais alto de nossa cidade, na grande pedra sagrada, e lá de cima toca a corneta feita com a grande concha marinha. Todos sabem que esse som significa que a cerimônia da bebida sagrada está prestes a começar e lentamente se recolhem à suas casas deixando as fogueiras acesas. Ainda observo minha cidade iluminada pela luz da lua no topo da nossa montanha sagrada e então entro no quarto cerimonial.
Foi em uma de minhas primeiras visões que esse quarto me foi mostrados pelos deuses e assim mandei que fosse construído. Grandes blocos de pedras nas paredes, no chão e no teto. Uma única porta, bem pequena.
E em cada uma das quatro paredes, três buracos, sem passar para o outro lado da pedra, na altura da cabeça de um homem. Meu povo não entendeu quando ordenei a construção com esses vazios nas paredes, mas assim me ordenaram os deuses e assim foi feito.
Me sento em meus tapetes, no centro do quarto e com um gesto ordeno a meus doze sacerdotes que se inicie a cerimônia.
A musica começa, lenta, ritmada. Na minha frente deixam três recipientes com a bebida, pego o primeiro, seguro com as duas mãos e tomo. Enquanto sinto a bebida tomando conta de todo meu corpo, formigando em minhas veias, entrando em meu cérebro e lentamente pedindo licença a meu espírito para que o guie; ainda vejo meus doze sacerdotes se levantarem e cada um deles enfiar a cabeça em cada um dos ocos das paredes e começarem a cantar o som que amplificado infinita vezes pelos blocos de pedras toma conta do quarto. Tomo o segundo e o terceiro recipiente da bebida enquanto ainda estou aqui.
O quarto parece tremer com o som que emitem nos ocos das paredes meus doze sacerdotes.
Já não vejo mais o quarto.
Já não estou mais aqui.
Flutuando em uma onda de luz provocada pelo som que sai das paredes começo a entrar no mundo das visões sabendo que dele não voltarei.
Mais uma vez tenho asas e vôo como o grande condor. Mas é noite, somente a mãe lua e as estrelas iluminam a noite. Lá embaixo vejo as ruínas de nossa cidade no topo da montanha. Tudo esta deserto.
Meu povo já não vive mais aqui.
Voando, me afasto, procurando uma resposta dos deuses: Por que isso aconteceu?
Longe, no horizonte, vejo luzes e me dirijo para lá.
Sobrevôo a grande cidade, toda iluminada, em meio às montanhas.
Conheço essa cidade, vista de cima tem o formato de um jaguar. É Qusqo. A capital de nosso império.
Mas onde estão nossos templos? Os palácios?
Desço para observer melhor. As pessoas se vestem como nas visões anteriores que tive, nas ruas vejo as mesmas carruagens sem cavalos.
Desço mais, vejo os rostos das pessoas, muito diferentes dos rostos de meu povo.
Alguma coisa me chama, me atrai e me aproximo de uma casa, entro nela.
Musica, sons, pessoas sentadas no chão formando um circulo, tomando uma bebida que tem o aspecto e cheira como nossa bebida sagrada.
Um dos jovens se levanta, se afasta do circulo de pessoas e vai para seu quarto. Sei que devo acompanhá-lo e o acompanho. Quando ele se deita em sua cama e relaxa consigo entrar em sua mente.
De repente vejo tudo.
Então é isso? É isso que aconteceu com meu povo? Por isso nossa cidade no topo da montanha está deserta? As pessoas que vi em minhas visões estavam nas ruínas de nossa cidade no topo da montanha somente para vê-la? Todos nos admiram?
Quando saio da mente do jovem ele estremece, se senta na beira da cama, depois de alguns instante se levanta, senta na escrivaninha, pega uma folha de papel em branco e começa a escrever:
EU SOU O SACERDOTE.
Há poucas horas atrás assisti o por do sol...
-----------FIM----------------
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