Não tinha costume de acordar tão cedo, mas naquele dia não tinha outro jeito. Olho pela janela para ver como está a cara do tempo... É, o calor vai continuar. Recolho os CDs com os trabalhos que preparei pela madrugada. Deus queira que esteja tudo certo. Lembro-me de ter cochilado várias vezes sobre a mesa do computador. Beijo a minha Lu que dorme tranqüila na sua caminha. Se tem uma coisa que gosto, essa coisa é de me sentir pai. Não lembro mais de como é me sentir filho. Não sei mais se algum dia fui criança. Ser pai eu sempre fui, desde a criança que não lembro que fui.
Saio sem tomar café, na rua sinto o ar abafado da manhã no meu rosto de barba não feita.
Sentar no Metrô àquela hora é impossível, aliás, entrar já é pura aventura. Encontro um canto ligeiramente vago e de lá observo a cara de sono do povo madrugador. Uma jovem olha para as unhas o tempo todo, parece não gostar do que vê. Uma criança se desgarra da mãe que corre feito louca atrás do pestinha pelo vagão lotado. Um homem de boné e óculos dorme a sono solto e a sua cabeça pende pro lado de uma senhora que se mexe e tosse, na vã tentativa de acordar o dorminhoco. Duas mocinhas bem vestidas conversam sobre empregos, entrevistas, chefes... Um jornal se abre ao meu lado e eu, tentado pela notícia do meu time, faço uma leitura bem dinâmica, antes que o dono vire a página.
Finalmente, chega a minha estação! Nem preciso me preocupar em sair, sou “cuspido” para fora do vagão pela enorme massa que se afunila na pequena passagem. Não havia percebido o quanto pequena é a porta do Metrô. E nem adianta reclamar das encoxadas...
O trabalho que estou levando para aprovação é o esboço de um cartaz. A pessoa que encomendou marcou comigo às 6 da manhã. Isso são horas para se ver alguma coisa? Bem, cliente é cliente e aquele clichê de que eles têm sempre razão martela a minha cabeça. Cabeça que dói... Não posso ficar com o ventilador tão próximo de mim. Mas, com os mosquitos já viciados em inseticida, só o bom e velho ventilador para afastar os predadores do meu sangue colesterado. Ainda mais com essa epidemia de dengue que assola o Rio...
Fazer freela significa ficar até as tantas da madrugada com a cara enterrada na tela do computador aprontando trabalhos, sempre com muita urgência. O pior é quando o cliente olha o esboço do trabalho, também conhecido como layout, e diz: “cara, tá ótimo, só não gostei da cor e essa figura tá muito grande, tira essa tarja, muda essa fonte, dá um destaque aqui, bota itálico ali...” Resumindo: tá tudo uma bosta!
Chego ao local marcado antes de todo mundo. Um solitário e sonolento atendente me manda sentar e aguardar. No rádio toca Start me up.
Depois de insensatos minutos, chega a criatura! E, olha, milagres acontecem: o layout foi aprovado e, para não dizer que foi sem alteração, ele pediu para tirar um destaque na forma de retângulo que eu perdi preciosos 40 minutos imaginando uma forma de inserir. Talvez se aquela tarja não estivesse lá, o cliente ia querer que a colocasse. Ou será que foi preciosismo meu?
Saio apressado antes que o indivíduo mude de idéia e também porque o meu expediente começa às 9, no Centro, já passam das 8:30 e eu ainda estou em Copa.
Esses freelas são a salvação da lavoura mas o desgaste é muito grande também. É comum os clientes demorarem vários dias para aprovar um trabalho e, quando isso ocorre, já querem pronto para amanhã. Eles não levam em conta (na realidade, fingem que não sabem) que a aprovação do layout é apenas meio caminho andado. A arte-finalização, que consiste em transformar o esboço em produto final é um trabalho minucioso e requer muita atenção. E tem também a fase da impressão gráfica. Só depois desses passos a entrega vai ser feita e, a essa altura é bom ir preparado, porque, com certeza, o cliente vai querer pagar com cheque para 30 dias.
Freelancer é o termo inglês para denominar o profissional autônomo, que se auto-emprega em diferentes empresas ou, ainda, guia seus trabalhos por projetos, captando e atendendo seus clientes de forma independente. É uma tendência muito em voga no mercado de jornalismo, design, propaganda, web, tecnologia da informação, música e muitos outros.
No Brasil, utiliza-se mais o termo freela como uma referência aos profissionais freelancers ou em relação aos trabalhos realizados. Exemplo: 'Estou fazendo um "freela" para a Empresa tal'.
Esses detalhes mórbidos só a gente sabe o que significam e você os retratou com até uma comicidade, cara, cada vez eu vejo mais essa tendência de parar de ser rebuscado e escrever que nem a gente conversa com o outro, fica tão íntimo o negócio e a gente passa o recado, vende o peixe, faz até freela...
Um abraço, Alcanu !
Wander, é isso mesmo, este trabalho de bolar, criação, ninguém leva em conta, mudam, querem um dedo deles...aí depois deste desgaste, tem uma filha de SUS pra meter o bico e demorar, passa de maõ em mão...e aí, quando já tá tudo pronto, aí vem o chorão...vida de freelancer é árdua. Você escreveu tão bem, de uma maneira agradável que prende o olho da gente até o fim. Parabens. Que da próxima, garanta antes 50%, rs
Gostei mesmo.
Noite-dia brabo, né menino? mas conpensador. Texto tão real que chega a ser paupável. beijos
Lena Girard · Belém, PA 8/4/2008 20:50
W@nder,
è isso mesmo, sempre tem um que dá palpite e quer acrescentar ou tirar, uma chatice só. às vezes dá vontade de dizer: porque não fez?
Mas é o tal "cliente sempre tem razão"!
Muito bom texto, retratou fielmente o desgaste desses profissionais!
Até mais!
Eita menino! Reclama não! rsrsrs
Já (re)fez tudo e alguém disse: Sabe que vc tinha razão!? O anterior estava bem melhor! rsrsrs
Muito bom seu conto!
Humor na realidade dos fatos do quotidiano com riqueza de detalhes...
Beijos_Meus*
*
Querido Wander,
Apesar da noite mal dormida e uma manhã agitada dessas,
ainda consegues passar teu bom humor neste ótimo texto, rs
Parabéns!
Beijooss...
Muito bom querido Wander! Transmitiu bem o que é a vida de um Freela. Abraços!
Paulo Esdras · Brumado, BA 9/4/2008 12:29
W@nder,
As diferentes formas de escravidão da vida moderna, não? Sua crônica expressa bem essa situação e o que é um em>freela.
A observação quanto ao uso do termo para designar o profissional, além do trabalho, me fez pensar em outro problema da modernidade: somos o que fazemos de útil
Bem, de freela a poeta (que você é, sim), você tem a oportunidade de colorir um dia cinza como esse, não?...
Então: viva a inutilidade da poesia! ... que nos propicia laços virtuais tão reais, como aqui no over.
... beijos.
Legal Wander,
Só queria saber como vc arranjou tempo para escrever esse texto tão atrativo e valoroso com tantos detalhes apesar do assoberbamento das funções q vc acumula...!
Espero q te paguem com grana viva pois vc merece.
Volto para o voto.
Eu já estava com saudades de vc.
Beijos.
E viva as freelas e viva os bicos e viva o jogo de cintura! Exelente texto meu caro Wander! Nota 10!
raphaelreys · Montes Claros, MG 9/4/2008 13:37
(risos)
Tragicomico !
Metrô, trem, logo pela manhã realmente fica mais pra filme de terror ...
Eu com 1,52 me senti literalmente esmagada no trem das 6:00. Resultado, desisti após 1 mês de trabalho !
Mas você Wonder, foi incrível na narração !
E ainda tem uma pequena Lú pra chamar de sua !
Deixa...eu também tenho ![:)]
Abrço fraterno, dias felizes sempre !!!
E claro, com muito trabalho !
Tá desculpado então...pois com um escrito destes só temos que agradecer !!!!! E bom Freela sempre !!!!!
E volto p votar...beijos !!!!!
ahahahahahahahahahaha tá muito bom! adorei!
beijos
W@nder
Sei tão bem do que fala... As pessoas não imaginam o que é ser autônomo. Só mesmo os autônomos. rss rss
Ótimo texto. Desses raros, que nos prendem a atenção até o final, super bem escrito.
Abraços.
Beleza em texto, leitura agradável de um dia que começa bem cedo, gostei abraços
W@nder,meu lindo amigoo e poeta!!
Li seu texto de uma só vez...de um só gole...hehe..ele correu feito um rio...fluente....livre....solto...
As passagens da sua relação c sua filhinha foram tão líricas...tão ternas...amei o seu cotidiano poetisado...ele fica bem menos estressante, não é mesmo?
Adorei conhecer um pouco mais de vc...., mantenha-se firme nos seus propósitos,ainda que alguns não os reconheçam...
(agora já sei a quem pedir p fazer uns trabalhinhos p mim..rsrs...)
Grande beijo azul,meu lindo...
Rai...BLUE
Vida de freela..tudo sempre igual....será? A parte que mais gostei foi a que falou de acreditar ter sido pai a vida inteira...adorei mesmo..fiquei pensando no meu. Cotidiano contado por quem o vive..vo(l)to!
Bjs
Bom demais a tua cronica, Wander!
Ainda bem que além de 'freela' vc é um poeta. Assim pode nos contar com muita propriedade essas aventuras de um bom trabalhador.
Mas ainda bem que "Deus ajuda quem madruga"... E finalmente deu tudo certo.
Abração
W@nder · Rio de Janeiro (RJ) ·
"Freela"
A Vidatem essa Luta dura pela subsisténcia.
Todos temos de estar nos aperfeiçoando continuamente para garantir a capacidade produtiva nesse mercado desigual.
Adorei o instinto paternal...
Se tem uma coisa que gosto, essa coisa é de me sentir pai. Não lembro mais de como é me sentir filho. Não sei mais se algum dia fui criança. Ser pai eu sempre fui, desde a criança que não lembro que fui.
Na sua formação vocé vai construindo o trabalhador dedicado com o Pai afetuoso. Um exercício feito toda hora que se manifesta em beleza na hora da prática da vida.
Muito bacana dominara produtividade e muito realizador ser Pai Amigo.
Temos sempre de sempre caprichar ao máximo pois quém sabe faza hora e náo espera acontecer.
Gostei da combinação do Trabalhador e Pai Amigo.
Isso é que vale e o rtesto tudo vai passar.
Abração Amigo.
Um Trabalho de merecimento e beleza.
Wander, sou publicitária, crio alguns anúncios, folders e sites e sei bem do que vc está falando... bjs
Balzaquiana · Rio de Janeiro (RJ) · 9/4/2008 23:22
Alcanu,
eu gosto muito deste tipo de narrativa, sou pela informalidade, apesar de apreciar as pessoas que sabem utilizar o texto rebuscado.
Abçs.
Cíntia,
o percurso é esse mesmo, muita gente pra dar pitaco no trabalho alheio. Vou tentar seguir o seu conselho, o dos 50%.
Bjs.
Lena,
pois é, menina, noita mal-dormida e nem sempre compensadora... faz parte...
Obrigado,
bjs.
Britgitte,
é bem por aí mesmo: as pessoas que encomendam o serviço não sabem colocar a 'mão na massa', só sabem dar palpites.
Obrigado.
Até mais.
Saramar,
tem que se tirar diversão de tudo isso, senão a gente pira né...
Obrigado.
bjs.
Lili,
eu sempre guardo o layout anterior porque já aconteceu exatamente isso... rsrsrs
Obrigado e beijinhos.
Yasmin,
é uma correria danada mesmo... mas a gente corre e ainda se diverte... rsrs
Obrigado.
bjs.
Paulo,
que bom que gostou.
Abçs.
Valéria,
a correria, vários empregos, múltiplas jornadas... e as pessoas robotizadas sem tempo para as coisas mais simples do dia-a-dia... é triste mas a tendência, com o avanço da tecnologia (tv digital, telefone celular, internet etc.) é que as relações se tornem ainda mais impessoais.
Ainda bem que existem os laços virtuais-reais... rsrs
Obrigado,
bjs.
Alice,
o tempo a gente arruma, o problema é sempre a grana viva... rsrsrs
Obrigado,
bjs.
Raphael,
se tiver cintura dura, no freelas...
Obrigado, amigão.
Abçs.
Pati,
os transportes coletivos nas grandes metrópoles são iguais a filme de terror mesmo...
Imaginei a cena... rsrsrs
Obrigado.
Beijos na sua pequena Lú também.
Marília,
desculpou??? então tá bom... rsrs
Obrigado,
bjs.
Tita,
que bom que gostou.
bjs.
Nydia,
é barra mesmo essa jornada que se estende por horas que seriam para o descanso e para o lazer.
Obrigado,
Abraços.
Beri,
um dia cheio de trabalho... tem que se acordar bem cedinho pra dar conta de tudo. rsrs
Obrigado,
Abraços.
Rai...BLUE,
que bom que tenha gostado desse meu dia um pouco lírico, um pouco engraçado, um pouco estressado...
Será um prazer fazer uns trabalhinhos pra vc...
bjs.
Maniefurt,
a igualdade da vida de freela deve ser na correria para aprontar os trabalhos... e sobre ser pai a vida inteira... pois é, eu acho que estou sendo.
Obrigado,
bjs.
Branca,
nem sempre dá tudo certo, mas não posso me queixar... afinal, quem está na chuva...
Obrigado,
Abração.
Azuir,
você captou bem a correlação trabalhador-pai-amigo... a dedicação de um pai pelo seu filho lhe será útil quando necessitar caminhar com suas próprias pernas.
Grande abraço.
Balzaquiana,
então você sabe exatamente que é assim que a banda toca não é mesmo... rsrs
bjs.
Oi Wander,
Voltando p votar.
Beijos
Adorei, Wander.
O cotidiano agradavelmente bem narrado!
Abçs de Betha.
Wander, pior e ser free de free, ainda bem que voce tem uma escora boa para cumprir seu trabalho. Voce descreve como muita propriedade o dia dia dos que labutam por conta propria, com uma linguagem simples, como deve ser, pois rebuscar, nem pensar. A gente le do começo ao fim na maior tranquilidade, não dando âmsias de larga lo no meio. Parabens , votado por merecimento, abrs.
victorvapf · Belo Horizonte, MG 10/4/2008 21:12
Ficou bem descritivo este teu texto. Maravilhoso, esse teu sentimento paternal, é realmente comovente. Aquela parte que cocê é cuspido pra fora do metrô é como se a gente também estivesse naquela muvuca e o detalhe do cliente é perfeito. Gostei demais meu grande poeta W@nder. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.
Wander,
O texto está ótimo!
Sentir pai é muito bom,
mas esqueceu de como é sentir-se filho...
A narrativa perfeita.
A vida corre e nós corremos atrás dela...
Beijos e votos,
Regina
Belíssimo!
Votos com louvor.
Abraços
Beto
Grande, Grande mesmo.
- Acho até que desconta a particularidade atinente, também a um e ou outro, é aquilo que se pode chamar de um texto para todos e cada um.
um abraço, andre.
Wander querido, todos nós somos frelas na vida...situações assim
ocorrem todos os dias e como!Parabens mais uma vez.
Tudo que vc escreve é maravilhoso e nao podia deixar de dá meu voto e nao cheguei atrasada,é que foi publicado rápido,,rs
bjos
Não "falei" que voltava p votar???? Mil beijos e bom final de semana!!!
Olha o voto aí amigo.
Abraços.
Carlos Magno.
Noss...me enxerguei no seu texto...ehehe
Abs,
Livia Gomides
Freela"
W@nder · Rio de Janeiro (RJ)
Parabéns Pai Amigo. Bom Trabalho.
Todo Merecimento do Amor.
A Coragem e o Sacrifício do Trabalho.
Gostei.
Parabéns .
Abração Amigo
Olá, W@nder. Texto primoroso que nos faz até pegar metrô. rs. Mas senti o drama e disso eu até sabia por um irmão que passou pelos pedaços. A narrativa é perfeita e vou chover um voto na sua manhã de muita chuva. rs. Uma história de luta e você tem muita sensibilidade.
abraços.
MINUCIOSO. Viajei contigo no metrô e torci para que fosse aprovado o teu layout. Amigo, parabéns pela descrição do trabalho e o enfoque de sofrimento e angustia pelo trabalho. Poebeijos.
Vives · Porto Alegre, RS 14/4/2008 01:54
Tita, Alice, Branca, Beri, Betha, Victor, Rai, Carlos Magno, Regina Lyra, Roberto Girard, Adré, Cíntia, Yasmin, Ailuj, Marília, Lena, Lívia, Azuir, Marco Bastos, Vives...
Quanta gente boa aparecendo aqui e me fazendo comentários tão gratificantes e me deixando honrado com a sua visita.
Beijos e abraços em todos.
Adoreiiii, Wander!!! Muito bem escrito! Já sou fã, mas vale a pena registrar sempre a admiração pelo teu trabalho! (tanto o literário quanto o "Freela"!)
Beijos @>--
Adriana, Airton.
Obrigado pela presença.
Abçs.
Excelente texto.
E, no mercado competitivo de hoje em dia,
ainda bem que existem os freelas não é mesmo? rssss..
Abraço!
Obrigado pela leitura, Roberta.
Fico contente que tenha gostado.
Abraço!
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