Foto:
Pérola/NãoSouEuéaOutra/Copyright
Para
Carlos Figueiredo
1 – Ao recolher as aparas
Do mofo golfado de suas expiações subumanas,
O que importa ao poeta é a polpa verbal que usou
Na sua lapidagem, pois, no fim e afinal:
“Quando expira um poeta
Uma lágrima a menos desaba do infinito”,
Desvia o trajeto da língua,
Inunda o lume da nódoa, a chave da revolta;
Talha o mortal destino que lavra o fogo e a carne,
Como se fossem essas antagônicas execuções de mormaços
Afugentando-se dos dias enforcados.
.....................
2 - Ao poeta
Importa o recolhimento de monges-resíduos,
O destroçar de cadafalsos repaginados,
O apagar de milhares de versos apócrifos
Perfilados no quase-chão
De mim.
Do poema
Restam lágrimas!
Da palavra,
Restam dúvidas!
Do pulso
Restam feridas, entreabertas!
Sabe-se, pois, que o destino do poema vegeta,
A liquidez da fala está acoplada na lâmpada da consciência,
As comiserações arqueiam-se qual frigidez relativa do ar
(Quais filamentos de um poema em pedaços),
No afã de alumiar o mundo, o burburinho matinal,
Que surge sob o orgasmo do embrulho
- E das traças egocêntricas do sim.
.....................
3 – Aos rascunhos maledicentes da aurora,
Não bastam palavras.
Sobram-se as dores, dias de solidão...
Importa-me saber: onde a rosácea compungirá a placenta,
Onde o orgasmo esconderá o malfeito com a gala,
Onde a dor morrerá deslembrada.
Importa-me saber,
Que tal o poema contínuo,
Continuarei inexoravelmente procurando
As respostas da vida.
Pois que, de um em um: multiplicarei sobremodo os ermos,
Expondo-os amotinados o mínimo possível à curiosidade dos bolores das partidas,
Migalhas de verbos retorcidos,
Erros engravidados que o poeta desvela,
Renega fugindo assustado do silêncio...
Ainda assim,
Importando-lhe sabê-las redivivas!
....................
4 – Prostrado sob o silêncio retorcido,
O poeta vive a metáfora do vôo: encharca-se na lágrima
Do aço-silício, denuncia a encharque da lavra;
De todo modo alegra-se sabê-la em prantos...
Ai... Lembrai-vos dos poetas desusados!
Lembrai-vos, sobretudo do destino humano...
Ai... Ele repousa platonicamente no esteio romântico da palavra.
E tal como um poema flagelado de ontem,
Faz o poema dormir o sono brando
Dos golpes manuseados pelo machado ortográfico
Que, ante o prefácio da algema, aferra o coice,
Estimula a ejaculação dos cedros ortodoxos.
Pois que, ao invés de o verso corrigir o cansaço,
É o cansaço que corrige a gramática dos lumes humilhados.
Torna-se Deus, reinventa a história das mãos,
Trespassa elos e gumes,
Lágrimas de corpos amordaçados,
Filamentos de um criador e criatura
Permanentemente
Em conflito!
Benny Franklin