O assunto é pertinente, porque, de uns tempos para cá, parece reinar a ditadura da felicidade, onde temos de parecer felizes o tempo inteiro, como se a felicidade fosse um estado permanente da alma. É como se não houvesse dor, ansiedade, medo ou quaisquer outros sentimentos tão comuns à alma humana.
O mundo me assombra e intriga
E eu fico perplexa ante a vida:
Nascer!... Viver!... Existir!... Morrer!...
E não importa o grau de dor, ansiedade ou inquietação que você esteja vivenciando, é preciso sempre apresentar uma aura cintilante, emanar alegria, para não infectar os outros com suas chatices e melancolias. É proibido não ser feliz. É proibido ficar triste. Por isso, sorria. Sorria sempre. Sorria mesmo quando a dor ou inquietação contorcer suas entranhas sem dó ou piedade. Afinal, ninguém deve saber do seu real estado de espírito, não é mesmo? A platéia espera por seu espetáculo, a platéia cobra que você seja feliz. A família, os amigos, a sociedade em geral e até você mesmo cobra isso. É a ditadura da “felicidade permanente”, cujo princípio ignora por completo que o sofrimento é um dos canais para o crescimento espiritual.
Tenho momentos longos de fadiga
Ao pressentir no coração uma ferida
De tanto perquirir a razão do meu viver.
Mas o pior é que na ilusão de que é possível atingir esse estado permanente de felicidade, muitos mergulham num poço cada vez mais fundo de depressão, pois não compreendem que toda essa ansiedade por ser feliz a qualquer custo, de qualquer forma, apenas as afasta do que é verdadeiro, do que é real, e elas não conseguem desfrutar de pequenas coisas, mas que trazem verdadeira alegria.
Além disso, o desespero em fugir à dor, à realidade da vida, pode acarretar até mesmo em suicídio, explica o psicólogo americano Steven Hayes em entrevista à revista Veja: “Muitos suicídios são um último esforço para acabar com a própria dor. Em seis de cada dez casos os suicidas deixam escrito, em bilhetes, que não agüentavam mais sofrer. Há uma mensagem nisso tudo: evitar os sentimentos dolorosos é rejeitar a própria vida. Aceitá-los como parte da existência é a melhor atitude.”
Viver como eu vivo, como nós vivermos,
Tendo dias de sol, de chuvas e trovoadas,
De risos, lágrimas e sofrimento...
"As artimanhas que usamos para escapar da aflição nos desviam de nossos objetivos de vida. E é por eles que vale a pena viver", diz ainda o psicólogo Steven Hayes.
Nota: Poesia de Neuza Rodrigues Leonel - Livro Vozes do Coração.
[Texto originalmente publicado no blog http://palavreando.zip.net]
Muito bom o seu ponto de vista, Janethe!
Hoje em dia, no grande mercado da vida, a FELICIDADE tem que estar estampada nas vitrines da alma. É a lei. É produto! "Pare de sofrer", já diz o letreiro...
Gostei muito de seu texto!
Janethe,
concordo com você!
Sou das que pensa que devemos agir com naturalidade, por que todas as oscilações da alma fazem parte da vida. Para amadurecer devemos ser capazes de suportar a dor, e não de negá-la. Mas a sociedade em que a gente vive realmente é ditadora: ditadora de um padrão de beleza, de um padrão de magreza, de um padrão de alegria, de um padrão de bondade...rs... essa é boa: já viu que existe esta pressão em transformar todos nós em "bonzinhos" e "boazinhas"... pois é, mas eu resito. Vou até publicar um poema meu sobre isto!
Parabéns pelo texto! Tô votando!
belo texto. belas idéias.( embora discorde em pontos insignificantes, diante da beleza do todo ).
abraço,
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