Alô, amigos ouvintes da rádio Goiabeiras efe-eme, cento e um vírgula nove. Pois é, hoje é dia de decisão aqui no Goiabão; Quinze de Goiabeiras Atlético Clube, atual pentacampeão do campeonato municipal, enfrenta o Atlético Clube Goiabeiras, penta-vice-campeão. Ouçam o estrondoso espetáculo armado pelo pirotécnico técnico da equipe mandante. É ensurdecedor, Noraldo. É, Rúfio Andrade. Sim, amigos, Rúfio, nosso convidado especial, antigo treinador do Atlético. Vamos à execução do Hino Nacional.
Robério Andrade vestiu como farda galharda sua desbotada camisa três, recebida diretamente das mãos de ninguém menos que Zé Cerqueira. Envolveu o pescoço com o xale auri-rubro e desfraldou o pendão imaculado da agremiação. Pendurou às costas a corneta e o reco-reco. Um jogo especial, a final do vigésimo terceiro campeonato goiabeirense de futebol. Robério tomou um gole rápido de café, mordiscou um biscoito e subiu a ladeira da Major Ladeira. As ruas estavam lotadas, a expectativa coloria as casas ora de vermelho e amarelo, ora de amarelo e azul. Tensão, que se resumia em cumprimentos cínicos aos torcedores do adversário e abraços festivos aos companheiros de torcida. A taça reluzia no saguão da prefeitura, cobiçada. Os bares se apinhavam de urros entusiasmados e muita cachaça para a coragem. Robério apertou o passo, bebericou uma aguardente da venda do português Ibrahim – tão neutro quanto lusitano – e comprou um saco de amendoins.
Olha a escalação das equipes: o Quinze vem de Iáshin, o guarda-redes que recebeu o apelido do Pitanga, aquele ponta-de-lança que jogou no futebol europeu, na terceira divisão holandesa; a zaga comparece com o potente quarteto Trombolho, Lico Nunes, Canelado e Péricles Andrade, irmão caçula de Robério Andrade; compondo a meia Saulo e García-Arzabes; no avançado do team, o gênio da bola, três vezes eleito o craque da cidade, Larica; nas pontas, Ventoinha e Hermes Cansanção; e, como center-forward, Muralha, cujo nome resume tudo. O treinador é o fazendeiro Bento Inácio. Pelo Atlético, um escrete que não merece maior atenção. O time é Canção, Rabicho, Leandrão, Balé e Balú, irmãos de pais diferentes; Laico e Marangon; Silver, João, Munheca e Roberval Andrade, o irmão do meio.
Era domingo escaldante no estádio municipal de Goiabeiras. Flávio Gontijo, o prefeito, iria dar o pontapé inicial. Sonora vaia por parte da oposição. Começa a partida! Bola pelo meio, Leandrão rola para Munheca, que prende demais e toca errado. Tiro de canto para o Quinze. Robério escutou os alaridos da torcida e correu. Passou bufando pela catraca e sentou-se no único rincão vazio da arquibancada – dizer do barranco que cerca o campo seria dizer a verdade. Abriu o pacote de amendoins e tirou dois. Transpirava mais que os times em jogo. O sol torturava. Limpou o suor com o xale. Ataque para o Atlético pela ponta esquerda, bola no João, lança Roberval Andrade na ponta da área que chuta e... pra foraaa!!!
(continua)
Filho da puta!, gritou Robério, antes de reparar na besteira dita. Até dona Isoldinha o repreendeu pela má educação demonstrada. Constrangido, sentou-se e permaneceu calado. Para efeitos narrativos, adiantamos a fita. O astro-rei continuava impiedoso demais, carbonizando miolos, como bem poderia demonstrar a péssima troca de passes pelo ataque atleticano. Puta vontade de fazer xixi, pensou e desanimou, ao constatar que a única árvore ficava no extremo oposto do gramado. Uuuhhh!!! Para-paca-bum, estourou um foguete na orelha de todo mundo. Sanduíche, suco natural, olha a água... preciso me concentrar, concentrar. Água, água, água! Porra, ele deve tá de sacanagem comigo. Pensou direito, pediu um copo de suco, bebeu um bocado, jogou um tanto na nuca (péssima idéia) e mijou no vasilhame vazio. Olhou para os lados. Todo mundo notou. Larica domina a bola pelo centro, dribla Marangon, lança Péricles e é falta! Voa a garrafa de suco sobre a arquibancada. Filho-da-mãe, ‘cê que jogou essa merda? O negrão tinha um e oitenta, mais ou menos. Quê? Ora, seu... Robério corre pela arquibancada, dribla o sorveteiro, pula a mulher do pedreiro Tiçá, desonesta, isso sim, Negrão na cola, ele chega mais perto, cafunga no cangote, olha o tapa e erra! Enquanto isso, no campo, os dois times demonstram nervosismo, sem conseguir chegar à meta adversária. Bufa o negrão – acho que se chama Willys, como o jipe, Robério escapa ileso. Arzabes pede a bola, finta o marcador, levanta a cabeça, portenho!, olha Ventoinha, ele recebe sozinho, prepara o chute e... outra falta!!! Desta vez, mais perto da meia-lua. Não vai um amarelo não? Robério está vermelho como a camisa. Uepa, Silver tá insultando dona Maroinha, a mãe do juiz. O capitão Roberval tenta apartar, mas Silver leva o cartão amarelo e, Opa, aplica um sonoro tabefe na cara do árbitro, Seu Bastião da Padaria. Criou-se o ranço! Trombolho aplica uma pernada em João, que rola pelo relvado, Péricles Andrade corre, seguido de Laico, rasgo na camisa de Rabicho, cuspidela em Larica, chute nas bolas de Lico Nunes. É braçada pra todo lado. O massagista do Atlético recebe uma chuteirada de Saulo. Péricles continua correndo de Balú, a bola de sebo da vizinha da praça grita como uma histérica. Os homens da cidade entram na confusão, antes para apartar, agora para praticar caratê. Dedo no olho, puxão de cabelo na ala feminina. Teve até cadeirada na arquibancada. O padre tenta chamar a todos ao apelo do amor cristão. Sobrou até para o prefeito, que levou um munhecaço de Gaiola, reserva do Atlético. Robério salta o alambrado e desfere um cruzado de direita na cara de Marangon, que perseguia Péricles, seu irmão – traidor, mas ainda meu irmão. Eis que surge a figura monumental de Willys, o negrão, perante Robério. Este fecha os olhos, franze o rosto e espera o pior. Porém, a providência enviou uma pedra bem no meio da testa do armário, sabe-se lá de onde. Ufa, ainda vivo.
Após quinze minutos de refrega, a polícia representada na figura do sargento Eustáquio apaziguou com dois chumbaços para o alto. Todos aos seus devidos lugares. A partida vai recomeçar. Saldo da guerra: três expulsos, dois dentes quebrados, alguns olhos roxos, um bêbado dormindo encostado na baliza e um casamento em crise. Para substituir os avermelhados, respectivamente, Silver, Munheca e Rabicho, foram chamados, às pressas, Tucano, Gaiato e Vereador. Bola novamente em jogo. Falta cobrada, longe, longe. A dizer, tão longe que caiu no córrego do Sumidouro (nome recebido por causa de todas as bolas e vergonhas perdidas lá), foi capturada por Marujo, cão de dona Amaranta, e destroçada implacavelmente. Nova paralização para Guelé, filho mais novo de Robério, correr na prefeitura e buscar uma outra pelota. Arzabes, o argentino incansável, aproveita e troca o uniforme, vermelho de sangue. Coisas assim confundem.
Mais fogos de artifício na volta de Guelé. Vai recomeçar novamente o certame. Larica conduz, ergue na ala direita, o time chega igual tempestade, fazendo estrago, rodopia Ventoinha, cruza com perfeição mas a cabeçada some na linha de fundo. É escanteio. Robério não tem mais unhas para roer, pensa em pedir emprestado à Clotinha. Vai cobrar Lico Nunes, ergue a pelota, olha a cabeçada, afasta o beque central, insiste Hermes, confunde as pernas, chuta e final do primeiro tempo. Os bares recebem as torcidas, prudentemente afastadas pelo quarteirão do cemitério. No bar atleticano, não se comenta outra coisa senão a apatia do time e a truculência do soprador de latinhas, que expulsou injustamente os jogadores. Robério sorve de um gole a cachaça, e zonzo, petisca uma salsicha em conserva. Uma cerveja gelada. Uma mijada para o segundo tempo. Mais um pacote de amendoim. Alisa no bolso a figa, ajeita o amuleto benzido pelo padre. Vamos vencer, acredito. Eles sorriem, assobiam o hino do clube, por enquanto sem letra. O apito ao longe é o chamado para o retorno.
Novos foguetes estalam ensurdecendo todo mundo. Dona Silvia pragueja sobre esses jovens barulhentos e suas algazarras inconseqüentes.
Rola a pelota, Larica conduz pelo meio, entrega a Saulo. Vou adiantar mais uns lances. Péricles ajeita para Canelado, o beque dá um jogo de corpo e devolve, o irmão caçula da família Andrade invade a área e Pênalti!!! É pênalti, meus amigos. Festa no lado auri-azul do estádio. Fogos. A torcida pula. Do outro canto, ninguém acredita. Alguns deixam escapar lágrimas. Quem vai bater é Péricles mesmo. O sol rachando a cuca. Ele coloca a bola debaixo do braço, caminha pela grande área e posiciona a gorducha na marca da cal. Expectativa, meus amigos. Muita tensão. Robério cruza a perna e olha atentamente para o pé, buscando a causa da coceira. Parece frieira. Bateu na trave!!! Robério nem viu, estava entretido com o prurido, certo da desgraça. Olha o contra-ataque, bola na lateral para Vereador, ele rola para Roberval, invade, deixa o goleiro caído e Goooooollllllll!!!! Robério desaba na arquibancada, rola pela grama. A torcida do Atlético explode em festa. O chorão de antanho chora de emoção. Lindomar tem princípio de parada cardíaca. Alguém atira um radinho de pilha pra cima e acerta a nuca de Salvador. É só alegria. Bola novamente no meio do campo. Ninguém duvida mais. É hoje que o caneco vem.
Por precaução, Robério, muito supersticioso, continuou coçando o pé direito assim que a pelota rolou. Os dedos já vermelhos a cada ataque desperdiçado ou defesas inacreditáveis de Canção – até ali um goleiro frangueiro, na mais branda definição pela torcida. Espalmadas para fora, salvas em cima da risca, cabeceadas para escanteio. Parecia que naquele dia a sorte estava com os atleticanos. E Robério sabia disso, tanto que não descruzava a perna nem deixava de esfregar os pés. Todo o balé do craque Larica, um exímio poeta do futebol, gênio capaz de cavar buracos inimagináveis nas retaguardas adversárias, não surtia efeito sobre a indefectível retranca auri-rubra. Eram leões naquela tarde. Dona Pinota cerrava os olhos com força a cada ataque do Quinze. Hoje, os santos estão conosco, bradava o capelão.
Entretanto, o pior aconteceu. Robério colocou três amendoins na boca nervosa, gritou Viado! e ficou entalado. Não saía nem entrava nada na garganta. Ele foi ficando azul, azul, azul. Estrebuchava. Chutava o ar. Vários tapas nas costas. Chama o doutor! Levaram ele pra rua. A boca azulada como a camisa do Quinze. O olhar desesperado, em parte pelo engasgo, ou porque estava perdendo a partida. Correram com ele para a casa do médico, torcedor do Olímpico de Janatueva do Sul, e por isso ausente naquele game. Foi necessário o apertão no diafragma do torcedor roxo literalmente, em uma posição não muito máscula, para a desobstrução das vias aéreas. Salvo. Porém, e o placar? Como estava? Como ficou? Sem agradecer devidamente ao seu benfeitor, Robério subiu galopante a rua do estádio. A saída em massa ilustrava o fim da lide. O resultado? O resultado? Pelo andar cabisbaixo dos atleticanos e a gritaria aprontada pelos torcedores – simpatizantes – do Quinze, houvera um revés. Dois a um, cara, de virada! Nos últimos instantes, bicho. Um de Larica e outro do seu irmão caçula, o Péricles. Seria uma noite chorosa. Robério sentiu um misto de tristeza e orgulho, afinal, era traidor mas era seu irmão.
Quem sabe no ano que vem.
FIM!!!
Por que o comentário tem mais espaço que o texto, afinal, poucos fazem o download das obras. Dá pra ver pelo número de votos e o de downloads.
É verdade... precisa mesmo de paciência... Mas ela é recompensada. Gostei muito!
Fê Pavanello · Brasília, DF 18/5/2007 13:14
Obrigado, Fê,
agora, acredito que o número de torcedores do Quinze de Goiabeiras Atlético Clube vá aumentar com o Overmundo.
Obrigado,
Hahaha
Bem provável...
Golaço do Simpatia!!!!!!!
Leandróide · Florianópolis, SC 18/5/2007 15:30
Valeu, Leandróide. Sabe que já fui jogador de futebol nas categorias de base? É. Inclusive disputei campeonato Mineiro e tudo. Jogava pelo Santa Tereza, time que revelou Palhinha, Cleisson e Alex Mineiro.
Meu avô era diretor do Cruzeiro e da Seleção Mineira nos áureos tempos de 63, quando sagrou-se campeã brasileira. Tenho vários troféus em casa e até a medalha do tri de 70, que meu vô ganhou do Wilson Piazza.
Por isso sou um apaixonado por futebol, em todas as dimensões, e ainda mais quando se refere ao futebol amador, de várzea, daqueles jogados em campos de terra, cujo atacante usa Bota Zebu ao invés de chuteiras. Aos cinco anos meu vô me levou em um jogo desses, era América-MG e Santa Tereza, e nunca mais consegui me esquecer da informalidade da torcida, do cheiro de paixão em que se praticava o esporte. Nada daquela necessidade de ganhar, que o mercado da bola obriga.
Abraços e obrigado mesmo.
E, no mais: "Dá-lhe Quinze de Goiabeiras Atlético Clube!"
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 18/5/2007 17:32
XV de Goiabeiras Atlético Clube, o primeiro hexacampeão da cidade de Goiabeiras. Ouvi dizer que vai participar da Recopa, jogando contra o União de Pitombeiras Futebol Clube, o Olímpico de Janatueva do Sul e o Acadêmicos de Setúbal, de Portugal.
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 18/5/2007 18:51vou ver os melhores momentos e, se achar que valeu a pena, volto pra assistir o video tape.
André Gonçalves · Teresina, PI 19/5/2007 10:06
No gol do "fantástico".
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 21/5/2007 11:17
Fala Felipe, isso tá mesmo uma beleza. Meus abraços.
Carlos Magno.
Grande Remisson,
o Quinze agradece.
Carol,
você é um amor. Obrigado.
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