Estréias sempre suscitarão maiores expectativas na crítica e no público, sobretudo quando se trata da transição de ator para diretor de cinema. Isso não quer dizer que a partir do momento que se passa a ser diretor tenha-se que se dispersar da continuidade para uma carreira de ator. Não creio que esta seja a idéia do então diretor e ator Selton Mello, que acabara de nos apresentar sua mais recente realização. O filme Feliz Natal, que ironicamente ou não (acredito que assim tenha sido), surge exatamente em um período natalino, o que me faz apreendê–lo como uma justaposição do intuito do novo diretor a uma denominação especial que classificou as obras de Aristóteles. Pois como livros que tratam da filosofia primeira, o drama dialoga com o espectador através de uma metafísica, isto é, percorrendo por uma investigação do ser enquanto aquilo que realmente é.
É muito natural ver em um ator que fomenta projetos simultâneos e que é provido de um histórico com atuações primorosas, a exemplo de Lavoura Arcaica (2001), de Luis Fernando Carvalho, e O Cheiro do Ralo (2007), de Heitor Dhalia, traços dessas vivências em sua primeira atuação como diretor. Isso se torna aparente na experiência com que Selton conduz Feliz Natal. Penso eu que tamanha segurança certamente fora extraída de sua passagem por grandes produções nacionais, além é claro, de equacioná-las, em principio, a nuanças de referências tarkovskyanas.
O filme inicia com uma extensa ausência da fala, que por sua vez enaltece a boa captação de som na manipulação de objetos e nos movimentos dos atores. Essa passagem é regida por uma fotografia que me parece aludir à atmosfera concebida pela pintura surrealista do belga René Magritte, pois sugere a visualização de uma penumbra sobreposta a luz e constrói uma espécie de enigma na apresentação da face de um personagem que já se mostrara estigmatizado.
Não tardara muito para o diretor explicitar a simbiose de suas influências, já que quando o drama começa a se desenvolver, através da surpreendente aparição de Caio (Leonardo Medeiros) à festa de natal de sua família psicologicamente desestruturada, é possível perceber a predominância dos planos fechados muito explorados por Ingmar Bergman.
Ao ver Feliz Natal o espectador livra-se da sensação de que paráfrases como Feios, Sujos e Malvados (1976), de Ettore Scola, estão ausentes em sua memória. Pois temos na direção de Selton Mello um exemplo ainda mais contundente de como vivemos em um sistema social que nos manipula com crenças ilusórias, para disfarçarem a nebulosidade de nossa verdadeira essência. Assim fora constituída uma escrita que mescla significado e transcrição, sobre a importância de celebrar o “nascimento de cristo” não apenas como forma de reunir uma família e trocar gestos carinhosos através de pequenos presentes, mas, em suma, por possibilitar a apropriação de tal momento para brindar à época que mais evoca tudo que se encontra de mal resolvido entre os familiares.
Embora o diretor não tenha se dado conta de um pequeno excesso em algumas cenas, os entrecortes na montagem e a fragmentação das situações evitaram, inteligentemente, qualquer proximidade a uma espécie de reverberação cinematográfica. Pois através da perspectiva que nos mostra após o rompimento de uma união matrimonial fracassada, composta por uma mãe alcoólatra e um pai arrogante, é que começamos a entender a complexidade nos comportamentos infelizes dos herdeiros dessa má elaboração de vida, que exalam traumas, eufemismos, frustrações e muita culpa.
Com todos esses ingredientes coesos a mais uma feliz seleção de elenco, resgatando grandes e esquecidos nomes como Paulo Guarnieri, somos contemplados - já fazendo a devida justiça ao nome do filme -, com um belo presente de natal. Emitido por um artista que enuncia mais uma promissora carreira no cinema brasileiro, tendo como conseqüência, obviamente, uma futura projeção internacional. Este que já se impõe em um novo posto como agente de grandes reflexões e nos provando que, quando a arte analisa a condição humana, não deveremos nos portar de maneira indiferente, mas ao menos irmos de encontro ao seu registro.
Tito Oliveira.
Mravilhoso, Tito, o seu consistente
artigo sobre a atuação, como diretor, do nosso
querido Selton.
Parabéns.
Iniciando a sua votação.
Beijos
Excelente artigo. E um feliz natal de boas produções.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 5/12/2008 19:15Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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