Existe racismo na Igreja Católica?

Claudio Henrique
1
Padre Mauro BH · Itália , WW
19/9/2008 · 117 · 24
 

Fora da África, o Brasil é o país que tem a maior população negra, mas...

Minha análise parte da observação da realidade e não de suposições aleatórias. Nasce do que experimento no meu cotidiano como Vigário, há oito anos, de uma das paróquias de Belo Horizonte. Sou padre há doze anos, mas comecei a refletir sobre os danos causados por nosso modelo racista de sociedade somente quando fui designado para trabalhar e viver em uma favela. O Aglomerado Santa Lúcia, Morro do Papagaio, foi constituído, há vinte anos, como a primeira paróquia formada, exclusivamente, por favelados em Belo Horizonte. A Paróquia recebeu o título de Nossa Senhora do Morro e tem como imagem de devoção uma mulher negra, representando Maria, mãe de Jesus, com uma bacia na cabeça e um Menino, também negro, nos braços.

Assim que cheguei percebi que as coisas não seriam fáceis, o preconceito e o racismo, que tanto me incomodavam, também estavam presentes no coração desta igreja que amo e da qual faço parte. Observando a realidade à minha volta, percebi que todas as paróquias da Zona Sul de Belo Horizonte, abastadas e ricas, tinham como párocos padres brancos e na única paróquia de favela estava o único padre negro da região. Eu poderia considerar tudo isso uma simples coincidência, mas é impossível não se notar “algo”. Estou falando das dezenas de paróquias localizadas nos bairros mais ricos de Belo Horizonte, habitados por grande maioria de brancos e cidadãos, com seus padres brancos, enquanto a favela, habitada por grande maioria de negros, tem um padre negro. Observei também que nas reuniões do clero a grande maioria é de brancos e que quase todos os padres negros, que são poucos, são responsáveis por paróquias das periferias e das favelas. Pensei: “Será que para as paróquias onde estão os negros são enviados só padres negros?” Observei também os casos onde padres brancos estão à frente de paróquias de maioria negra, geralmente são estrangeiros com espírito missionário e profético, dispostos a tudo pela causa do Evangelho.

Acredito ser importante narrar ou, quem sabe, denunciar, o dia que fui convidado para uma festa de natal na PUC-MG. Quando cheguei na portaria, seguindo o fluxo de veículos que se dirigiam para o evento, fui barrado pelo porteiro que me perguntou incisivo: “Para onde você está indo?” Respondi apreensivo: “Para onde estão indo todos os outros…” Ao que me perguntou insistente: “E você sabe para onde eles estão indo?” Respondi impaciente: “Olha, apesar de eu estar em um carro velho e barato, e, principalmente, ser NEGRO, eu estou indo para a festa dos padres, acredite!” Seria mais um “incidente” se, de fato, ao adentrar a festa eu não percebesse que era um dos pouquíssimos negros que estavam ali. Hoje não me admiro com o espanto do porteiro que percebeu que aquela festa, definitivamente, não era pra mim.

Em que momento da minha história não fui agredido pelo olhar preconceituoso e racista daqueles que detêm o poder de selecionar, acolher, encaminhar, formar, ordenar e empossar na Igreja Catolica? Estar hoje em uma comunidade de maioria negra foi realmente uma escolha minha ou a Nossa Senhora do Morro, em Belo Horizonte, é uma das poucas paróquias onde um padre negro é bem vindo? Olho para os altos e médios escalões da hierarquia eclesiástica e só vejo brancos! São eles que decidem as formas de intervenção nas favelas e, também, onde e como será aplicado o dinheiro da igreja e não os padres negros, do chamado “baixo clero”, que trabalham e vivem nestas comunidades. O que detêm o poder na igreja não conseguem “entrar” neste universo e contruir algo diferente do que já vem sendo feito a séculos. Não entendem nossa luta, não vivem nossa realidade, não sofrem com o racismo e a discriminação que nos corrói. Talvez seja por isso que quando trago para a liturgia elementos da cultura negra e africana sou tachado de “Folclórico”.

Bem, não vou ficar esperando que me concedam um “lugar ao sol”. Não quero nada que me seja concedido, quero só o que for fruto da luta e das conquistas históricas do meu povo negro. Ah, só pra provocar um pouquinho: Já estive em um Terreiro de Candomblé, no Bairro Milionários, em Belo Horizonte, e a Mãe de Santo, Mãe Wanda, se referiu a mim como um verdadeiro filho de Oduduwa, famoso Rei Africano, pai de diversas dinastias Iorubás. Na época não entendi o que ela queria dizer. Hoje, emocionado, agradeço!

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Autoria
Padre Mauro Luiz da Silva
Ficha técnica
Nasci em Belo Horizonte e tenho 41 anos. Acredito ser um bom Catequista, fui ordenado sacerdote em 1985, sou Negro, Atleticano, Favelado, gosto de pintar, sou amante da Filosofia e da boa cozinha, me interesso por Teologia e espero ser um bom vizinho…
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Higor Assis
 

Padre Mauro, ando estudando bastante a formação da nossa sociedade e a questão abolicionista. Há muita coisa errada que não foi dita e uma delas é a questão da igreja perante o negro.

Na época da escravidão os padres tinha escravos e durante muito tempo em nenhum momento esboçou simpatia pela libertação deles. Isso é só a ponta de tudo que aconteceu.

Aprendi bastante com sua reflexão. Seja bem vindo!

Higor Assis · São Paulo, SP 17/9/2008 08:51
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Padre Mauro BH
 

Obrigado Higor, mas ainda nao sei como fazer isso... Estou tentando alterar o texto e nao consigo!

Padre Mauro BH · Itália , WW 17/9/2008 08:54
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Viktor Chagas
 

Olá, Padre Mauro,

Seu texto é realmente bastante interessante. Eu fiquei particularmente interessado na imagem da Nossa Senhora do Morro que você descreve. Creio que seria muuuito bacana se você fizesse um outro texto só sobre a santa. Uma santa negra, com bacia na cabeça e um menino negro no colo é uma história fabulosa!

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 17/9/2008 16:19
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Padre Mauro BH
 

Legal! Vou escrever entao. Obrigado.

Padre Mauro BH · Itália , WW 17/9/2008 18:11
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Padre Mauro BH
 

Viktor, acho que vou te contratar para meu "revisor de texto"... Muito obrigado mesmo!

Padre Mauro BH · Itália , WW 17/9/2008 18:22
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Ilhandarilha
 

Padre Mauro, o título do seu texto, para mim, deveria ter uma exclamação, e não uma interrogação. Não tenho dúvidas de que a igreja católica, como quase todas as instituições de forte hieraquia, infelizmente é segregadora. Apesar de haver nela pessoas que, como vc, acreditam no evangelho que prega a igualdade e a solidariedade humana, historicamente a igreja católica esteve sempre ao lado do poder (quando não era, ela mesmo, o poder). O racismo que vc detecta - e sente na pele - não é mais que um reflexo disso.

Sua reflexão é muito boa. Partilhar suas observações e sentimentos em relação a isso aqui, sendo vc um membro da igreja, é um ato de coragem. Parabéns!

abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 17/9/2008 20:34
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Padre Mauro BH
 

Obrigado Claudia. Mas nao sei se consigo transferir o texto! Estou apenas chegando!

Padre Mauro BH · Itália , WW 18/9/2008 04:11
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walnizia santos
 

Parabéns, Padre Mauro, pela sua coragem, espirito cristão e dignidade. Seu texto-reflexão é muito bom e esclarecedor.
Essa segregação existe mesmo e abrange outras situações, dentro da igreja.
Seja benvindo e poste sempre seus trabalhos, suas idéias que sei, irá contribuir enormemente.
Um grande abraço

walnizia santos · Brasília, DF 18/9/2008 12:10
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Spírito Santo
 

Mauro,

O seu desabafo me lembrou, de cara, um incidente curioso e, a este mesmo respeito, emblemático, ocorrido aí mesmo em Minas Gerais, no tempo em que eu pesquisava Congados numa ciadde chamada Oliveira.
Contou-me um mestre de Congada (que como você bem sabe é uma festa afro-católica tradicionalíssima em seu estado) que ali por volta de 1938, se bem me lembro, um bispo da região proibiu os ternos de Congo de adentrarem as igrejas tocando seus tambores e entoando seus 'pontos' e cantigas. Um belo dia, o Bispo adoeceu de uma erisipela crônica, muito grave, que estava quase a lhe fazer amputar a perna. Uma pessoa lhe disse que havia na periferia uma velha negra, curandeira que podia curá-lo da doença com mezinhas lá ao jeito da cultura africana dela. Sem saída o bispo aceitou a visita da curandeira que, para curá-lo exigiu, incondicionalmente, que ele autorizasse a volta dos tambores à igreja. O bispo, constrangido, aceitou e se viu, realmente, curado.
Até o ponto em voltei à cidade (década de 80) pude asistir aos tambores ecoando no púlpido, gloriosos. Revolhi muitas histórias iguais a esta aí em Minas, em diversas cidades onde haviam Congadas. São histórias, me pareceram, exemplares.
Desejo sorte na sua saga e redenção de negro pastor.

Grande abraço fraterno

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 18/9/2008 13:36
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victorvapf
 

Padre, meu pai ajudou construir as igrejas da Floresta, Sao Sebastiao no Barro Preto, Igreja Cura D'Ars no Bairro do Prado e Igreja do Menino Jesus no Bairro Santo Antonio, sendo que esta eu me lembro porque mudavamos muito, e fixamos neste bairro pois meu pai tinha comprado sua casa. Mas na Igreja Menino de Jesus tinha uma comissao da construcao e o Presidente da Comissao recebeu o titulo de Comendador dado pela Santa Se... Agora te pergunto? Este recebeu um titulo so porque era presidente de uma comissao e meu pai que levou a vida toda construindo Igrejas nao recebeu titulo nenhum...Nem por isso ele se sentiu relegado a plano inferior, aceitou o fato como designios de Deus. Creio que o Senhor e um privilegiado, pois tem um rebanho para tomar conta e ainda luta contra as injusticas da vida. A sua recompensa sera plena, nada impedindo de fazer seus desabafos. Se a Igreja fosse infalivel, seria muito facil ter fe. Abracos e gostei muito do seu texto.

victorvapf · Belo Horizonte, MG 18/9/2008 18:01
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Adroaldo Bauer
 

Sim!
Infelizmente, embora se funde ela sobre nobrwa princípios cristãos e os reinvidique ainda hoje.
Está como aqueles programas bem redigidos dos partidos comunistas e socialistas de fins do século passado: serve o discurso para os dias de festa.
No rame-rame, no vamo que vamo, no vapt, vupt, é cada um com seu cada qual e eles são mais iguais, os não negros.
Não vi qualquer súcia de banqueiros se reunir para salvar a África da miséria que os próprios europeus impuseram a ela.
Mas a bancarrota capitalista tá defendida hoje por seis bancos centrais de potências de algum interesse na continuidade da exploração capitalista dos produtores do mundo inteiro.
Sim!
Ainda hoje a Igreja Católica é majoritariamente racista.
Aqui em Porto Alegre, e posível dar fé dessa assertiva!
Outras igrejas, de novo infelizmente, mesmo que reivindicantes do dízimo e dos preceitos cristãos, também o são.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 18/9/2008 22:09
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Adroaldo Bauer
 

quis escrever: nobres princípios cristãos

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 18/9/2008 22:10
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Padre Mauro BH
 

Nossa! (estou com um teclado italiano, ta?) Os comentarios aparecem como desabafos também... Eu fiz isso, resolvi escrever sobre meus pensamentos e sem medo de dizer o que penso. Ixiste racismo na Igreja Catolica sim! Como em qualquer instituiçao. Isso nao é novidade pra ninguém, ok? Nao sou e nem quero ser nenhum "revolucionariozinho" idiota que sai "cuspindo no prato que comeu" e, por isso, quero informar que esta instituiçao, que agora critico, foi quem me acolheu na infancia e me fez ser, juntamente com tantas outras, o que sou hoje. Meu sentimento com relaçao a Igreja hije é o seguinte: sinto-me amado e, ao mesmo tempo, odiado por ter a coragem de pensar (que ousadia, né?). Uma coisa que nao consegui explicitar no texto é que para mim quando fiz a pergunta: "Existe racismo na Igreja Catolica?" Eu estava pensando na hierarquia e isso nao me interessa em nada. Quando falo de Igreja, penso no meu povo negro favelado e amado do Morro do Papagaio... Hummmmm Penso na Dona Narcila, Fabiola, Zé Laurentino, Dona Marta, Dona Jovem, Dona Generosa... Penso em gente e nao em padres com suas saias e franjas. Se voce me pergunta se existe racismo na Igreja Catolica eu também posso te responder: "Nao"... Basta voce viver o que eu vivo toda terça-feira la na Vila Estrela. Completa minha alma, faz tudo ter sentido. Hoje estou bem longe da minha favela, estou estudando em Padova, Italia. Trago esta experiencia comigo.

Padre Mauro BH · Itália , WW 19/9/2008 05:00
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victorvapf
 

As diferencas...Se todos fossem iguais, mesma pele, ainda assim haveria um racismo. Descobririam racas com os pes menores e consequentemente seriam discriminados ou gordos etc e tal. Na realidade nao existe racismo pois isto e inerente do ser humano...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 19/9/2008 06:52
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victorvapf
 

victorvapf · Belo Horizonte, MG 19/9/2008 09:13
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Sérgio Franck
 

Padre, e onde é que não existe racismo no mundo depois da mente humana? Onde houver gente haverá racismo e preconceito.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 19/9/2008 12:25
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Adroaldo Bauer
 

A Igreja Católica Apostólica Romana não são os fiéis da religião católica.
Eles são apenas parte, sabemos.
Não é uma pequena comunidade respeitável e respeitadora dos princípios cristãos, das quais há mihares no mundo, nem os atos de um pároco, que há menos do que os necessários para uma reforma verdadeira da instituição 9 que tornará o Vaticano menos do que é, embora já seja menos pior para a humanidade do que já foi aos tempos da inquisção ou da ocupação colonialista das terras de África e América.
Ataulpa, Sepé Tiaraju, Zumbi são os que não podemos esquecer aqui, naturais da terra, a quem foi informado de que a danação do fogo eterno lhes aguardava se não passassem a pensar que a escravidão era natural.
O colonisalista, religioso, soldado ou colono branco cumpriu a cartilha da Santa Madre á risca: conver, impõe a fé, que não são gente.
Westemoreland, o general estadunidense que perdeu a guerra de ocupação para o Vietnã, também achava o mesmo dos habitantes daqueles campos de arroz.
Nós, essa pobre gente do Congo, ainda enfrentaremos essa parada, porque eles não plantam mais tudo o que comem e aqui, em se plantando dá!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 19/9/2008 14:52
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Adroaldo Bauer
 

Perdão, no caso Zumbi é temerário usar o conceito de natural da terra brasilis, posto que resta dúvida sobre se escravizado foi para aqui trazido de África a ferros ou nascido livre em Palmares.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 19/9/2008 14:58
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Zezito de Oliveira
 

Padre Mauro,
Gostei muito de ler o seu texto e vou enviá-lo também para um padre amigo que tenho aqui em Aracaju e com um perfil bastante semelhante ao seu, negro e comprometido com as causas da justiça e da libertação.
Um grande abraço!

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 19/9/2008 15:53
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Zezito de Oliveira
 

Um complemento importante. Muito daquilo que você descreve no seu texto é semelhante ao que o Padre Givanildo já vivenciou. Até mesmo o lugar onde ele foi pároco e eu professor, é bastante semelhante ao aglomerado Santa Lúcia.
No texto um jardim de talentos está descrito um pouco da nossa experiência em conjunto.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 19/9/2008 16:03
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Padre Mauro BH
 

Vou ler, com certeza. Obrigado!

Padre Mauro BH · Itália , WW 19/9/2008 16:10
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conce
 

lendo seu documento sobre racismo me surgiu uma dúvida . quando estava pesquisando sobre o escravismo na antiguidade. resolvi enviar minha dúvida já que a igreja contribuiu e contribui na formação humana. padre Mauro neste trabalho acadêmico nasceu esta pergunta . na antiguidade os padres da igreja católica tinham escravos sob suas ordens?
desde já agradeço sua atenção e espero contar com sua colaboração neste trabalho de pesquisa.

conce · Mariana, MG 27/4/2011 13:23
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fabmedbot
 

PADRE MAURO, SOU DE BELO HORIZONTE E NECESSITO URGENTEMENTE CONTATO COM UM PADRE NEGRO DAQUI
PODE ME AJUDAR/?

fabmedbot · Belo Horizonte, MG 29/11/2011 18:28
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fabmedbot
 

PADRE, MEU E-MAIL = dr.fabiobotelho@hotmail.com

fabmedbot · Belo Horizonte, MG 29/11/2011 18:55
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