GESTAÇÃO

tempodeaventura.com.br
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Ivette G.M. · Cotia, SP
23/6/2009 · 15 · 16
 

EM GESTAÇÃO

Dona Marinalda, mulher rica, viúva e dada a passar temporadas em hotéis e Resorts do Norte e Nordeste do Brasil, mais uma vez cumpria esse ritual, que tinha início no outono e só terminava ao final do inverno.
Gorda, bonita e simpática, coberta de penduricalhos reluzentes e os roliços braços cheios de pulseiras, portando seu já conhecido chapéu de sol enfeitado com flores e pássaros, estava refestelada em uma espreguiçadeira sob a fresca de uma frondosa árvore, saboreando seu cocktail e observando a chegada dos hóspedes.
Chegava cedo ao local para verificar e avaliar os hóspedes novos e encher de cadeiras à sua volta, para os hóspedes habituais daquelas temporadas, seus amigos e conhecidos. Conforme eles adentravam o espaço, dona Marinalda já os chamava ou fazia sinais e, aos poucos, a roda ia aumentando e as conversas agitando. Comentava-se da vida alheia, das fofocas da sociedade, de amigos e de inimigos.
Quando o sol já estava alto e os amigos animados, adentrou o recinto um novo casal, jovem, bonito e elegante, desconhecido do grupo. Falavam em árabe e pareciam muito felizes.
Dona Marinalda, com a curiosidade aguçada sentenciou: estão em lua de mel. Dá para perceber pelos olhares apaixonados e pela forma como estão abraçados. O grupo concordou e passou a fazer comentários e piadas maliciosas, comentando que hoje em dia a instituição da lua de mel estava falida. Não havia mais o encantamento de outrora. Ir para a cama juntos, nos dias de hoje, era a coisa mais corriqueira e nem precisavam ser namorados. O sexo pelo sexo, que anteriormente era um privilégio masculino, agora se tornara privilégio das mulheres também.
Umberto, um dos mais velhos do grupo disse, enfaticamente, que ele havia nascido cedo demais. Gostaria muito de viver os tempos de hoje. Ah! Que maná dos deuses haveria de provar. Ato contínuo levou um beliscão da mulher, mas não parou de sonhar. Naqueles tempos tudo era muito preconceituoso e hipócrita. Tínhamos que refrear os instintos e fazer de conta que nada sentíamos. Só nos restavam os prostíbulos.
E as mulheres casadoiras, então? Fingiam que não queriam nada, que não gostavam do que aconteceria no casamento, que tudo seria pura obrigação matrimonial. Pois sim, sentenciou.
A conversa ia descambar para a discussão quando dona Marinalda interrompeu, dizendo que estava se lembrando do que havia acontecido ha dois anos, naquele mesmo luxuoso Resort. Curioso, o grupo cessou as discussões e pediu a ela que contasse o ocorrido. Era o que ela queria. Era a deixa para começar o relato.
“Em um belo dia como o de hoje, eu estava sentada aqui neste mesmo lugar, pois como vocês sabem, é o meu preferido, quando, como agora, vi entrar um lindo casal, só que de franceses. Quando digo franceses vocês já sabem que digo sinônimo de elegância. Como são belos e elegantes! São elegantes na simplicidade. As mulheres não usam quilos de maquiagem, como as norte americanas. Tudo é leve, contido e de bom gosto. Então, não eram apenas lindos, mas muito elegantes também.
Ela estava grávida, em estado bastante adiantado, o que me levou a pensar como ela era corajosa em viajar naquele estado. Ele, por sua vez, tinha o maior cuidado com ela, amparando-a, fazendo-a sentar-se, servindo-a, ao que ela agradecia com um sorriso meigo e afetuoso. Era um casal no qual ninguém podia deixar de reparar.
Eles não saiam muito do hotel. Eu mesma não vi isso acontecer mais do que duas vezes, sempre com um táxi à porta, carro grande e com estofamento muito confortável, para acomodá-la bem.
Passeavam de mãos dadas em torno da piscina, ocasiões em que ele sempre a amparava e cuidava com muito zelo. Sentavam-se nos bancos à sobra das árvores, tomavam sucos refrescantes e conversavam baixinho, com maneiras educadas. Muitas vezes eu os vi na biblioteca, lendo ou recostados nos confortáveis sofás da recepção.
O gerente, muito meu amigo, disse-me que aquelas eram pessoas de muitas posses. Haviam guardado no cofre do hotel muitos euros. Em torno de vinte e cinco mil. Poucas jóias, mas de grande valor. Pensando na gravidez da moça me pareceu razoável que viajassem com dinheiro reservado para uma emergência.
Certa manhã, quando desci para o café não encontrei o casal, que costumava ocupar uma mesa ao lado da minha e tomava seu café no mesmo horário que eu. Chamei o gerente e indaguei se o casal já havia saído ou se deixara o hotel. Ele então me contou que na madrugada houvera um corre-corre daqueles. A futura mamãe se sentira mal e fora levada para a maternidade, a melhor da cidade, diga-se de passagem. Contou-me também que o rapaz pedira para o gerente da noite trocar cinco mil euros em reais, retirando o dinheiro do cofre e pagando no ato. Precisava fazer a caução no hospital e não imaginara que sua esposa fosse lhe dar aquele susto, possivelmente adiantando o parto.
Mais de vinte e quatro horas depois o rapaz apareceu, muito abatido e acabrunhado, barba por fazer e aparentando muito nervosismo. Viera tomar um banho e mudar de roupa. Trocou mais dez mil euros. Sua mulher sofrera uma cesariana, cujo processo pós-operatório não estava correndo bem. Ela estava na UTI e o bebê, uma menina, estava na isolete, com problemas respiratórios. Transtornado, pediu ao gerente que não levasse os euros que já trocara, para a casa de câmbio. Ele não tinha a menor idéia do que poderia acontecer. De toda maneira, ainda lhe restavam dez mil euros para saldar dívidas e, em último caso, as jóias da esposa, tudo guardado no cofre do hotel. Chamou um táxi e saiu de novo, apressado, em direção ao hospital. Tinha os olhos vermelhos e, ao que tudo indicava, havia chorado.
Quarenta e oito horas se passaram e ninguém tinha notícias do casal. Ninguém sabia o que estava acontecendo com a parturiente e com o bebê. O gerente pediu então ao médico que atendia os hóspedes, que fosse ao hospital em busca de notícias e que verificasse se o casal precisava de auxílio. A demora do jovem em dar notícias era preocupante. Será que a moça havia morrido? E o bebê? O transtorno do rapaz, quando tinha sido visto pela última vez, era de cortar o coração.
Pobre casal! Sozinho no Brasil, longe dos familiares e dos amigos. Já imaginaram a situação do coitado tendo que preparar um ou dois funerais, de volta à França, sem conhecer a burocracia do Brasil, sem pessoas para ajudá-lo e ampará-lo?
Uma das operadoras do PABX pediu ao gerente que fizesse pensamentos mais positivos e menos desastrosos. Isso dá azar, sabe? Ela acendera uma vela e todos oravam por aquela família.
O gerente também orava, mas pensava: oras bolas, alguém precisa ser mais prático nestas horas. As providências necessárias não esperam.
Os funcionários em geral, se lembravam e comentavam a educação e gentileza com que eles os tratavam, as gorjetas com que lhes agradeciam, o sorriso meigo e cativante com que a linda moça francesa presenteava a todos. Infelizmente os hóspedes não falavam o português e só o gerente, que falava francês, conseguia conversar com eles.
Duas horas depois o médico voltou ao hotel. Todos o rodearam querendo saber o que havia acontecido.
O médico falou a queima roupa: não existe ninguém naquele hospital e nem em qualquer outro da cidade com o nome do casal e muito menos uma jovem francesa que tenha dado à luz nos últimos quatro dias e esteve ou esteja na UTI. Simplesmente não há nenhum registro deles na cidade!
O gerente, branco como uma cera, gritou em altos brados, esquecendo-se da finesse devida ao atendimento dos hóspedes: filhos da puta! Golpe! Golpe! Eles me deram um golpe. Estou perdido!
Imediatamente chamou o cambista que trabalhava para o hotel que constatou: os euros são falsos. Sua emissão é perfeita e só uma pessoa muito treinada descobriria a falsificação. As jóias também são falsas. Não resta nada, nem para pagar a conta de sete dias de hospedagem. Eles conseguiram levar um bom dinheiro daqui.
As malas! As malas! Exclamou uma das camareiras. Quem sabe contenham alguma coisa de valor? Ainda estão no apartamento!
Todos correram para a suíte onde o casal se hospedara, uma das mais caras do Resort.
As malas foram ansiosamente abertas e ...nada! Vazias, completamente vazias! Os armários também estavam vazios. Não haviam deixado nada de valor ou que pudesse identificá-los.
Ladrões! Estelionatários! Golpistas, balbuciava o gerente, desabando sobre uma cadeira, branco como uma folha de papel, prestes a desmaiar ou a ter um ataque cardíaco.
O ascensorista, sempre muito bem humorado, exclamou: Que gestação, heim? Um belo parto de quinze mil euros!







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Autoria
iVETTE G M
Ficha tcnica
Conto, escrito em maio de 2009
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Doroni Hilgenberg
 

IVETE,
Grande Ivete...
Isso que é exemplo de gentilezas em cima de um golpe bem dado.
Além disso, seu conto prende a gente de maneira impressionante.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 22/6/2009 12:31
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Doroni Hilgenberg
 

voltando
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 23/6/2009 21:27
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Ivette G.M.
 

Doroni, muito obrigada pela gentileza de sua leitura e de sua presença constante.
Acho que vou desistir do over. Agora que ninguém precisa de votos, ninguém nos lê. Aquelas pessoas que nos liam anteriormente, o faziam apenas como troca de favores. Vou continuar escrevendo porque é um grande prazer fazê-lo, mas não sei se vou publicar na Internet.
Abração, Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 24/6/2009 10:03
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menina_flor
 

Querida Ivette adoro os seus contos. Fico 'presa' a eles. Leio com ansiedade...nossa! Quero pular as partes. Já estava sofrendo aqui lendo o destino do 'pobre casal' quando você surge e nos surpreende! Excelente. Muito bem bolado. Gostoso de ler.
E não é que quando se chega no Brasil todos aprendem a levar vantagem? Oh...fama!
Parabéns.

Bjos
Patty

P.s. Nem pense em abandonar o overmundo. Também já senti essa vontade. Mas pense que as pessoas que conhecem você, que gostam dos seus textos estarão presentes em sua pagina independente de votos [o que era injusto].
Avise aos mais chegados quando você publicar algo.
Eu vim visitar voc^e tive a grata surpresa de encontrar esse ótimo conto.
Siga em frente!
Bjos

menina_flor · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2009 12:17
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Ivette G.M.
 

Menina, muito obrigada pelo comentário e pela força.
Abração, Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 24/6/2009 14:18
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Doroni Hilgenberg
 

Ivete querida,

Crie um B log e publique teus textos que são ótimos,
mas não desista de esscrever.
D á uma olhada nos meus...
http://doronihilgenberg.blogspot.com/ ( poemas)
http://doroni.blogspot.com/ ( contos,lendas e textos)
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 24/6/2009 15:17
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azuirfilho
 

Ivette G.M. · Cotia (SP) ·
GESTAÇÃO

Um Texto muito bem feito que merece toda louvação.
Um Belo Conto. O Verdadeiro Conto do Vigário.
Em boa Ocasião para nos despertar as atenções porque sempre passam estes contos quer enganam e todos temos de sempre ficarmos muito atentos, porque em qualquer lugar pode acontecer uma História semelhante e temos de estar atentos para escapar.
Muito dinheiro é para desconfiar sempre.
Parabéns.
Abração Amigo.

azuirfilho · Campinas, SP 24/6/2009 19:07
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mochiaro
 

ivette
Sempre procuro ler os seus contos, e você tem uma qualidade a nos prender até o final nos envolvendo de suposições a cada linha lida
Um beijo e um belo exemplo de vida em contos

mochiaro · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2009 22:54
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mochiaro
 

deixei com prazer o meu voto
um beijo

mochiaro · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2009 22:55
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Cláudia Campello
 

...e vc consegue me transportar a esse seu
mundo de fatalidades e amores.....e alegrias e
tristezas e superaçao.........ahhhhh seus contos tem poesia.

adoro te ler.

bjssssssssss♥;;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 26/6/2009 13:59
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Aube
 

Ivette!
Que texto maravilhoso! Você realmente sabe como envolver os seus fiéis leitores... Muuuito bom! Amanheço o dia com essa deliciosa leitura.
Paz e bem!
Mil beijos,
Aube.

Aube · Salvador, BA 28/6/2009 11:40
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delen
 

Essa é a grande amiga Ivette,

Belo texto, mas não vou comentar do texto Ok? Esse será um desabafo...
Querida as vezes pode demorar para eu vir ler seus trabalhos, mas quando venho tu não sabe o quanto fico satisfeito, as vezes é chato postar um trabalho com tanta dedicação e poucas pessoas virem ler, mas saiba que admiro muito sua pessoa, e cada palavra que vem de vc é um aprendizado a mais na vida desse poeta, por favor não desista de postar, antes de mil comentários é bom lembrar que existem amigos... Beijos!

delen · Cotia, SP 30/6/2009 12:16
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Ivette G.M.
 

Meu querido Delen, obrigada pelas palavras de estímulo, bem próprias de você, uma pessoa com tanta asensibilidade.
Um grande abraço, Ivette

Ivette G.M. · Cotia, SP 30/6/2009 16:11
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Escritora Eliane Potiguara
 

Super esclarecedor o seu texto e vc escreve muito bem, aproveito para fazer um link com vc no textinho abaixo, espero podermos ser parceiros, mesmo que eu esteja em outra área de atuação. Veja e um beijo de luz:
Sou Eliane Potiguara, escritora indígena e estou carinhosamente convidando vc a ler o meu texto sobre "Desenvolvimento indígena sobre perspectiva de gênero". Meu último livro é METADE CARA, METADE MÁSCARA, pela Global Editora com apresentação de Daniel Munduruku e Graça Graúna. Teria um prazer enorme em ser prestigiada por vc. Um beijo de Luz. Eliane Potiguara
CLIQUE NO LINK: http://overmundo.com.br/overblog/desenvolvimento-indigena-sob-perspectiva-de-genero

Escritora Eliane Potiguara · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2009 11:20
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ayruman
 

Maestria com as palavras. Simplesmente envolvente.
Abraços. Paz na Trra. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 7/7/2009 19:46
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Poeta Malume do Brasil
 

Ivete, parabéns pelo texto, tens meu voto, Malume!

Poeta Malume do Brasil · Fortaleza, CE 13/8/2009 09:07
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