Meu pai deseja viajar no final do ano. Há uns quatro meses fez um longo planejamento e me disse com satisfação que agora, aos 80 anos, ninguém o impediria de ir ter com os seus no Nordeste, após trinta anos de separação. Seria uma viagem que faria literalmente por cima – nada desses ônibus clandestinos abarrotados de migrantes suarentos: iria de avião! Retirou, orgulhoso, do bolso do paletó um carnê de passagens e balançou-o à minha frente como a querer também me matar de inveja. À época, sem bola de cristal para prever o futuro, fiquei boquiaberto. Apenas pensei que a parentela, em Pernambuco, ao recepcioná-lo em Recife, iria acreditar que a sorte grande demorara mas afinal chegara para seu Zé.
Mas o pacote de tormentos estava só no começo.
Em nenhum momento, apesar do noticiário, seu Zé pensou que sua viagem se transformaria num pesadelo. E isso por duas razões. Primeiro: comprara a passagem bem antes da crise do setor aéreo; segundo: estava no interior do Tocantins, bem longe dos grandes e atribulados aeroportos nacionais onde, apesar do controle de tráfego aéreo, estava tudo descontrolado. Aqui, não: éramos bem melhores que o resto do País: até piloto cego levanta vôo (ou seria às cegas o piloto levanta vôo? Não importa, de um jeito ou de outro aqui se decola). Só por isso, apesar da crise, tudo o que acontecia não parecia ser com ele. Para ser fiel à situação, digamos que ele estava voando.
Só quando foi à agência confirmar a viagem, mera rotina de velho rabugento, descobriu que o descontrole também nos afeta nesse interiorzão. A moça, educadíssima, num paletó com saia justa até os joelhos e dentes alvíssimos, justificou: “É, seu Zé, são as conexões. Elas caem uma a uma e nos obrigam a cancelar vôos, mesmo aqui.” Ele, perplexo, negociante aposentado de autopeças, pensou logo na bendita conexão automotiva, pecinha pequena, mas que bem sabia que quando arrebenta deixa qualquer um na mão. Com muito tato, conseguiu remarcar para quatro dias depois a viagem que já havia sido cancelada. Mas agora tomaria outro itinerário. Havia um malabarismo aéreo para permiti-lo chegar a Recife. O roteiro não seria mais quase direto, como originalmente: Araguaína-Imperatriz-Fortaleza-Recife. A rota, aproveitando as conexões e fazendo acrobacias para se livrar do descontrole, seria: Araguaína-Palmas-Goiânia-Brasília-Salvador-Teresina-Recife. “Ufa!”, disse meu pai para a sorridente moça da agência, “é um verdadeiro turismo. Será que chego lá?” A moça foi só sorrisos: “Chega sim!”
excelente.leandro, contista de primeira.
abs.
Grande texto, JJ. Vou correndo ler a continuação!
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 22/12/2006 22:54
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