Blusa branca de botões, saia preta abaixo dos joelhos, coque nos cabelos. Difícil calcular a idade. A ausência de dentes, o par de muletas, o detalhe do cordão amarrando a alça da sandália velha e a quase incapacidade de se comunicar (ou será minha quase incapacidade de me comunicar com ela?)... Eva. Precisei de mais de cinco encontros para saber parte de sua história. Na fila, a gente tem receio de perguntar muito sobre as pessoas. Ontem soube do seu acidente, que a fez dependente do par de muletas para sempre: pegou uma carona num carro que bateu num ônibus e a fez passar dois anos e meio no hospital. A perna esquerda foi esmagada e hoje é uma massa disforme que ela esconde sob a saia comprida. O crânio foi reconstituído com placa de platina e ela ainda extrai cacos de vidro debaixo do couro cabeludo (peço pra alguém tirar com a agulha, diz rindo).
Eva sorri o tempo inteiro, como se vivesse no melhor dos mundos. Está feliz porque vai ver o filho. “É o filho mais carinhoso meu”. Oito anos de prisão, dos quais já cumpriu dois. E, em todas as visitas quinzenais, Eva está na fila. Para chegar lá enfrenta dois terminais do Transcol e as longas esperas das filas dos ônibus. Debaixo de chuva, chega enlameada, rindo: “o ônibus passou e jogou lama pra tudo que é lado”. Lava os pés na poça barrenta perto do galpão de espera. Não tem água nos banheiros sujos, o jeito e lavar a lama com a água empoçada.
Pergunto do acidente. Ela sorri: “foi a melhor época da minha vida!” me espanto. Ela explica: “eu era muito considerada no hospital. Os médicos chegavam pra trabalhar e iam direto me ver. Eles gostavam de mim demais. No meu aniversário, no natal, era tanto do presente que eu ganhava, umas braçadas de flor, chocolate, bolo, era roupa bonita... As enfermeiras todas eram muito minhas amigas. Eu sabia de tudo do hospital. Também... dois anos e meio lá!” E Eva desfia uma enorme quantidade de histórias do hospital, sempre rindo.
As duas maiores felicidades da vida de Eva: os dias de visita ao filho preso e o tempo que passou num hospital. Eva é feliz.
Eva é a primeira história da série "pessoas que sabem esperar", do blog A Fila.
"pessoas que sabem esperar..." Chego a acreditar que são as felizes. E fico me perguntando se a felicidade é dom daqueles que se contentam com pouco, ou se é a simplicidade a porta por onde só entram os puros de coração. E me indago se quero ser feliz assim.
Dúvidas e indagações à parte, percebo na Claudia Rangel o domínio da arte de narrar e um olhar cirúrgico e entendedor, mas igualmente espantado por encontrar alguém tranqüilo e alegre em meio aos trapos e à miséria.
E parabéns pela escolha do tema: "pessoas que sabem esperar..."
Onivaldo, sei lá... acho que felicidade é um conceito tão relativo a abstrato. O que para mim é pouco pode ser o máximo para outro e vice versa. Admiro muito quem é feliz mesmo diante das dificuldades enormes da vida. No fundo, acho que isso as torna superiores a quem (como eu) muitas vezes reclama de barriga cheia.
Obrigada pela leitura atenta.
abraços!
Ilhandarilha · Vitória (ES) ·
Eva
Um Lindo texto na sua expressão de sentimento e no tocar do nosso coração.
Parece uma Crucificação e pelo fato da crucificação ter sido do Jesus, a Crucificação pássa a ser a maior felicidade.
A Luz e o sentido da Vida, senão,... não seria nada...
Deve de ser um ser de muita Luz e de confiança de Deus, para vir e fazer esta tão dificil missão na vida.
A gente lê e fica comovido.
A Vida realmente é só uma passagem, e à nossa volta há uma porção de Anjos nos dando lições de vida, pra gente aprender e dar sentido pra nossa vida.
Parabéns pelo Trabalho de um tema tão comovente.
Abração Amigo.
Acho que todos nós conhecemos alguém que faz a sua felicidade da própria desgraça. Acredita que ao olhar para traz sempre haverá algo pior. São pessoas que nos dão exemplos e nos fazer parar para refletir sobre nossas exigências.
Parabéns. Ivette G M
Pessoas que sabem esperar. Vou esperar e acompanhar.
abraço
andre
André, vc pode acompanhar mais histórias no blog (link no espaço sobre a obra).
Ivette, concordo com vc. Vejo nisso sabedoria. beijos
Muito bom. Grandeza de Espírito.
Num lampejo rasante... Saúde. Luz e Paz. jbconrado
Booommm Diaaa menina Ilhandarilha!
Muito reflexiva sobre o nosso existencialismo, sua cronica. Esperamos anciosos pelo continuum dessas estórias que vivenciam o otimismo, quase sempre, diante de situações reais, que fariam muitos preferirem o "não viver"...
Também escrevo séries talvez parecidas, que intitulo "Flashes do Cotidiano", onde relato pequenas estórias que pude como observador das janelas das vidas captar.
karinhos kentinhos,
ZecaFeliz - gaDs!
Quase em Tempo:
onde escrito acima "anciosos" - leia-se ansiosos de "ansiar". Esse meu dedo indicador, precisa voltar aos bancos escolares...
ZF
gaDs!
gostei mto da narrativa.
empolgante o texto e uma lição de vida!
bjssssssss;)
Claudia, obrigada pela leitura!
Zeca, gosto de fazer esses relatos também.
Ayruman, valeu a presença e a leitura.
beijos!
Cada um escolhe seus dias melhores, com certeza dias que ela teve atenção e assim lembranças daquela gente que também sofre e apoia.Parabens, mas pra mim essas nao são lembranças agradáveis, principalmente em hospitais...
Bravo! Dá para pensar...
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