flâneur
o que posso fazer é à distância
entregar-me sem peso ao ileso
seguir adiando o quando chegar
para estar apenas de passagem
noutros portos, outras imaginações.
o que posso dizer é de correr
com os olhos pelas pradarias
nas montarias, pelos declives
onde estiveram antes outros errantes
e souberam a brasa da conquista
pondo a vista sobre horizontes
deitando fora suas recordações.
o que posso escrever é por acaso
um arrazoado risível, com voz escassa
enquanto as praças da cidade revelam
novas esquinas a cada passo meu.
o que penso escrever jamais se diz
névoa branca parindo silhuetas
passando longínquas e sem nome
noturna fome a refutar sentido
sigo sempre à revelia do olvido.
Renato,
Agrada-me a imagem do ser errante que vai "adiando o quando chegar para estar apenas de passagem", como um vagabundo, andando pela cidade sem propósito aparente, "pondo a vista sobre horizontes/
deitando fora suas recordações". Secretamente em busca de aventura, "enquanto as praças da cidade revelam
novas esquinas a cada passo", numa jornada estética, ou erótica, segunido "sempre à revelia do olvido."
Abs, Pedro.
Muito bom, mestre Renato!
Você tem a ponta do lápis muito bem afiada!
Belíssimo poema!
olá pedro!
sim, este tema, tão recorrente em poesia, e na literatura em geral, também me é absolutamente fascinante. mais ainda: fundamental. flâneur é um poema recente, escrito, de fato, em viagem, e cataliza diversas inquietações próprias do ofício da escritura, como a do olhar sempre a perscrutar esse mundo estranho, sempre a surpreender-nos a sensibilidade. apanhas bem a idéia ao falares da jornada estética ou erótica; a busca, afinal, é a mesma, apaixonada e imperiosa.
abraços,
r
olá carlos,
grato, e feliz de ter tua presença cada vez mais constante nas colaborações que vou postando. mantenhamos este canal aberto, num diálogo fecundo acerca da poesia.
abraços!
r
Renato, meus sinceros elogios.
Parabéns...
oi Renato, tudo bem? gostei muito da forma que escreves.
a idéia é que não agrada a maioria das mulheres..rsrs!(brincadeira)
leve e sem pressão..homens!ah...
mas, o poema tá lindo mesmo.
beijão
Fran
Muito bom, Renato! Gosto da tua escrita. E me identifico com a "noturna fome a refutar sentido". Às vezes é legal mesmo deixar que o sentido se forme aos poucos, ou mesmo indesejar que tome corpo.
Me identifico mais com a sensação do que com o poema.
Se me permite uma crítica, acho o texto muito beletrista.
Mas tudo bem...
olá rangel,
muito grato pela tua presença, e generosidade elogiosa.
abraços,
r
francinne,
curioso!... nunca tinha pensado que a idéia de flâneur fosse uma prerrogativa masculina!... mas (glup!...) faz sentido sim. hora de repensar minhas saídas (fugas?) erráticas pelo mundo!... :)
grato pelo teu gostar.
beijo,
r
felipe,
essa coisa do sentido... devo te dizer que desde que me vejo às voltas com a necessidade de escrever (repare: nunca me refiro a "talento pra escrita"), diversas vezes surgem coisas das quais desconheço o sentido. o fato é que, com o passar dos anos, fui comprovando que não há, claro, um sentido unívoco num poema. como já disse o quintana, um poema é uma interpretação. e cambiante - acrescentaria eu. depois veio a clarice e me aliviou, ao dizer-me "não te preocupa em entender"!...
abraços!
r
roberta,
e eu vim, te vi aqui, e gostei mais ainda. obrigado pela visita.
abração,
r
zéduardo e zito,
muito obrigado pela presença e leitura. espero que ambos leiam as outras colaborações que publiquei aqui no overmundo.
abraços a ambos!
r
olá ella,
alguns amigos que tenho, afeitos à leitura de meus poemas, já me chamaram a atenção a um certo caráter medievo da minha escrita. será que é isso que chamas de beletrista? gostar ou não gostar de um texto ou de um estilo (o que pode ser traduzido como identificação) me parece menos uma crítica do que um humor transitório... mas isso não diminui a importância do teu sentimento. todas as críticas são permitidas. convido-te a ler (se tiveres tempo e paciência) aos outros textos que já publiquei aqui no overmundo.
obrigado pela tua leitura.
abraços,
r
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