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Gralhas

1
Circus do Suannes · São Paulo, SP
18/6/2008 · 38 · 5
 

“Love not! Love not!
Ye hopeless sons of clay;
hope's gayest wreaths are made of earthly flowers,
things that are made to fade and fall away,
here they have blossomed for a few short hours.”
(*)
Caroline Elizabeth Sheridan Norton


A escola ficava na Bigdoy Allé, rodeada das residências dos embaixadores estrangeiros, que talvez preferissem a calma de Bergen e seus fjords à agitação de Oslo e a invasão dos estrangeiros que tanto descaracterizavam o aspecto da capital. As crianças passavam todos os dias junto ao muro da casa grande, onde tremulava a bandeira colorida, que despertava a atenção daquele bando de gralhas, grossitando todas ao mesmo tempo. Stars and stripes forever, como se dizia além do oceano, lá onde Leif Ericson estivera muito antes de ali chegar Cristóbal Colón.
Na classe não lhes haviam advertido que além daquele muro era território estrangeiro, pois não lhes ensinavam ainda essas coisas de direito internacional e outras bobagens que os adultos inventam para criar barreiras entre si. Sabiam apenas que as árvores em seu país não tinham dono, pois o allemannsretter (1) assegura a todos poder entrar no terreno alheio e colher o que a natureza ali plantasse. Res nullius, res omnium, diriam elas, se soubessem aquela língua estranha que jamais haviam ouvido alguém falar por ali. E da qual ninguém necessitava para ser feliz.
Naquele dia, na classe, a colega morena exibira ao menino loiro um sorriso diferente daquele que costumava entregar aos outros colegas, sempre gentil e tímida. Era preciso retribuir-lhe a especial atenção. Mas como?
Ali estava agora a oportunidade de mostrar sua valentia, andando sobre o muro alto da casa grande, à maneira de um nefelibata, palavra que ele jamais ouvira na vida. E jamais ouviria.
Sob os olhos espantados das demais gralhas, o menino atravessou a rua, veio correndo e conseguiu, com salto felino, alcançar o cimo do muro pretendido. Com algum esforço pôs-se de pé lá em cima, abriu os braços em cruz e digeriu gostosamente o aplauso dos colegas. E, mais do que aplauso, o sorriso especial da menina morena.
E o sorriso foi o estimulante que o fez caminhar, lentamente, o estreito caminho que escolhera para mostrar à menina que era, de todos aqueles machos, a gralha que a natureza havia reservado para ela. Que ainda não havia visto toda sua valentia, pois tinha ainda de alcançar o cetro comprobatório de seu triunfo. Saltar do muro para dentro do terreno, colher frutas silvestres e, supino esfoço!, com o troféu na mão, galgar de novo o muro, trazendo à rainha o butim de sua pilhagem, viking romântico.
A vida, porém, é feita de surpresas, aprendeu ele, ao perder o equilíbrio e cair do lado de lá do muro, despertando um oh! dos colegas e um ar de preocupação no rosto da menina morena.
Do outro lado do muro, o receio dos adultos diante de questiúnculas que vinham ocorrendo além, muito além daquelas terras geladas e que poderiam vir a molestá-los algum próximo dia, fê-los cercarem-se de cuidados desdobrados. E aquilo que se mostrava bosque era, na verdade, um campo minado, preparado para o pior.
O fato é que as gralhas não souberam explicar aos policiais chamados, falando todas ao mesmo tempo, se o grito veio antes ou depois da explosão. O menino loiro, única pessoa autorizada pelas circunstâncias a esclarecê-lo, jamais poderá fazê-lo. E isso era o que importava.
E a menina morena ficou sem as frutas silvestres, substituídas por uma dor profunda que lhe agulha o peito sempre que vê, na classe, aquela cadeira vazia.

(*) Em tradução livre:
“Jamais ame alguém! Jamais ame alguém!
Ó inúteis seres de barro,
as alegres grinaldas da esperança são feitas de flores efêmeras,
coisas destinadas a esmaecer e morrer
e que florescem por apenas insignificantes horas.”
(1) Na Noruega, toda pessoa pode colher frutos silvestres em qualquer terreno, desde que seja para consumo imediato

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Nic NIlson
 

Meu caro amigo, se existe uma coisa q adoro neste mundo, de verdade mesmo, são os textos universais. Podem ser lidos aqui ou na Noruega... Com teu farto conhecimento, tua verve altssima e tuas experiencias forenses pode nos brindar a todos com tuas gotas mágicas de palavras, açoes e singelezas.
Aplausos de pé.
Pena q soh consigo dar um voto.
abs

Nic NIlson · Campinas, SP 18/6/2008 17:04
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Nic NIlson
 

Se eu tivesse grana, money, faria ja, agora, um filme de arte, em cima deste texto. Mas sou pobre, pequeno soh grande nas vontades. Daria um belo filme, tenho certeza.
abraçao meu amigo

Nic NIlson · Campinas, SP 18/6/2008 17:05
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Doroni Hilgenberg
 

Circus... Lindo mini-conto. E que sugestiva foto. Esta provado que as crianças também tem preferencias e fazem o possivel para chamar a atenção do objeto desejado, mesmo que, precise para isso, se expor ao perigo. Grande a sugestão do Nic! Bjsss e votos.

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 19/6/2008 22:33
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Andre Pessego
 

Legal, Dr. muito legal.
- Duas coisas se ainda estivesse em edição ia ficar só com o retrato. Lindo, lindo e lindo.
- O texto no contexto. Um grande enredo,
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 20/6/2008 07:07
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Selma Santos
 

Muito lindo e muito triste!
Quando li "jamais ouviria"do texto já antevi o doloroso desfecho e me permiti sofrer.
Bem escolhido o poema que antecede o conto.
Pa- ra -béns ! ! ! "Bração" da Selma

Selma Santos · Socorro, SP 20/6/2008 23:14
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