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Evolução

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
21/6/2009 · 9 · 4
 

“O carvão, o petróleo e o gás são chamados combustíveis fósseis porque são compostos principalmente dos resíduos fósseis de seres remotos. A nossa civilização funciona pela queima dos resíduos de criaturas humildes que habitaram a Terra centenas de milhões de anos antes que os primeiros humanos aparecessem na cena. Como num terrível culto canibal, subsistimos dos corpos de nossos ancestrais e parentes distantes.”

(Carl Sagan, Bilhões e bilhões)



Nossos bisavós acreditavam que a religião lhes servia para saber tudo o que precisava ser aprendido. E viviam muito felizes. Pelo menos foi essa a idéia que nos foi transmitida por nossos avós. Já os nossos pais, talvez eles pensassem que a coisa não era bem assim. Alguns deles, mais exagerados, chegavam a negar qualquer valor àquelas verdades dogmáticas. “O que a ciência não comprova eu não aceito”. Ou, como dizia o pai de um amigo meu, que, espelhando-se no exemplo paterno, um dia, jovem ainda, proclamou que ele também era ateu. Ou agnóstico, sei lá. “E você lá tem idade para não acreditar em Deus, Juca?” foi o sábio conselho que o futuro jornalista esportivo ouviu na ocasião. Já o Charles, esse descobriu que Deus por vezes escreve direito por linhas tortas: levou a filha do cientista e, com ela, sua fé. Resultado: o homem resolveu publicar suas anotações sobre a origem das espécies, por mais que isso desagradasse sua querida e carola Emma. E deu no que deu.
Graças à ciência aprendemos que a vida começou no mar, o verdadeiro pulmão da Humanidade. Um dia os peixes se cansaram daquele ir e vir infernal e resolveram tentar a vida cá fora. Parece que, de início, deslumbrados com o tamanho do céu, os antigos peixes resolveram explorar todo aquele espaço. Mas logo descobriram que bater as asas vinte e quatro horas por dia não estava com nada. Até porque precisavam de comer e de beber, se quisessem sobreviver. Talvez até dormir, coisa que, segundo dizem, até os peixes fazem. Aliás, botar ovos na maciez das nuvens, nem pensar, concluíram eles, sabiamente. E os peixes, que haviam evoluído para aves, agora evoluíram para mamíferos, coisa, aliás, que as baleias e os golfinhos já eram. Disso segue que, rigorosamente, o morcego não é um rato que voa, como geralmente se diz. Ao contrário, repare que as asas do morcego, cujo esqueleto mostra isso, até mesmo com unhas nas pontas, é o prenúncio do que seriam as pernas dianteiras do rato. A rigor, o rato é que é uma “evolução” do morcego.
O que acaba me levando de volta à religião. Ou, melhor, à sua forma disfarçada de invadir a área pretensamente científica, como a ciência do Direito, que se apóia em dogmas claramente religiosos. Obrigar um judeu ou um muçulmano a ser juiz em uma sala onde está pendurado o símbolo do cristianismo é, quando menos, um disparate. Olha a confusão lá em Brasília. Mas isso é mantido pelos nossos juízes, em nome de algo que o Gilberto Gil, se entendesse do assunto, chamaria de “cultura”.
Um desses dogmas está presente na idéia de que o homem não evolui: é hoje o que foi sempre. Ele não foi criado à imagem e semelhança de Deus, mesmo que não saibamos como é a imagem de Deus? Pois então. O problema será buscarmos descobrir se essa mera semelhança não se tornou identidade. Identidade de quem com quem?
Dizem alguns estudiosos que o que faz a diferença entre o ser humano e os outros animais é capacidade de ter compaixão. Isto é, tentar sentir a mesma dor que o outro sente. Será?
Tudo o que nossos olhos e nosso olfato nos mostram é que os peixes e os macacos jamais haviam pensado em poluir o mar e os rios ou queimar as florestas para produzir mais gás carbono do que a atmosfera poderia suportar. Somente graças à “evolução” do ser humano é que esse “progresso” logrou ser alcançado.
Os verdadeiros cientistas sabem e dizem que a ciência consiste em um conjunto de conclusões que se baseiam naquilo que pode ser conhecido hoje. O amanhã a Deus pertence, diriam eles se dissessem o que pensam.
O Direito pretende ser ciência. Em nome disso proclama que homens e mulheres são iguais. Nem um cego de nascença faria uma afirmação disparatada dessas. Faria, meu caro Francimar? Nem precisa chegar a Papa para sabê-lo. Nem ter lido São Paulo. Mas vá negar esse dogma jurídico para ver o que te acontece.
Diz-se também que todos os homens são bons e que o pecado é coisa natural no ser humano, motivo pelo qual devemos ser tolerantes para com esse sinal de nossa fraqueza, demonstração de que ainda somos apenas imagem, ainda não atingimos a perfeição que só Deus possui. Acontece que “crime” e “pecado” são dois conceitos que não se confundem, cientificamente falando. A penitência, que a teologia católica vincula ao pecado, nada tem a ver com a pena, que o Direito Penal vincula ao crime. O “olho por olho”, por sinal de origem religiosa, tinha por escopo, na área mundana, mostrar ao pecador o tamanho do mal que havia causado. Mataram 13 do lado de cá? Pois que morram 13 do lado de lá. Graças à contaminação religiosa, deu-se ao local onde os criminosos, nos países mais atrasados, devem ficar durante algum tempo, depois de condenados por uma autoridade civil, o sintomático nome de “penitenciária”. O estrago estava feito. Roubou cem ou roubou um milhão? Pena de três anos, com direito de liberdade provisória depois de alguns dias do início do cumprimento. Só não imita o criminoso quem for muito besta. Ou muito medroso.
Felizmente, para a sobrevivência de outros animais, a evolução do ser humano está a produzir o derretimento das geleiras do hemisfério norte da Terra. Com isso, o nível dos oceanos deve elevar-se até cinco metros nas próximas décadas, segundo os cálculos mais otimistas. O que bastará para fazer submergir as principais cidades que a inteligência humana fez construir nos litorais do mundo. Graças a isso os peixes voltarão a multiplicar-se, até porque não haverá o ser humano para dizimá-los com barcos pesqueiros providos de sonar. Com o tempo voltarão a voar. Depois terão as asas atrofiadas. Um belo dia aparecerá de novo na face da Terra um evoluído animal, andando sobre as patas traseiras, que se achará no direito de encerrar o ciclo evolutivo, dizendo-se o eleito de Deus. Com ele virá nova revolução industrial, produção de bens supérfluos sempre crescente para atender ao consumismo desenfreado, países lutando para preservar suas fontes de combustível e seus mercados cativos e tudo o mais que já conhecemos.
E tome poluição.
Para quem nasceu em 1809, Charles Darwin vai muito bem de saúde. Que diria ele se tivesse nascido depois da decifração da famosa escada encaracolada? Ou se soubesse que os geneticistas concluíram que a diferença entre a composição do DNA do ser humano e o dos chimpanzés é de míseros 2%? Talvez nem isso.

Sobre a obra


Plus ça change, plus c'est la même chose.

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MonyBlu
 

hmmm, o rosto nesse desenho me lembra alguém... que, por sinal, me ajuda sempre a EVOLUIR!

MonyBlu · São Paulo, SP 21/6/2009 22:51
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto,
Apesar de toda a evolução, o mundo parece caminhar
para uma revolução...
E fico com as palavras de Armando R. Silva Prado em seu - Migalhas-

" Já diziam os antigos: cada um com sua arte. Portanto, nas igrejas os símbolos e os sinais religiosos, nos tribunais a ética e a justiça, que normalmente, mão precisam ser pendurados na parede, mas praticados pelos humanos.
É isso,
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/6/2009 18:30
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CEARUCHO
 

"Caro amigo,

Falar sobre o texto, essência e forma, iria ser repetitivo. Por isso,
pego apenas o "gancho" das expressões "cego de nascença" e "olho por
olho" para convidar cegos e banguelas a se congratularem por estarmos
vivendo aqui e agora, porque, lutar pela sobrevivência no tempo do "olho
por olho, dente por dente"... levaríamos a pior."
Votado!

CEARUCHO · Porto Alegre, RS 23/6/2009 10:03
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azuirfilho
 

Circus do Suannes · São Paulo (SP)
Evolução

Um Trabalho delicioso de ler e importantíssimo para todos nós porque nos faz naturalmente refletir.
Qualquer que seja seu tema sempre nos faz pensar, como que uma sacudida para nos libertarmos, desse comportamento passivo induzido pela midia, que controla nosso gosto cultural.
Parabéns e muito obrigado pela colaboração para o pensamento não atrofiar.
Abração Amigo.

azuirfilho · Campinas, SP 23/6/2009 13:25
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