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Dona Euni é auxiliar de limpeza lá no escritório. Bate o cartão às 6 horas e lá pelas 3 da tarde, retira cuidadosamente o cansado uniforme verde e segue para casa. O seu nome, que mais parece abreviação de coisa alguma, condiz com sua fisionomia miúda e delgada, com seu incompleto “metro e meio” de altura e seus óculos minúsculos de tartaruga. Quantas vezes, no silêncio de um corredor, eu quis lhe perguntar a origem do prenome. Se seria Eudes o pai e Nívea a mãe, fazendo assim uma homenagem a união de ambos. Ou se seria preguiça de um escrivão frustrado que errara o Eunice e a deixara incompleta na denominação. Pois a economia que fizeram em seu batismo e em suas formas foi compensada em seu espírito. Dona Euni foi dotada de uma inquebrantável força nos ossos da alma.
Enquanto a maioria adormece no primeiro ônibus do dia, ela conversa animada com o cobrador e sorri um riso que, verdadeiramente, é o primeiro raio de sol da manhã. Dona Euni ali é mais do que uma passageira, é a simpatia que conhece a todos pelo nome, que pergunta pelo filho doente, pela festa de casamento do sábado. Resultado de nove anos fazendo o mesmo caminho todos os dias. E quando ela desce do coletivo para subir a longa rua até o trabalho, parece que as luzes se apagam dentro do ônibus e tudo volta a ser preto-e-branco cotidiano. Mas ao mesmo tempo, é quando ela começa a encher a rua, o portão de entrada da empresa e os rostos de quem vai encontrando pelo caminho com uma energia contagiante.
Euni, a quem a idade e o respeito me fazem chamar de "dona", lava o chão e os espelhos do banheiro com esmero, como se fossem seus aqueles metros quadrados de nenhuma cor. Vez ou outra, vem com seu paninho dar um jeito na minha mesa, tirar o pó da minha máquina, limpar o café que insiste em cair no teclado. Outro dia, ao limpar as gavetas das mesas, viu-se de joelhos no chão acarpetado. Quando a olhei em tal posição, não pude conter meu desconforto e pela primeira vez, desviei os olhos daquela figura e fingi estar absorvida na tela do computador. Tive vergonha de vê-la assim. Mas dona Euni continuava a sorrir e aproveitava o seu ofício para puxar papo. De mesa em mesa, ouvia uma brincadeira, ganhava um sorriso, fazia uma graça. Dona Euni é assim.
Diariamente, com sua voz rouca e diminutiva, deseja a todos, um a um, um "bom dia". Por vezes, os seus ouvidos têm que se contentar com um indigno silêncio por parte de um engravatado ou outro. E quando isso acontece, por um instante, uma sombra atravessa seus olhos e parece querer apagar aquele brilho inexplicável. Mas ela nunca foi dada à autocomiseração. Aos 40 e tantos anos, tia solteirona de quatro crianças, ainda mora com os pais já idosos. Diz que não sonha em se casar. “Homem dá muito trabalho, minha filha”. Ainda assim, perfuma-se generosamente, penteia os cabelos com esmero e atravessa a cidade com um batom vermelho-vivo nos lábios.
Pergunto-me de onde vem tanta alegria. De onde vem o estalo de acordar todos os dias para exercer o ofício de faxineira com tanto esforço, de suportar ônibus lotado e falta de educação de gente que foi tão bem educada. Mas como eu, ainda tão imatura e egoísta poderei compreender? Quisera eu saber tocar a vida como quem varre o chão. Certamente me livraria de muitos erros e limparia o meu coração de arrependimentos. Teria mais “bons dias”, mais nobreza. Seria mais Euni e menos eu.
tags: São Paulo SP textos-ficcao cronica textos-literatura
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Belo texto Agatha. É uma delícia o jeito que você escreve. Mas acho, sinceramente que o teu texto deveria acabar na frase "Quisera eu saber tocar a vida como quem varre o chão." É onde o texto flutua para longe. Leve. O que vem depois, na minha opinião, apenas acumula peso desnecessário.
Valério Fiel da Costa · São Paulo (SP) · 10/5/2007 19:31
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Eu
Ni
EU
Ni
E
Uni
E
un
IEU!
"perfuma-se generosamente, penteia os cabelos com esmero e atravessa a cidade com um batom vermelho-vivo nos lábios".
Eu disse,
Eu sabia:
Mulher se pinta pra sair e deixar a rua mais bonita.
Euni sabe tudo e não tá prosa, nem fazida.
Ágatha,
Que lindo, humano, sensível, mulher, belo, singelo, teu texto inteiro.
Feito tu, menina bonita.
Juliaura · Porto Alegre (RS) · 10/5/2007 20:52
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Oi Valério, obrigada pelo elogio e mais ainda, pelo sincero toque... sempre bom ouvir um conselho de quem não viciou nas próprias letras...
E Juliaura, sempre muito terna... agradeço sua gentileza...
Gostei muito da sua mini-poesia com o nome da Euni.
=)
gaitha · São Paulo (SP) · 10/5/2007 21:50
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Se não é ficção da boa, imprime o teu texto gaitha, os comentários nossos todos e dá a ela um dia destes.
Vai ser ma-ra-vi-lho-so!
Tenho certeza, tô até vendo aqui na bolinha de cristal líquido do computador de uma amiguinha.
Juliaura · Porto Alegre (RS) · 11/5/2007 10:12
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Adorei!
De pessoas assim que o mundo de hoje está tão carente...
Viva as Eunis!
Fê Pavanello · Brasília (DF) · 11/5/2007 13:45
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12 hs e 10 minutos e nem ensava em chorar.
À frente um computador que me leva a ler um texto de Gaitha, que me apresenta Euni e sua vida.
Sentado agora nos assentos suados do ônibus, aguardo o retorno daquela figura miúda, pra tornar meu dia mais feliz...
Salve, Euni!!!
Euni, salve nossas vidas!!!!!
Rangel Castilho · Anastácio (MS) · 12/5/2007 12:58
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Juliaura, pode deixar que eu vou imprimir pra Dona Euni. Acho que ela vai gostar de ler os comentários de vcs!
=)
Fê e Rangel, muitíssimo obrigada pelos comentários!
Salvem as Eunis, vivam muito e pra sempre em nossa memória para nos ajudar a sermos melhores pessoas...
gaitha · São Paulo (SP) · 12/5/2007 14:50
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Belo conto, Gaitha. Parabéns.
Carlos Magno.
carlos magno · Rio de Janeiro (RJ) · 12/5/2007 20:10
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