Dizem que, além dos quatro Evangelhos que todos conhecemos, que são os oficiais, ditos sincrônicos, há outros mais, ditos apócrifos, nome antipático para o que melhor se qualificaria de oficiosos, alguns dos quais contam algumas historinhas sobre a infância de Jesus. Como aquela que narra o hábito que ele tinha de fazer passarinhos de barro, que ia colocando ali, ao lado dele, um ao lado do outro. Quando se cansava, ele, entre um bocejo e outro, dava um sopro sobre eles e as avezinhas saÃam voando em bando.
Meu pai nos contava o dia em que, indo pregar em outra freguesia, Jesus levou consigo o amigo Pedro, recomendando que este trouxesse no embornal um frango assado, determinando ao cabeçudo amigo que só abrisse o matulão quando chegassem ao destino. O Pedro, porém, com fome, enfiou a mão na cesta e arrancou do frango uma das pernas, que comeu discretamente. Quando se sentaram para comer e o Mestre descobriu que faltava uma perna ao frango, repreendem o discÃpulo. “Mas esta é uma ave de uma perna sóâ€, justificou o apóstolo. Prosseguiram viagem e, lá adiante, havia umas aves pernaltas, fazendo a sesta sobre apenas uma das pernas, a outra guardada debaixo da asa, talvez jaburu, se é que havia dessa ave por lá. O Pedro não perdeu a oportunidade. “Veja, Mestre, ali está a ave de que lhe faleiâ€. O Mestre correu até elas, espantando-as, e elas se puseram a correr, mostrando agora as suas duas pernas lá delas. O Pedro não se fez de achado: “Eita home bão pra fazê milagre, sô!â€
Que importância terá o fato de não termos prova da veracidade desses mÃni-contos? Vi certa vez uma ilustração em que o menino Jesus, de camisolão ocidental até os pés, rosto branco como um escandinavo e cabelos arianos loiros caindo pelos ombros, está numa oficina muito bem aparelhada, ajudando o pai carpinteiro. Já o Zé Saramago, com a liberdade que sua genialidade poética lhe permite, descreve uma refeição na gruta do casal: José, de cócoras, prato amparado na mão esquerda, com a mão direita fazendo as trouxinhas de comida que leva sucessivamente à boca. No canto escuro, Maria espia, de pé, encostada na parede, aguardando sua vez de almoçar, talvez coçando as costas. Sei de algumas pessoas freqüentadoras de missa que não foram além dessa página.
Acho que todos temos o direito de sonhar e, sonhando, construirmos o mundo que gostarÃamos de ter. Ou imaginando, no sonho, como o mundo talvez pudesse até ser muito pior do que já é, consolo dos inconsoláveis. Daà os sonhos de que nós acordamos alegres e aqueles de que acordamos ofegantes, coração disparado, mas felizes por voltarmos a este mundo caótico, menos terrÃvel do que aquele que havÃamos construÃdo no sonho recentemente sonhado. Sonhamos o sonho de que necessitamos, dizem alguns estudiosos dessas coisas do inconsciente, esse porão mal iluminado amontoado de lembranças passadas e futuras. “Esse porão nunca é mais escuro do que a meia-noite†disse eu à ArtemÃsia, minha psicoterapeuta, nome infeliz, pois terapia se refere a quem está doente e o bate-papo com psicólogo ou psicóloga só faz quem tem juÃzo, né, Cláudia?
“Nunca será mais escuro do que a meia-noite†disse eu certa ocasião, repito, procurando acalmar os temores dela, analista responsável, diante de minha ocasional depressão e aonde pode chegar um deprimido. “Isso não vale para o porão do inconscienteâ€, disse-me a ArtemÃsia, nome mais bonito esse, recomendando cautela quando avançar por esses corredores escuros. Há os que aà se perdem e não encontram mais a porta da saÃda, eternizando-se no seu labirinto mental.
Aliás, procurei psicoterapeuta, dentre outros motivos, porque tenho dado tratos ao juÃzo para tentar descobrir o que levaria Deus a humanizar-se no seio da famÃlia de um carpinteiro. Se nem uma folha de árvore, se nem um dos cabelos masculinos despede-se da vida sem autorização divina, claro está que o EspÃrito Santo haveria de ter algo em mente quando, podendo escolher a casa de um polÃtico ou de um comerciante para aà botar o ovo da futura Humanidade, resolveu deixá-la naquela gruta do Saramago.
Fiquemos com a primeira hipótese. José, eleito recentemente Prefeito ou Governador, recebe na sala de visitas correligionários, com os quais discute verbas para a aquisição de mulas e camelos, com os quais poderão ser atendidos doentes residentes em sÃtios mais distantes. E também as verbas para a aquisição e distribuição de merendas à s crianças das favelas locais. “Nossa comissão nesse negócio será de tantoâ€, diz um dos recém-chegados. Jesus, pelo vão da porta, só espia, ansioso, a cara do pai.
Não. Melhor pensarmos na segunda hipótese. O pai de Jesus é um rico comerciante de tecidos. As belas roupas do filho, que vive passeando pelos arredores da cidade, entrando em casebres e limpando, com a manga de suas belas roupas, o ranho das crianças que encontra, são como anúncios ambulantes. Quem vê a roupa dele sabe que o importador é o José, aquele um que é casado com a Miriam. Um dia, o jovem Jesus é repreendido pelo pai, pois não deve andar por esses lugares de má fama. “Eu já não lhe comprei tÃtulo de clube de golfe? Então, que história é essa de andar com más companhias por lugares ermos? Vá dar uma volta de jet-ski, meu filho.†Além do mais, o que haverão de dizer as freqüentadoras daquele shopping nazareno vendo os tecidos exclusivos ali vendidos, importados graças a facilidades fiscais obtidas junto ao Senado romano, sendo empregados para limpar as sujeiras dessa gente periférica?
O filho teria um acesso de santa ira, como aquela que mais tarde ele viria a ter na escadaria do templo, tiraria a roupa, jogaria no chão, e sentenciaria, solene: “Eu não preciso dessa merda para ser feliz!†E sairia à rua nu, catando pedras para restaurar uma capelinha do bairro periférico que está a merecer algum reparo fÃsico. Talvez que ali as crianças aprendam a ler e escrever, sonha ele, que talvez ali seja chamado de Chico.
Fico, porém, com a hipótese oficial. O menino Jesus está ali pendurando portas em batentes. Enquanto o corpo trabalha, a mente não descansa. “E pensar que a casa de meu Pai tem muito mais portas do que temos aqui!†resmunga ele, enquanto tira o suor do rosto com a manga da longa túnica. “Disse alguma coisa, filho? O barulho da serra não me deixa ouvir.â€
Ou então passando a bonequinha de pano embebida em verniz sobre os desenhos da madeira, que ele acaricia. “E pensar que ainda ontem isto era uma árvore!†Vejo-o empolgado por essa idéia. Ele pára o que estava fazendo, volta-se para uma assistência de fiéis imaginários, e se põe a discorrer. “A semente morre e temos a árvore; a árvore morre e temos sua presença entre nós por gerações e gerações, sempre pronta a servir, como cadeira, como mesa, como algum outro utensÃlio. E vós? Sois semente? Sois árvore? Pois eu vos convido a serdes árvores eternizadas na utilidade que emprestardes à vossa vida. A cadeira não existe para si. A mesa não existe para si. E vós, a quem serve a vossa existência?†José, muito compreensivo, aproxima-se dele, passa a mão nos cabelos negros encaracolados do filho. “Vá brincar um pouco, filho. O tempo das coisas sérias pode esperarâ€.
Muito bem escrito, de construção bem feita.
Foi inovador, gostei de todos os paragrafos que apesar de grandes não são cansativos.
Bolto pra votar
Circus do Suannes · São Paulo (SP
Evangelhos apócrifos
Tem mais coisas entre o Céu e a terra do que ensina nossa vá Filosofia.
Que sejam para o Bem , pra nos libertar da obscuridade e da mediocridade e podermos ajudar o mundop ser melhor
Tudo tem de ser pra ajudar a melhorar e a libertar.
Parabéns pelo Trabalho.
Abracáo Amigo
Suannes:
Se não leu ainda, recomendo "Las Cartas Secretas de Jesus" - não possui tradução p/ português.
abraço !!
Muito bom seu texto! Desenvolve bem os temas nos fazendo ler com atencao...
A vida de Nosso Senhor tem mil e uma expeculacoes, pois a curiosidade e o que nos leva a isto.
Mas, o mais importante foi a mensagem que ele deixou para todos nos, que devemos mante- la viva, todos os dias se for possivel!
Alias seu texto faz-nos refletir sobre o dia a dia de nossas vidas, uma vez que Ele fez tanto em tao pouco tempo de sua vida! Viveu pouco, morreu para viver a vida eterna...
Parabens pelo texto,
victorvapf
A reflexão é importante e esclarecedora! Os apócritos, entretanto contam a verdadeira rotina de Jesus, suas iniciações, a missão em Chasmirra a iniciação no Egito em Potala em Lhasa e sua formação no Grande Oriente alem da sua origem como saserdote de Melquisedek! O milagreiro era necessário a massa que esperava manifestações extraordinárias. Qualque mago, xanã ou iniciado faz esses "milagres" ou similares. O verdadeiro livro apócrito q
raphaelreys · Montes Claros, MG 19/1/2009 17:03Continuando, pois escapuliu! Que conta a história da Umanidade é AS ESTÂNCIAS DE DZIAN", escrito por Blavastsk. Ver também O TESTAMENTO DE SÃO JOÃO, de Benitez
raphaelreys · Montes Claros, MG 19/1/2009 17:06
Adorável, caro Suanes. Recorda "Il primo miracolo...", de Dario Fo, que Birindeli encena, como escreves, magistralmente.
Juliaura · Porto Alegre, RS 19/1/2009 21:00Gostei muitÃssimo. Muito inspirado....Bjs e Parabéns Langinha....
Langinha · São Paulo, SP 20/1/2009 13:12
Juliaura: conheço alguma coisa do Dario Fo, mas essa peça ainda não vi.
Solange: fico feliz por tua volta. E quando teremos novo texto seu? Uma férias por vezes nos revigoram.
Reys: vou tentar encontrar esses textos na estantevirtual. Conhece?
Dalila: "quem sai aos seus não degenera".
Maxxima: precisas ler o Saramago, minha amiga.
Maravilhoso, Suannes...Em verdade vos digo : acalentou-me, trouxe-me brilho aquoso aos olhos, daqueles que só o Homem-Filho-Pai, pode trazer...
Oa Apócrifos ( ou o evangelho secreto de Jesus) estão citados como tema principal do "stigmata""...Não preciso de paredes e tetos para estar convosco...sem quiseres, até debaixo de uma pedra ou no meio de um graveto me encontrarás..."
Bravo !
Ué, sumiu meu comentário. Continuo gostando e votando. Lila Su.
Lila Su · São Paulo, SP 21/1/2009 10:57Querido Mestre! Mais um motivo de grande fé-licidade. O Francimar vai gostar dessa. Abs. Cleanto
Cleanto Farina Weidlich · Carazinho, RS 21/1/2009 11:22
Muito bom. No livro de Guiraldes, Don Segundo Sombra, li uma passagem que narra uma estória que Jesus visitou uma ferreiro pobre que fabricou com restos de objetos de prata uma ferradura para o seu jumento, já que havia perdido de uma pata, e depois segue o conto envolvendo um grupo de diabos que surgem para levar a alama do pobre ferreiro, que por sinal chamava-se Miséria. O conto é muito interessante. Mas acho que não é o caso de transcrever aqui, uma vez que para matar acuriosidade basta ler Don Segundo Sombra de Ricardo Güiraldes (Com trema). Parabéns Mestre.
Eldo Meira · Carazinho, RS 21/1/2009 12:12
Muito interessante e inteligente como sempre voce nos brinda! Parabéns!
beijos poéticos,
interessante e bonito o texto, parabéns.
votado.
Voto em você, com prazer: gostei dos seus escritos. Obrigada pela "força": quem sabe, uma hora, né ??? bjs Langinha
Langinha · São Paulo, SP 21/1/2009 16:55O meu avô disse uma vez,que Jesus mandou Pedro abençoar o mundo.Ele tinha que passar por 3 rios,que não bebesse a água do primeiro rio,nem do sengundo,mas do terceiro rio.Chegando Pedro no primeiro rio,estava cansado,suado e com muita sêde.Abaixou,bebeu o quanto podia da água.Viu que a água era boa, encheu a botija.dali a pouco começou a cambalear.Ele subiu a monte bem alto de onde abençoaria o mundo e ao invés de dizer:mundo abencoado,disse: MUNDO DE MAL A PIOR.
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 22/1/2009 11:23
Suannes.
No final tudo é e será um questão de fé. A minha não cessa.
Belo texto
Abraços
Noélio
Gosto muito de uma frase atribuÃda a Santo Agostinho: "Pai, que eu creia". Ela é paradoxal, pois a condição para que eu me dirija a Deus é justamente crer n'Ele.
Texto Ãmpar como poucos Circus, nos leva a pensar que neste conglomerado de carpintaria e marcenaria, nesta transnacional da indústria moveleira, se Jesus Cristo fosse judeu como por aà apregoam, não teria sido preso, humilhado, torturado, crucificado, martirizado. Estaria implantado o corporativismo na idade antiga, prova fiel que Ele era hebreu, sendo assim e partindo desta corrente, morreu por ser estrangeiro.
Texto impecável.
Votado.
Abç.
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