À Cláudia,
com amor e admiração
Você está dormindo e sonha. Um bispo, sentado em seu trono, mitra na cabeça, exibe o báculo, ostensivamente. As senhoras presentes genufletem, respeitosamente, diante dele. Ao fundo, sobre a nave, o maestro empunha a batuta e, a um sinal do báculo, agita o instrumento, para êxtase dos presentes.
É o casamento de um cadete. No corredor principal, colegas do noivo, frente a frente, descumprem a ordem latina dada por Cristo a Pedro - mitte gladio in vagina -. Ao reverso, tiram da bainha o espadim e cruzam-nos, dois a dois, formando um arco, sob o qual passarão os noivos. Que, certamente, terão muitos filhos. Fora, um canhão dispara salvas de tiro. As donzelas aplaudem, excitadíssimas. O povo, entretanto, munindo-se de pedaços de pau e cacetes, tenta penetrar no templo, que tem a porta ovalada. Os guardas, vestidos de branco, quais vestais, postam-se diante da porta, para impedir a violação do templo do amor. Com os fuzis nas mãos, os guardas calam neles as baionetas, em posição de combate.
Frente-a-frente os grupos contendores, aparece o juiz da comarca, exibindo a vara, símbolo da jurisdição e do poder. O prefeito dirige-se ao microfone, que tem a cabeça como uma glande coberta de uma malha de aço. De microfone na mão, ele agita o dedo indicador. Dedo em riste, como se diz, ele ameaça castrar os presentes.
Você acorda com um barulho. Um livro do velho Freud caíra da prateleira, com estardalhaço. Apalermado, meio sonolento, você vê o homem de barba branca e olhar maroto sair das páginas do alfarrábio. Soltando baforadas de fumo, ele lhe repete a lição que dera aos jovens na saída do teatro, em Viena: “Meu filho, por vezes, um charuto simboliza apenas um charuto“.
Você começa a lembrar-se de que na véspera estivera lendo algo sobre a simbologia freudiana. Báculo, batuta, lança, espadim, pau, cacete, vara, dedo em riste, microfone, canhão, fuzil, baioneta. Uma chuva de símbolos fálicos invadira seu sonho. Aliás, o que não falta é gente tentando achar símbolos em toda parte.
Assustado, você vê sobre a mesa de trabalho a estátua de Têmis. Na mão direita ela traz o ainda presente falo da autoridade - vista sob o ponto de vista masculino -. Ela parece envergonhada de sua bissexualidade, e, por isso, cobre os olhos com uma venda, certamente temerosa de que a balança, que ela traz na mão esquerda, representação óbvia da feminilidade, lhe mostre se o animus, representado pela espada, prevalece sobre a anima, ou vice-versa.
Uma figura andrógina que não tem coragem de encarar-se, conclui você.
Pensando bem, não foi o Freud o teu inspirador. Isso de anima e animus não era coisa do Sigismundo, mas do outro, que, aliás, não fumava charuto, mas cachimbo, símbolo feminino, com aquela abertura destinada a levar fumo, se a senhora me permite a grosseria.
Esta brincadeira foi publicada originalmente há muitos anos. Agora que minha filha é Mestra em Psicologia Clínica, achei que cairia bem a provocação. Até porque ela é freudiana e eu sou do time do Carl Gustav.
uau..... que dizer do texto???? eu nao sou Freudiana, alias, o Sr bem sabe que compartilho sua paixào e admiração pelo Carlinhos, mas esse seu texto ficou bem bom, acho que o velho Sigmundo rolou na tumba agora!
E, claro, beijocas especiais à homenageada, que nao conheço como profissional, mas como prima está na lista das "Top Ten Cousins"!!!
bjkk
...“ muitas vezes se esquece que o processo alberga provas as mais variadas; esquece-se que o processo tem circunstâncias fáticas e jurídicas, esquece-se que o processo tem rosto, tem gente, tem sentimento, tem angústia, tem dor, tem amor (tem ódio, tem inveja, tem egoísmo, tem vaidade, tem orgulho, tem mentira, tem verdade) tem cidadania e, acima de tudo tem que ter justiça”. (Citações retiradas, em parte, do Discurso de Posse do Desembargador Adão Sérgio do Nascimento Cassiano, pub. na RTJ/RS n° 208).
... faz ó Pai, descer a tua luz, que irradia da tua infinita bondade, misericórdia, piedade e sabedoria, para que na Terra, possamos fazer um plágio da tua DIVINA JUSTIÇA!
... DOGMATISMO?
NÃO, NÃO E NÃO!
PRAGMATISMO?
NÃO E SIM!
QUAL A SOLUÇÃO?
BOM SENSO ALIADO AO CIENTIFICISMO = A INTELIGÊNCIA HUMANA À IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS, POIS, ... EM RESPOSTA A MICHEL CAMUS, sobre o domínio pela tecnociência e essa nova abordagem completamente aberta da Transdisciplinaridade, Michel Random, em exercío constante de dialética, respondeu, ...
Um pensamento real que caminhe no sentido da natureza acaba sempre, mais cedo ou mais tarde, por se impor.
Os ‘resistentes dogmáticos’ são os guardiões de uma ordem maniqueista na qual a mente do homem pensava poder afrontar a Inteligência divina e explicar a existência de todas as coisas, ... Tentação tão desesperada quanto ilusória. Tentação de extremo orgulho também, consistindo em considerar que tudo começava com eles. ...
A transdisciplinaridade assemelha-se a uma jovem graciosa e alegre que vem dançar diante do Golias dos tempos modernos. Golias é todo-poderoso diante de seus castelos de ferro, de vidro, de mármore, de pedra. A jovem, com um buquê de flores da mão, vem e diz: “Todo-poderoso Golias, você quer dançar comigo?” Golias se espanta, como essa inexistente jovem ousa dirigir-lhe a palavra? Irá devorá-la de uma só vez? Volta-se para os seus ministros, que também parecem indignados. Como se não bastasse, a jovem com o buquê de flores também tem o atrevimento de dirigir-lhes a palavra:
Todo-poderoso Ministro dos Arranha-céus, das Finanças, da Economia, das Instituições dogmáticas, das Idéias pré-concebidas, convido-os à festa. Juntos criaremos espaços de felicidade, venham dançar com as mulheres, as crianças, os poetas. Ajudem-nos a erguer colunas de flores. Venham celebrar o amor.”
“Essa mulher é uma louca”, diz o Ministro das Instituições Dogmáticas. “Que venham depressa os guardas psiquiatras.”
“Vamos esperar para ver o que ela ainda vai fazer”, diz Golias, “está divertido”.
Sempre dançando, a jovem se afasta rapidamente, semeando pétalas de rosas de seu buquê sob seus passos. Quando está suficientemente longe, diante de um grande espaço vazio, volta-se e saúda-os com a mão.
O Ministro dos Dogmas, furioso, ia dispensar seus guardas psiquiatras, quando, de repente, ouvem-se estalos, imensas fissuras rasgam com a rapidez de um raio o império de mármore e de ferro e, alguns instantes depois, Golias, seus ministros, suas cidades e suas instituições desaparecem. O império reduziu-se a uma imensa montanha de pedras. Alguns anos mais tarde a jovem, sempre dançando, voltou a esse lugar. A água, os ventos e a natureza entraram em acordo para cobrir tudo com plantas e arbustos. A jovem semeou sementes de flores aqui e acolá e a primavera floresceu nessas montanhas como se nada tivesse jamais existido.
(O pensamento Transdisciplinar e o Real – Michel Random, Ed. Triom, p. 203/206).
... Mas por vezes um charuto pode representar mais que um simples charuto ...
O Che ... e seu "charuto" ideológico ...
O charuto cubano - "habanos"
O charuto do "Al Capone"
O charuto da confraria
Da semiótica
Do simbolismo
Da linguagem não escrita
Mas que se expressa
Que pensa
Sobretudo, pensa ...
O que pode a mente humana? Tudo.
E nem Freud conseguiria explicar.
Muito bom, menino!!
Beijos
Há tempos assisti um filme com Henry Fonda e Anthony Quinn, e este usava bengala.Bastou para que um comentarista dissesse que os dois tinham uma relação homo....Isto, para mim, é procurar pelo em ovo. Lila Su.
Lila Su · São Paulo, SP 24/11/2008 19:19
Gostei. e volto ao voto.
Parabens meu amigo..
Boa noite.
Que texto admirável! De uma graça e fina ironia maravilhosa. Adorei demais.
Hideraldo Montenegro · Recife, PE 24/11/2008 20:33
SUANNES,
BÁRBARO SEU TEXTO!
"Não,a ciência não é uma ilusão,
mas seria uma ilusão acreditarmos
que poderíamos encontrar noutro
lugar aquilo que ela não nos pode dar"
(Sigmund Freud)
Sua filha deve ser muito especial!
Parabéns,belo artigo!
ABRAÇOS.
O Sr Freud, decerto, em lendo o texto, acharia coerente, bem coerente.
Abs
Têmis ?...Pênis ?
animus ?...anus ?
Freudianices EX-plicam !
Bom !...sou do time DELE...
Eu também sou da turma de Jung! Ele foi mais aberto, sem dogmas. Freud era um compulsivo sexual literal. Só pensava naquilo como base. Quando esbarrou com o tema da sobrevivência da alma deixou o pepino para os discípulos que por medo e por modismo acadêmico ficaram na tese do mestre somente e estão até hoje. A psicanálise hoje é uma grande farsa é a grande farsa do século. Não leram Fédon. E nem lerão!
raphaelreys · Montes Claros, MG 27/11/2008 07:14Texto bastante interessante! Gostei..parabéns!
Gorete · Ipatinga, MG 27/11/2008 10:30
Um belo trabalho, irônico e bem elaborado.
Tenho minha opinião formada sobre o que disse o meu amigo Rapha, mas sem querer criar polêmicas, deixo essa discussão para os entendidos.
Parabéns!
Bela homenagem, Suanes.
Algumas antigas verdades ainda acatadas, entanto, também nos orientam sobre que a roda é um aro que roda, que a terra gira e avança a um rumo, que não estão contados nas pontas (ops!) dos dedos, mas há mais de seis bilhões de seres humanos na terra, que não é o maior planeta do sistema solar, que é o sol apenas uma estrela de quinta; que amanhã será sexta.
Pensa-se assim, ainda hoje, embora as bitolas dos trens ingleses se aproximem da estreiteza do que foram as distâncias de eixos das bigas romanas quando esteve o império naquela ilha pouco tempo antes de Arthuros tornar-se aliado dos de Merlin e rei de cavaleiros da távola e outros súditos menos lembrados, poe amor àquele mulher de nome quase indizível (Guinewere, que em em recente versão aparece como guerreira de arco e flecha, embora também empalme a espada em algumas contendas.)
Ei-la Overmana, que construção e reinvenção! Viva tu com tais leituras sobre o ser e estar "nu" mundo: símbolos, sígnos, sins, nexos, sexos, serafins, afins e para-afins - os sem fins de nós!
Deixemos as mácaras cair! Os desejos, as imagens, os toques, os sentimentos são flechas oprimidas em nosso corpo-arco. Estiquemos nossos arcos e soltemos as flechas e as brechas, rachas e lascas (tudo tem e há de masculino e feminino!).
Bjs,
Digo: em tudo o que há - há e haverá sempre os princípios do feminino e masculino. Nada existe por si só. Eu e tu somos nós. Nós somos o que há e o que haverá será da soma de um e do outro...
Ademario Ribeiro · Simões Filho, BA 27/11/2008 15:46
Sinceramente, aquela coisa do Sigismundo de ver phallus em tudo o que fosse cilíndrico e viver com um charuto na boca sempre me deixou muito desconfiado!
Introduzo meu voto!
Conjunto de vários sexos, ou a ausência deles né? Gostei muito do teu texto! Parabéns.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!