Estranho, né?, ela disse.
O que é estranho?, ele respondeu.
Nós dois aqui...eu simplesmente entrei e...veja só.
Coincidência, ele completou, simpático.
As mãos dela entrelaçadas, nervosa.
Ele olhou o relógio. A chuva havia diminuído. Estava com pressa.
Ela o observava. O expresso havia esfriado. Estava carente.
Naquela manhã um temporal duplicara o caos já diário da cidade. Véspera de feriado, trânsito lento, metrô lotado. Pessoas que, incansavelmente, caminhavam pelas ruas protegidas sob preciosos guarda-chuvas – o que não as livrava de encharcar sapatos em imensas poças d’água nas calçadas, bueiros entupidos pelo lixo urbano e pela própria chuva – que vinha de todos os lados. Ela entrou na cafeteria. Trazia consigo a solidão de uma vida, um semblante sério e a certeza de que aquele temporal acontecia apenas para castigá-la. Sentou-se no fundo, pendurou o casaco molhado na cadeira ao lado, pediu um expresso. O reflexo dos raios que caíam iluminava vez ou outra sua face, denunciando a contrariedade em seu rosto. Algumas quadras dali, do alto de um confortável apartamento, ele observava o céu, cada vez mais escuro. O vento soprava forte, espatifando-se contra a imensa porta da sacada. Rapidamente arrumou-se, beijou a esposa que ainda dormia e saiu. Previa uma estada mais longa pelo trânsito da cidade. Assim foi: quinze minutos após, já dentro do carro, tentava concentrar-se na suave melodia que colocara no som do automóvel – não queria absorver para si o tumulto do engarrafamento. Mas a cidade estava parada. Pensou em tomar um café, mas essa não era uma atividade costumeira. Só estacionou naquela garagem ao lado da simpática cafeteria porque uma placa sinalizava, em letras garrafais, que sobravam vagas. Ninguém parecia perceber isso. Ele percebeu.
Foi dentro do café que eles se olharam. Acima da chuva e do transtorno, havia o olhar, acompanhado pelo barulho dos pingos d’água que batiam contra a janela. Foi ela quem sorriu primeiro. Perguntava-se de onde tirara forças para mover os lábios e fixar o olhar na direção daquele homem. Ele retribuiu. Ela, no fundo. Ele, no balcão. Ela saboreava o expresso quando o viu. Ele procurava um lugar para sentar quando a percebeu sorrindo. Estranho momento. Caminho do trabalho, uma manhã. Uma manhã comum, como tantas. Como todo dia. Exceto pelo temporal. Exceto pelo sorriso dela. Ele achou graça. Com o cardápio na mão, pediu um expresso, enquanto observava a mulher simpática ao fundo. Foi ela quem acenou para ele sentar junto dela. Afinal, ela estava só. Sempre estaria. Não fossem as mesas ocupadas. Ele olhou ao redor. Foi. Apresentaram-se, trocaram amenidades. Falaram da chuva, do caos. Até dos bueiros entupidos. Ele falou sobre o quanto não era acostumado a tomar café, sobre o sapato molhado pela chuva. Ela não o olhava nos olhos, baixava a cabeça escutando-o falar sobre tudo. Percebeu os sapatos dele, encharcados. Era uma manhã de chuva. Ela, indescritivelmente solitária. Ele, com frio nos pés. E de repente, emudeceram. Só o barulho da chuva. Os pingos na janela.
Ela: Pode me falar mais sobre você? Há quanto tempo mora na cidade?
Ele (olhando o relógio): Bastante tempo...Olha, tenho que ir.
Ela, tentando salvar a si própria: Significou algo para você?
No mesmo instante, arrependeu-se da fala. Foi quando percebeu a aliança de casamento dele.
Ele, sem entender: Eu...
Ela, rindo, triste: Tudo bem. Também não significou pra mim.
Levantou-se. Olhou nos olhos dele, pela primeira vez. E saiu. O olhar dele a acompanhou até a porta.
Ela foi embora.
Ele também.
O dia seguiu. A chuva deu trégua.
Acho que já comentei esse conto... ou foi o outro?
Gosto do que vc escreve, Thiago. E esse, em especial, dialoga com um conto meu que não publiquei no overmundo ainda. Às vezes, fico de cara vendo contos se comunicarem entre si... Amotinados! Independentes! A gente escreve, e eles buscam seus próprios caminhos.
Belissima atmosfera, poética ...romântica até, não fosse o caos que impõe descaminhos. Parabéns. Fico torcendo pela publicação. Bjos.
graça grauna · Recife, PE 24/5/2008 08:56Thiago, um belo conto ao qual deixo meu voto com prazer.Sucesso! Abraço
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2008 11:33
urbanidades caóticas em desencontros. beleza, gostei!
meu voto!
um abraço, acácio.
Confirmando a minha admiração por seu fazer poetico, deixo votos e abraços.
graça grauna · Recife, PE 24/5/2008 12:02
Delícia de leitura Thiago. Texto leve. Uma cena corriqueira da realidade urbana, mas que nos leva e refletir sobre nossas maneiras de enxergar o outro e a nós mesmos dentro das nossas angústias, banalizadas muitas vezes entre um café e outro.
Voto e beijo pra você!
Sé consegui chegar agora,mas passo e deixo meus votos por seu ótimo conto.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2008 13:30
votado...muito bom...
samuel
Eu gosto de contos que envovem o codiano, me traz a realidade e dá impressão de que coisas boas, como as dos contos, acontecem na vida real.
Esse foi gostoso. Visualizei tudo e queria que fosse diferente, em alguns detalhes.
excelente conto, uma pena essa aliança de casamento! mas não tirou o charme do jogo de sudução da garota... adorei abraços.
Flávio Cardoso Reis · Luziânia, GO 24/5/2008 20:04
excelente conto, uma pena essa aliança de casamento! mas não tirou o charme do jogo de sedução da garota... adorei abraços.
Flávio Cardoso Reis · Luziânia, GO 24/5/2008 20:04Olá Thiago Toscani, muito interessante seu texto, parabéns garoto!
O sonho de Eucalepito · Cordilheira Alta, SC 25/5/2008 14:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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