FOI ÊLE... FOI ÊLE, SIM !

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"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA
22/11/2019 · 0 · 0
 

FOI ÊLE... FOI ÊLE, SIM !
"... não preciso que me digam /
de que lado nasce o Sol, /
porque bate lá meu coração".
"(...) João, o Tempo / andou
mexendo com a gente, sim..."
BELCHIOR - trecho de canções

Nos tempos "de chumbo", no auge da repressão pela Ditadura Militar no Brasil, o genial Belchior protestou contra ela tanto quanto os nada discretos Gil, Mutantes e Caetano -- do "É Proibido Proibir" -- ou o esperto "Julinho da Adelaide", com canções óbvias como "Cálice" (leia-se "Cale-se") ou "Joga pedra na Geni", de letra desesperada e contundente. Se o jovem Chico Buarque teve que "se camuflar" (?!) com pseudônimo para continuar produzindo suas letras acusatórias, o elegante Belchior jogava "na cara" do Poder verde-oliva a sensação geral da Nação... "tenho andado descontente, / desesperadamente eu grito em Português". "Medo, medo, medo... / cada um guarda mais o seu segredo, / a sua mão fechada / e a boca calada, / molhada de medo".
A Ditadura Militar tentou exterminar o pensamento criativo; artistas, Jornais, revistas, Rádios, suponho até que TVs, tinham em seu ambiente 1 censor -- que nada entendia do assunto -- somente para intimidar. Situações hilárias surgiam daí: Waldick Soriano teve sua "Eu não sou cachorro, não" proibida, "o Homem brasileiro estava sendo humilhado nela"... até peça de teatro com Papai Noel -- o vermelho era o terror dos militares -- e o livro "A Capital" nem saiu do prelo, impedido por ser confundido com o famoso "O Capital" do pensador russo Marx.
Aqui em Belém escritores e artistas foram perseguidos, alguns até presos. O poeta João de Jesus Paes Loureiro -- entre outros "comunistas" locais, quase todos do PC do B -- teve leu livro de poesias "Tarefa" confiscado ainda na gráfica, do qual sobrou só 1 exemplar. Toda essa sandice perdurou das primeiras horas de 1967/68 -- quando surgiu o terrível AI-5 -- até fins de 1982, já nos estertores do Regime falido e com a "bomba no Rio Centro" a coroar um corolário de desgraças e injustiças, cujas maiores vítimas foram os Jornais, impedidos de noticiar fatos e barbaridades.
Neste belo domingo de 17 de novembro de 2019 meu irmão viu na Praça da República, em Belém, um magote de 30-40 idosos todos a favor de Bolsonaro, a protestar contra um juiz federal qualquer. Nos tempos da Ditadura seriam presos... logo êles que viveram aquela época DE TERROR, apoiando pessoa que personifica E DEFENDE todo aquele horror.
Mas isso não é um tratado sobre Democracia -- que sequer existe no Brasil -- e sim mero conto ambientado naqueles tenebrosos dias. Ao passar pela terceira noite seguida diante do DOI-CODI paulista um jovem e sua noiva foram presos, estariam vigiando o prédio. Torturados por vários dias para confessarem o que não eram e nem sabiam, só foram soltos quando a família da moça inundou a cidade com cartazes com fotos dos namorados e a informação que a jovem era filha de um militar. Isto aconteceu, salvo engano meu, por volta de 1971 !
Aconteceu também de um sujeito -- vestido de amarelo e azul -- importunar a esposa de um sargento lotado no DOI carioca, lá pros lados da Central do Brasil. Saíram "em campanha" num Jeep dos tempos da Segunda Guerra, por toda a cidade... o acharam em Botafogo 2 dias depois, com a mesma roupa, imaginem !
Terminou num "pau de arara" em pleno Carnaval, nu, de cabeça para baixo, apanhando de cassetete para confessar o "delito", "crime hediondo" na visão do sargento. Eis que chega o capitão fazendo revista, ronda, ouve os gritos e vai investigar o caso, num quartinho isolado, nos fundos do velho prédio. Indaga do sargento "o que era aquilo" !
-- "Capitão, esse miserável abordou minha mulher, só para "xavecá-la"... pode um negócio desses" ?!
-- "Não fui eu, não fui eu, sou inocente" !, gritou o torturado.
-- "Cala a boca, "pau de arara", foi você mesmo" ! (Só bem depois nordestinos no Rio e SP "virariam todos "paraíbas" !)
-- "Não fui eu, Capitão, trabalho na Região 4, Botafogo e Flamengo... quem faz a Área 2 é o "Zéferino", lá no Leblon" !
Explicou-se o caso: o rapaz era entregador de folhetos de propaganda comercial de casa e casa -- novidade na época -- e a roupa igual era uniforme da empresa, bem parecido com o dos carteiros, para facilitar a recepção pelas donas e casa. Qual fôra o crime do rapaz ? Entregar prospecto apresentando a nova FRIGIDAIRE de 2 portas, caríssima, por sinal !
-- "Este desgraçado entregou 1 folheto pra minha esposa e, agora, ela quer de qualquer jeito 1 geladeira daquelas. Vai me custar uns 3 soldos, porra" !
O Capitão quase se arrependeu de ser militar mas, pra contornar a situação sem causar problemas, pediu ao sargento que fosse ao escritório pegar sua Agenda, esquecida por êle. Assim que saiu, o graduado abordou o ajudante do torturador, um soldado raso:
-- "Vou com o sargento dar um passeio... quando voltar quero isso limpo ! Livre-se do rapaz ou é você que vai pro "pau de arara" !
Meu conto (?!) termina por aqui mas os Anais da Justiça Militar (*1) daqueles anos de pavor e atrocidades revelam o cinismo cm que se via "casos" de tortura e de "desaparecimento" de vítimas e presos, tidos como "revolucionários". Numa passagem, ao adentrar no Tribunal sujeito todo "arrebentado", o rosto cheio de hematomas e esparadrapos, os juízes sorriram e deixaram REGISTRADO para a posteridade "que o pilantra batera a cabeça na parede" várias vezes, só pra se fazer de vítima. É isso que o Futuro nos reserva, na próxima "esquina"... é isso que muitos parecem querer "de volta" !
"NATO" AZEVEDO (em 18/nov. 2019, 5hs)
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OBS: o título nos remete à marchinha de Carnaval de 1963 "PÓ DE MICO", cantada por Emilinha Borba, onde o refrão foi êle quem jogou o pó em mim" se transformou em... "foi êle quem meteu o pau em mim", segundo o povão.
(*1) trecho citado em reportagem de várias páginas, (de 2009 ?) me parece que publicada pela ISTO É, a confirmar em breve.

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"NATO" AZEVEDO

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