Em uma casa humilde de poucos aposentos, decoração rústica e muita parafernália mecânica em São Sebastião vive Gessé Bizerra, nascido na década de 1960 em Taguatinga. É um cidadão de mente inquieta, dado a invenções engenhosas. Costuma acordar às três horas da manhã para ficar pensando em soluções para os problemas que requerem suas habilidades. Gesse acredita que seu talento para mecânica é nato. "Uns gostam de pintura, outros gostam de escrever. A mecânica é natural para mim", conta. As criações de Gesse, de forma geral, servem para reduzir a quantidade de esforço aplicado para realizar trabalhos. Desenvolveu, por exemplo, uma bomba de sucção de água de cisternas que é acionada pisando sobre uma manivela, sem eletricidade ou gasolina. Desenvolveu também um macaco hidráulico que funciona com um motor de limpador de pára-brisa.
Apesar de suas criações Gesse não se considera um inventor, diz possuir a visão apurada para encontrar novas utilidades para as coisas que já existem. "Sou um pensador, eu reciclo idéias", conta.
O interesse por mecânica vem da infância. Desde pequenos, Gesse e seus irmãos observavam os caminhões pesados passando pela rodovia Fernão Dias (BR-381), em Belo Horizonte, onde morava com a família na época. "Era uma paixão que eu tinha por aquelas máquinas", diz. Quando jovem, o pai de Gesse comprou um trator Ford 8BR Diesel, ele e os irmãos desmontaram e montaram o caminhão que até os amigos mecânicos da Petrobras tinham receio de mexer.
Geraldo Bizerra, pai de Gesse, incentivava o desenvolvimento de sua inteligência, havia um laço forte entre eles, Gesse foi o sexto de oito filhos. "Eu me dava muito bem com meu pai porquê ele era meio pá virada que nem eu", conta.
A primeira idéia criativa concretizada de Gesse ocorreu na Petrobras, onde trabalhava como ajudante de um caldeireiro na adolescência. O enxofre descia fervendo pelas caldeiras, caía em um espaço e se solidificava com a temperatura ambiente. Os funcionários precisavam utilizar marretas para quebrar o enxofre solidificado em blocos. A idéia de Gesse poupou o trabalho de quebrar o enxofre, economizou tempo e, conseqüentemente, dinheiro da empresa. Ele sugeriu que se instalasse uma placa de aço no formato de um grande prato redondo em um ângulo de 45º, com uma corrente de água jorrando sem interrupção. Quando o enxofre cai sobre a placa de metal ela gira com o peso. A água toca no enxofre e o solidifica em pequenos pedaços. Com o giro da placa o enxofre cai sólido e salpicado no chão. Os funcionários não precisaram mais rachar o enxofre com marretas para colocar os blocos pesados no caminhão, basta recolher o enxofre salpicado com uma pá. Gesse conta que não ganhou nenhum reconhecimento pela sua invenção, no entanto, a placa de aço para salpicar o enxofre foi instalada na maioria das caldeireiras.
Outra das invenções de Gesse é a bomba de sucção de água de cisternas, que tem uma história curiosa. Durante a campanha do Ministério da Saúde para combater o mosquito da dengue, Gesse encontrou um pneu de carrinho de mão cheio de água. Pisou no pneu e a água vôou longe, com toda força. "Você vê um pneu. Eu vejo um diafragma", conta Gesse. Gesse percebeu que poderia utilizar aquela energia para extrair água de uma cisterna vedando o pneu e instalando um cano para a sucção e outro para a expulsão da água. A bomba que ele projetou funciona com pouco dispêndio de energia, basta acionar a alavanca com o pé. Não necessita de eletricidade ou de gasolina. Na época, Gesse pediu a um amigo que enviasse um e-mail para o programa do Ratinho, do canal SBT, para divulgar sua criação. Não houve resposta.
Gesse trabalha atualmente com um caminhão-pipa em São Sebastião. O caminhão é modificado e personalizado com algumas de suas invenções. O freio de mão tem uma válvula para regular a tensão; sob os bancos, há uma mola que torna a viagem mais confortável; há um filtro de ar para otimizar a potência do motor; a torre do filtro, instalada por Gesse, tem uma tampa para impedir a entrada da água da chuva, feita com uma panela de sua esposa. As rodas foram convertidas de seis para dez parafusos; um aparato que um dia foi um extintor é agora um curioso galão de gasolina para o motor da bomba elétrica.
O pensador que recicla idéias, como Gesse se define, é casado e pai de três filhos, Yasmin Nataly Santos, 9 anos; Arthur Caleb Maia, 8, e Ana Sofia Maia, 5. Ele não quer ver os filhos perdidos ou preocupados com futilidades quando forem adultos, incentiva os filhos ao estudo para almejar objetivos maiores. "Se quiserem, podem ir até pra lua que eu deixo. Só não fiquem de vadiagem por aí", conta.
Gesse possui vários cursos ministrados pelo Setor de Calderaria da petrobrás nas áreas de tratamento térmico, tubulação industrial, solda e já trabalhou até em plataformas de petróleo em alto mar, mas o que chama atenção em sua personalidade é a ampla gama de interesses que possui. Gesse fala sobre os problemas do consumismo, sobre a miopia do empresário brasileiro, sobre suas experiências com o chá de hoasca quando se perdeu em Paraopeba e sobre uma teoria que está desenvolvendo de que o esgoto ainda vai salvar o mundo, fruto de seu interesse por permacultura.
"A maioria das pessoas tem problema de raciocínio. De pensar, de criar. Henry Ford por exemplo nunca fez faculdade, mas foi um cara revolucionário", diz Gesse. O empresário estadunidense Henry Ford, pai da marca automobilística Ford, assim como Gesse nunca cursou uma faculdade e deve concordar com Gesse: "Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele". Gesse não se considera um inventor. "Sou um pensador que recicla idéias".
Matéria interessante para o overblog!
Abraços
Gostei da sua reportagem sobre esse reciclador de idéias que, infelizmente, não tem o merecido reconhecimento.
Abraço e votos.
Bravo Gesse " sou um pensador que recicla idéias" . Precisam de alguém assim como vc em nosso "governo", porque as idéias que tem saído de lá..... Bjsssssss
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 15/6/2008 23:40
maravilhosa matéria.
Feliz de quem consegue no dom,realizar os sonhos.
meus votos e meu carinho.
Concerteza, pensar é tortuante para a maioria!
Tem gente que acha minha idéia de adaptar o Raciocínio lógico avançada nas escolas uma loucura!
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