Primeiro foi um tornozelo.
Perdeu enquanto passeava pelo jardim. No inÃcio não deu muita atenção para isso. Afinal, para que diabos serve um tornozelo? Poderia facilmente viver sem um. Um tornozelo era muito menos imprescindÃvel que outras partes.
Depois, um cotovelo!
Acordou e simplesmente zupt... não estava lá. Procurou debaixo da cama. Na parte de trás do armário. Sim, ainda existem muitas coisas perdidas nos armários da vida. Mas, não. Também não encontrou. Deixou pra lá. Esqueceu. Não fez falta.
Noutro dia, a batata da perna.
Essa, tem certeza que foi no mar. Quando entrou na praia ela ainda estava lá. Quando deu o primeiro mergulho, também. Quando deu uma cambalhota meio sem jeito, ei-la. Mas quando plantou bananeira, não. Sim, ainda tem muita gente que planta bananeira na praia. Quando voltou à posição inicial percebeu o olhar de um menino. EspantadÃssimo. Como se tivesse visto um fantasma. Levou ainda uns dez minutos para se dar conta de qual era a peça que faltava. Só percebeu quando saÃa apressado da água, tentando fugir do olhar insistente da criança.
E assim foi.
Desfazendo-se, em fragmentos.
Num dia, deixou cair o nariz.
Bem alÃ, na sua frente, o nariz descolado. Hesitou em pegá-lo. Não era uma situação confortável. Nunca haviam lhe ensinado como se comportar numa situação dessas. Achou que seria muito patético tentar colocar o nariz no lugar. Mesmo assim, o fez. Nada. Ele se recusava. Estava caÃdo e alÃ, na sua frente, decidira ficar. Virava-se para um lado e lá estava ele. Encarando-o. Virava para o outro lado e ele reaparecia, insolente.
- Mas, que porra é essa? - pensou.
Todas as manhãs, quando acordava, ia correndo para o espelho. Certificar-se. Quando voltava do trabalho, também. Numa dessas idas se deu conta que já não tinha umbigo. Nem mamilo. Seu tronco estava liso. Olhando mais abaixo, se deu conta que também não tinha mais joelhos. Coxas. Virilhas. Axilas. Pintas nas costas. Linhas na palma das mãos. Rugas no rosto. Nada. Estava liso. Sem marcas.
AÃ, foram os órgãos.
O primeiro foi o estômago. Seguido, rapidamente, pelos intestinos, que há essa altura já tinham perdido a razão de existir. Rins. Pâncreas. Figado. A laringe não durou muito, visto que também não tinha mais boca. Então chegou a vez das veias. Das artérias. Dos músculos. Nem se podia dizer que "era pele e osso", pois estes também não duraram muito mais tempo.
Foi resumindo-se.
Era neste momento somente um cérebro e um coração. Pulsantes. Ambos sem entender o que se passava. Mas... ambos mais leves. O peso do corpo, esta imensa quantidade de peças que carregamos, não os incomodava mais. O coração não bombeava mais sangue, fazia tempo. O cérebro não registrava mais os impulsos elétricos. Não havia mais condutores. Eles, os derradeiros fragmentos, pulsavam! Em unÃssono. Coração e mente. Vivos e vazios. Vazios e pulsantes. Cheios de vida.
Max....
depois que eu parar de rir eu comento...
Desculpe-me, sei que o desfecho de sua estória é profunda e traz uma mensagem metafórica muito interessante, sobre a razão e o sentimento, mas... Como vc desmontou a helena....caramba! Tão bem escrito e de um humor cru, que a primeira "garra" do texto é o misterioso engraçado desmonte humano... Não consegui parar de ler...
Muito bom!!!!!!!
parabéns
abção.
Ainda ontem pensava que não era mais do que um fragmento trêmulo sem ritmo na esfera da vida...
hoje sei, que sou eu a esfera e a vida inteira em fragmentos ritmicos move-se em mim....
votado!
beijos
Fragmentos, muitos Fragmentos. É a descontrução.
Abraços
Fragmentos... Também ri bastante com esse desmonte que foi demais. De pedacinho em pedacinho, foi-se tudo menos o coração e mente. Razão e sentimento. Legal. Bjsss e votos.
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/6/2008 00:00
mais que votado!!!
Muito bom, ao reler achei mais objetos descontruÃdos subentendidos.
Parabéns
abços
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