FOLHAS DA SELVA
Aníbal Beça ©
O ninho vazio
deixa a árvore sozinha -
no céu asas novas
Na viagem longa
apenas uma surpresa -
pedra no caminho
Saindo do bosque
a vista fragmenta-se na luz –
um caleidoscópio
O Som do bronze
para o labor das formigas -
Seis horas da tarde
Folhas abafadas -
desperta o uirapuru
a manhã da selva.
Sob a luz da lua
segue em direção da toca -
tranqüilo tatu
O lago está longe
mas ouço sua conversa -
folhas ao vento
Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.
Abre o camponês
sulcos de arado na terra.
Em seu rosto rugas.
Seis hora da tarde:
sons de cigarras prolongam
os sinos do templo.
Cochicho de folhas.
Varre o vento na calçada
secas lembranças.
Bem que me agasalho.
Galhos sem folhas lá fora
parecem ter frio.
Noitinha na várzea:
com a lua na garupa
búfalos regressam.
Ao sol na vereda
o ventre inchado em rodilha
jibóia a jibóia
No alto a lua fria;
no prato a sobra da janta:
beiju desprezado.
Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
Soleira do sítio -
a negra graúna canta
ao silêncio do sol.
Broca no bambu
deixa furos vazados:
O vento faz música.
Céu de primavera.
Nas açucenas floridas
dura mais o orvalho.
Jogando a tarrafa
caboclo desfaz a lua.
Pesca estrelas de escamas.
Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos.
Qual virá comigo?
Vento de verão
vem com bafo de mormaço —
garoa ameniza.
Coruja na cumeeira
arrepia no seu canto —
a viúva reza.
Folha no rio
vai para o mar sem volta —
chorão se renova.
A cigarra canta
o anúncio de sua morte —
formigas na contra-dança.
Sobe a piracema —
ano que vem outros peixes
nadarão de novo.
Apenas um gesto
e o homem é capaz de vida —
reparto o caqui.
Verão vermelho -
sete horas e o sol ainda
amorena meninas.
Cúmulos nimbo -
a última lua azul
se pôs amarela.
Rajada de vento -
acompanhando as folhas,
uma borboleta
Sobe a montanha
com uma pedra na mão
e desce com ela
Mormaço do asfalto -
entre o vapor que sobe
a impressão de um oásis
De algum lugar
alguém canta por mim -
noite de garoa.
Outro Natal
e uma alegre novidade -
o neto enfeita o pinheiro
As mãos geladas
se aquecem folheando o livro -
Receitas de Natal.
Aos primeiros pingos
recolhe seu papagaio -
moleque de rua
Janela quebrada -
moleque de baladeira
erra o alvo da manga
Pedrinhas pro alto –
as crianças da pedreira
por um instante brincam
Manhã de verão –
as cadeiras desarrumadas
da reunião de ontem
Fogo aceso e logo
o zum zum da varejeira -
churrasco de porco
A nuvem de outono
passa nos meus velhos olhos
na calma de sempre
Nuvem passageira -
leve paina de algodão
passa em breve vôo,
Quarta-feira ingrata -
dorme embaixo da marquise
o mendigo de sempre
Leitoa de páscoa -
mesmo com a maçã murcha
peca-se ao desejá-la.
Depois da chuva,
o sol aviva o rastro verde -
limo na calçada.
Galhos sem folhas,
só restaram os talos -
ainda vejo as lagartas
Canta o bem-te-vi
e o amigo japonês saudoso:
hototogisu ?
Casco enferrujado
da traineira encalhada -
do mar apenas algas.
Jardim abandonado -
só os carrapichos grudam
na velha calça.
Raios e trovoadas -
com a presença do sapo
as moscas debandam
Na chuva pra se molhar
o risco é só o resfriado
Verde verão -
o prenúncio de água fresca
tomba do coqueiro
o cachorro cisca a terra
com o ancinho das patas
DO OIAPOQUE ATÉ AQUI
Por Ricardo Silvestrin
Um p, de pássaro, passeia ao longo do verso: “pousa na palma parada”. O p pousa, o p na palma, o p e a palma parados. Agora, o haicai todo: “Andorinha só/pousa na palma parada –/não é verão ainda.” Anibal Beça nos envia essas Folhas da Selva, um ótimo livro com trezentas e sessenta páginas de haicai, lá do Amazonas. Foi publicado numa bonita edição pela editora Valer, de Manaus. O haicai, poema que é visão, olhar, mas também palavra: “Sol quente na areia - /o caracol sai da casa/pra se acasalar”. Sim, para se acasalar, é preciso, paradoxalmente, sair da casa, mesmo que dentro da palavra acasalar tenha a palavra casa. Daí o ditado: quem casa quer casa. Mas Anibal mostra que para casar é preciso sair primeiro da casa, a casa dos pais quem sabe, sair da casca. É preciso sair de si, como o caracol e suas caraminholas. De repente, uma situação inusitada: “Sobe a montanha/com uma pedra na mão/e desce com ela”. A pedra pulando, brincando na mão, volta companheira da árdua viagem. Aliás, de montanha, a pedra entende. Que melhor companhia do que ela? Ou o galo que leva brisa às folhas: “Galo-da-campina -/traz no vento de suas asas/leve brisa às folhas”. Então, o haicai é mais do que palavra e olhar. É ver numa cena uma coisa interessante. Como quem aponta para um amigo e mostra, olha só: “Nas vestes rasgadas/já não espanta os pássaros -/ninho no espantalho.” E não apenas olha só, mas escuta só: “Seis horas da tarde -/sons das cigarras prolongam/os sinos do templo.” Ou ainda, sente só o cheiro: “Manhã de domingo -/cheirando mais que o café/a baunilha em flor.” E pode ainda, depois de passar pela visão, pela audição, pelo olfato, chegar ao paladar: “Goiaba madura/de polpa carnuda e rubra -/banquete de pássaros.” E até ao tato, como esse inadvertido macaco velho que meteu a mão em cumbuca: “Lição esquecida –/ mico-leão mete a mão/no ouriço da castanha.” Estar aqui e agora, com os cinco sentidos ligados e, partir daí, encontrar um sexto sentido: o haicai. Essa experiência é que faz do haicai um tipo especial de poesia. Não é uma poesia para dentro, para as idéias de quem está escrevendo. Mas uma poesia para fora, para captar o que vem de fora. Claro, filtrado e lido por quem está dentro. Isso não é também uma realização exclusiva do haicai. É possível captar instantes e realizá-los em outra forma que não a desse pequeno poema de três versos exportado pelos japoneses. É possível ainda imaginar tudo. Afinal, quem vai provar que o poema não nasceu de uma experiência? Do ponto de vista do leitor, tanto faz. Mas quem quiser se dedicar ao haicai pode encontrar no entorno instantes semi-prontos e transportá-los para o mundo das palavras. Como o fotógrafo que olha o que todo mundo vê, mas acha um ângulo que só encontramos na fotografia que ele tirou. Anibal Beça é um desses poetas-fotógrafos. E como poeta que é, fotografa para além da imagem: “Trilhos de grafite/riscando por ruas tortas-/o bonde e a minha vida”.
Ricardo Silvestrin é autor de O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção e Mmmmonstro!. Integra o grupo musical os poETs. É editor da ameopoema. Assina uma coluna no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Site: www.ricardosilvestrin.com.br E-mail: silvestrin@uol.com.br
Caro Beça
Há tempos não lia tantos hai-kais (de fato, e muito bons)
Perfeita a critica. Parafraseando o fotógrafo.
Voltarei para o voto.
Um abraço
EG
Obrigado pelo convite, Beça. Você apareceu pra me despertar sentidos esquecidos. Deu pra sentir o cheirinho da samaumeira da Turislândia, ver a mata d Janaurilândia e ver o corcovado verde escuro dos igarapés. Não senti, mas imaginei a chuva tropival.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 13/5/2008 19:25
Toda a floresta desfilou diante dos meus olhos ávidos. O canto e a dor da floresta em
"Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado. "
A melodia do vento na broca do bambu:
"Broca no bambu
deixa furos vazados:
O vento faz música."
E o mágico pescador de estrelas:
"Jogando a tarrafa
caboclo desfaz a lua.
Pesca estrelas de escamas. "
E além de tudo, o olhar do poeta captura a emoção da palavra e a oferece generosamente, flor e fruto, ao ávido leitor. No gesto do poeta:
"Apenas um gesto
e o homem é capaz de vida —
reparto o caqui."
Reparte o caqui, e nos lambuzamos encantados.
Sua leitora encantada,
Sandra.
oie Aníbal,meu querido poeta!!
"Estar aqui e agora, com os cinco sentidos ligados e, partir daí, encontrar um sexto sentido: o haicai. Essa experiência é que faz do haicai um tipo especial de poesia. Não é uma poesia para dentro, para as idéias de quem está escrevendo. Mas uma poesia para fora, para captar o que vem de fora. Claro, filtrado e lido por quem está dentro..."
Simplesmente encantada c seus haikais...sou apaixonada por haikai...tbém tenho alguns...qquer hora posto aqui....
Que olhar fotográfico vc tem....emoção pura do instante captado...não sei dizer qual o q mais gostei....tds são perfeitos!!
É um prazer te ler e te sentir assim...tão leve...tão livre...um pássaro em pleno vÔO...sem limites...
beijinhos azuisinfinitos...
Rai....blue
Ah, menino Beça! Que prazer! Fazia tempo que não lia tanto Hai-kai. E dos bons. Essa nossa terra dá tantos frutos maravilhosos: poetas como tu. Vo(l)to, menino!
Lena Girard · Belém, PA 13/5/2008 20:15Nossa....Caramba! Quanta informação poética...caro overmano amazônico, seus versos estão ultrapassando os limites da amazônia. parabéns. abração meu caro.
Cristiano Melo · Brasília, DF 13/5/2008 20:52
Adorei !
Deu pra imaginar cenas e mais cenas...[:)]Volto pra viajar mais...
Que lindos... Adoro hai-kais.
E é bem verdade. Para cada par de asas novas no céu, há um ninho vazio, em alguma árvore...
abraços!
Aníbal, obrigada pelo convite.
De algum lugar
alguém canta por mim -
noite de garoa.
Sensibilidade e singeleza, combinação perfeita!
Seu poder de síntese é fantástico!
Até mais para o voto!
Abração!
Nenpuku Sato veio do Japão direto para Bauru, aqui se radicou, seus parentes ainda vivem aqui, seu filho Futaro Sato é vereador por Bauru (reconhece não entender nada de poesia, mas reverencia a memória do pai). Nenpuku Sato foi o grande divulgador do haicai no Brasil. Ah, essa forma mínima da poesia. É como um instantâneo fotográfico - mas da alma. O haicai retrata um estado da alma. É o encantamento de um instante congelado em umas poucas palavras. O mínimo, não para sintetizar, mas para dizer tudo. O haicai é a síntese que não é síntese - nada foi diminuído, tudo tem que ser dito. Gostei de ver você dizer tudo, Aníbal. São gotas de sol/ na manhã clara, amazônica,/ com o verde dentro.
Um grande abraço.
Agradeço a todos pela leitura e pelas palavras elogiosas, mas vou agradecer em nome de todos pegando carona no comentário do nosso colega José Carlos Brandão. De fato, Nenpuku Sato, que este ano também comemoramos o centenário de sua vinda para o "Barasiru", é o responsável por trazer a Arte do Haiku para que seus conterrâneos não a esquecessem, não poderia imaginar que, hoje, não só no Brasil, mas no mundo inteiro o haiku seria cultuado de maneira tão expressiva. São milhares e milhares de grêmios, clubes e grupos exercitando as diversas formas dessa arte: Renga, haibun, Haiga e outras.
Transcrevo aqui, parte de comentário exibido no site Caqui, sobre o haijin (poeta que faz haiku) Nenpoku Sato.
"Discípulo de Kyoshi Takahama, líder da escola tradicionalista Hototogisu, Nempuku estava totalmente consciente de sua missão de cultivar o haicai no Brasil, missão levada a cabo pelo ensino itinerante, pela fundação de grêmios de haicai, promoção de concursos, orientação através da imprensa e de sua própria revista e pela publicação de antologias. Mas apesar de tradicionalista, Nempuku logo percebeu que a legitimidade da produção poética na nova terra dependia de sua capacidade de adaptação, resultando na reinvenção do haicai japonês dentro das condições brasileiras, em especial pela pesquisa de temas e kigos. Por tal razão, autores como Maurício Arruda Mendonça e H. Masuda Goga classificam o haicai de Nempuku e seus seguidores como poesia brasileira, ainda que escrita em japonês."
No meu livro FOLHAS DA SELVA faço uma pequena homenagem a este que soube difundir entre os seus essa arte tão singular:
No meio da mata
trilha forrada de folhas.
Rastro de Sato.
Abraço amazônico
Gostei muito dos seus haicais. Gosto sempre de ler poema com poucas palavras. É o tipo de poesia que também gosto de escrever. Aprendi lições de economia para escrever poesia. Poucas palavras dizem muito.
Origem
Não nasci.
Vim do mar.
Um conjunto perfeito. Haicais de prima face.
Excelentes.
Abçs.
SÔNIA E BENNY, OBRIGADO PELA VISITA E PELA LEITURA.
SÔNIA, QUERIDA, JÁ SABIA DE SUA POESIA ECONÔMICA, MAS COM MUITA INFORMAÇÃO E SABEDORIA. ÀS VEZES UM TOQUE ZEN À MANEIRA DE MINHA QUERIDA AMIGA EUNICE ARRUDA.
OBRIGADO.
TERNURA E CARINHO
LEVEZA DE VÔO.
AH, SE AS PALAVRAS POUSASSEM
COMO ESTA LIBÉLULA!
AB
poetAnibal: tô aqui, ligeirinho mesmo, voando (estou em outra cidade); aproveitei um intervalo de tempo só pra marcar meu voto; voltarei pra curtir mais teus haikais. Bjoabraçares
graça grauna · Recife, PE 14/5/2008 15:10
Seus haicais são de primeiríssima qualidade. Texto maravilhoso, cheio de metáforas muito bem usadas. Remete-nos mesmo à floresta, com seus sons, ao final do dia, sons noturnos e diurno, muito linda.
Com certeza estarei aqui de volta para votar.
Abraços
No meio das suas letras, piso com delicadeza, me deleito...
Patipetista · Santo André, SP 15/5/2008 22:17
Agradeço a todos que voltaram e votaram. Espero conseguir número suficiente de leitores. O haicai é uma arte para ser degustada bem devagarinho.
Abraço amazônico
Anibal, sua obra é tão linda que não precisas temer, todos somos leitores, pelo menos eu, com certeza!
Parabéns e abraços!
Voltei para votar, e saborear um pouquinho mais.
Abraço de Minas.
Obrigado pelo link...
Amei...aproveitei ja p votar tambem!!!
Mil beijos e bom final de semana!!!!
Ai Anibal, lindamente escreveste ...
Leria por horas e por vezes essas doces palavras, "O ninho vazio
deixa a árvore sozinha -
no céu asas novas";
"Na viagem longa
apenas uma surpresa -
pedra no caminho", e por aí vai ...
Ternamente agradecida pelo delicioso momento.
Abraços.
Querido Aníbal,
Belo, belíssimo!
Beijos e votos,
Regina
Obrigado pela leitura e votação.
Ternura e carinho
Prezado Aníbal,
Com teu estilo lapidado e elegante, demonstras aqui
ser também um exímio haicaísta.
Este belíssimo conjunto de haicais é digno do aplauso de todos.
Deixo os meus votos (com prazer)!
fraterno abraço,
Querido Anibal:
Tu és tu
e honras
teu nome
(a)Beça
Teu carisma é agalmático ... Inerente ... Toma conta de ti ... Te envolve e me envolve ... Atira-me para viagens fantásticas com imagem e linguagem impecáveis ... Como se não bastasse ... (a) Beça ... A simplicidade te engrandece mais ainda ... Sublime!!!
"Sigo o curso do rio
Encontro a ti no vento
Par feito casamento"
(Lili*)
Beijos_Meus*
*
VO(L)TADO !!!
Anibal, meu querido haijin: teus haikais são um verdadeiro santuário. Que olhar belíssimo, crítico e afetivo é o teu pela natureza... Parabens ao Silvestrim que soube tão bem captar os teus fazeres de haijin. Meu abraço e meu voto sempre.Bjos
graça grauna · Recife, PE 19/5/2008 06:18
Querida Graúna, obrigado pela visita. Quem faz haicai não precisa se preocupar com 'causas' ditas ecológicas e ambientalistas. Isto é: não precisa fazer poesia engagée. A Arte do |Haicai, por ser de contemplação da natureza, no sentido holístico, por si só já capt qualquer agressão a ela:
BÊNÇÃO PARA OS OLHOS
NA QUEIMADA DA FLORESTA
A ORQUÍDEA RESISTE
Beijos muitos
Anibal
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