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“E você, Leonardo, terás a tua chance tão esperada. Fostes o escolhido. Farás o papel do amante de Mademoiselle Cloi. Dentre as centenas de potenciais candidatos a este papel, todos muito qualificados, você se saiu melhor em quase todos os quesitos. Não exigimos um deles por causa da gripe que abateu a nossa grande atriz, mas que será necessário no filme, isso será! Terás que beijá-la na boca, como exige o roteiro. Tenha em mente garoto, que não será um simples beijo. Será “o beijo”. Todo o filme praticamente gira em torno desta cena. Sugiro que pratique. Evite a sua irmã, se tiver uma, lógico, mas se tiver uma tia solteirona, mande ver certo?” – Disse o diretor de elenco, de maneira afetada, caindo em seguida numa sonora gargalhada.
“Cer..certo” – Respondeu Leonardo, ainda sem acreditar que o papel era seu.
“Não precisa ficar nervoso, você já é um varão de doze anos, e estou certo que já se atraca com as suas colegas de escola, certo?”
Odiei o diretor do filme desde a primeira vez que pus os olhos nele. Pretensioso, centralizador, seguro demais, um egoísta de nascença. O que ele sabia sobre meninos beijarem meninas na escola? Todo mundo sabia que ele era o maior veado. Claro que fiquei alegre pelo meu primeiro papel importante. Minha carreira resumia-se a um reclame televisivo para uma fábrica de tênis infantil, que infelizmente falira. Não fui o pé de coelho esperado para as vendas da empresa. Espero não contribuir também para o naufrágio comercial da minha estréia no cinema. Puta que pariu, beijar uma velha de quase oitenta anos na boca! Me dá vontade de vomitar só de pensar em encarar aquela pelanca que ela chamava de “os lábios mais sedosos do mundo”. Vou ter que encarar, não sei de que jeito, mas vou ter que lhe tacar o maior beijo da sua vida. E acho que da minha também.
Minha prima Bartira, seis anos mais velha que eu, tinha me levado ao teste de táxi, e no caminho de volta pra casa, já parti pro treino.
“Léo seu safado. Vou dizer a sua mãe seu sacana. Aliás, não vou dizer não, você têm a boca mais gostosa que a do escroto do Dario”
E fomos chupando as nossas línguas meio sem jeito até a porta de casa, para o deleite do taxista, que devolveu o troco da corrida para a minha prima com um sorriso de quem queria comê-la ali mesmo, no banco de trás.
A minha mãe possuía um histórico de desequilíbrio mental considerável. Fora internada várias vezes por comer sabonete e tomar banho nua de mangueira no jardim ao meio dia. Acho que ficou assim depois do acidente que matou o meu pai. Hoje vive do jeito dela, como os alcoólatras, alternando momentos de lucidez com outros de apagão total. Quando iniciei a conversa da minha contratação, ela estava enquadrada na segunda categoria. Estava fumando dois cigarros ao mesmo tempo, alternando um na boca e outro entre os dedos da mão. Minha prima entrou em casa e logo saiu, sem suportar aquele andar típico dos malucos, um vai-e-vem interminável, sem nenhum objetivo.
“O papel é meu mãe!” – Gritei correndo para abraçá-la.
“Bom, e o que vai ser?” – Disse, abrindo os braços e virando um pouco o rosto, com cuidado para não queimar o garoto com a ponta dos cigarros acesos.
“Basicamente é beijar uma velha na boca, como no roteiro que lestes”
Não devia ter sido assim tão direto com a minha mãe naquele estado. Logo, ela pôs a mente doente pra funcionar.
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