Firmino e Genoveva

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Leandróide · Florianópolis, SC
18/4/2010 · 1 · 0
 

Firmino formava com sua Genoveva um casal tradicional. União sólida que as maiores crises econômicas não abalara, já que as conjugais não as tinham. Ao vê-los ninguém concebia os dois separados. Imaginavam como seria sua vida se por acaso, bate na madeira, sua estimada esposa partisse dessa para melhor antes dele. Era algo que ninguém se atrevia a pensar.

Católico, apostólico, romano desde sempre, acompanhara o pontificado de 6 papas e ia à missa todo domingo. Tinha netos e esperava poder viver o bastante para ver os bisnetos que Deus lhe agraciasse. Sua visão da política era bem limitada. Nunca se manifestara nem contra nem a favor da ditadura.

De forma amena, sem grandes sobressaltos, esperava que a vida ao lado de sua amada seguisse até a derradeira hora. Contudo o comportamento de Genoveva começara a se modificar. Refletiu um pouco e ponderou se ela poderia estar doente, Deus a livre.

Deitara-se à hora habitual e ficara aguardando a companheira de mais de meio século. Esperou, esperou, e o lado esquerdo da cama permaneceu vazio.

Firmino levantou-se e foi até o quintal. Estranho hábito que sua mulher adquirira, que mesmo sem ter glaucoma, passara a usar maconha e voltava com a libido alterada, querendo coisa, como ele dizia.

Ela lhe falara que isso a ajudava a relaxar e dormir sossegada. Sabe como é sono de velho? Ele por acaso não tomava um copo de vinho habitualmente antes de deitar? Aquele era o seu equivalente. Ele insistia que aquilo deveria fazer mal: inalar toda aquela fumaça. Sem falar que era contra a Lei. E se tinha uma coisa que Firmino sempre obedecera era a Lei.

Mas o que Firmino mais estranhou foi quando ela veio com aquele comprimido azul para ele tomar antes do jantar. Ouvira falar dos milagres que operava, mas nunca experimentara. Agora se via convidado a ingeri-lo para satisfazer a sua patroa.

Prestimosa, se ofereceu para trazer o copo com água para ele tomar o remédio. Ele disse que não precisava, que já ia até a cozinha.

Quando ele voltou, Genoveva sentiu algo que há tempos não experimentara: a língua dele na sua boca. Foram para o quarto. A movimentação dos dois quase partira a antiga cama. No outro dia aproveitou para ficar deitada um pouco mais. Ele resolveu preparar o café e levar para a esposa, que viu em cima de seu criado mudo a pílula azul que Firmino não consumira.

Genoveva recebera o maior elogio que uma mulher na sua idade poderia esperar. O que ocorrera na noite anterior tinha sido um prodígio da natureza.

Sobre a obra

Crônica sobre a sexualidade na terceira idade.

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Leandro Andrade
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