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Gralhas

1
Circus do Suannes · São Paulo, SP
11/9/2008 · 154 · 24
 

“Love not! Love not!
Ye hopeless sons of clay;
hope's gayest wreaths are made of earthly flowers,
things that are made to fade and fall away,
here they have blossomed for a few short hours.”


Caroline Elizabeth Sheridan Norton


A escola ficava na Bigdoy Allé, rodeada das residências dos embaixadores estrangeiros, que talvez preferissem a calma de Bergen e seus fjords à agitação de Oslo e a invasão dos estrangeiros que tanto descaracterizavam o aspecto da capital. As crianças passavam todos os dias junto ao muro da casa grande, onde tremulava a bandeira colorida, que despertava a atenção daquele bando de gralhas, grossitando todas ao mesmo tempo. Uma bandeira tão diferente do pálido pavilhão nacional. Stars and stripes forever, como se dizia além do oceano, lá onde Leif Ericson estivera muito antes de ali chegar Cristóbal Colón.

Na classe não lhes haviam advertido que além daquele muro era território estrangeiro, pois não lhes ensinavam ainda essas coisas de direito internacional e outras bobagens que os adultos inventam para criar barreiras entre si. Sabiam apenas que as árvores em seu país não tinham dono, pois o allemannsretter assegura a todos poder entrar no terreno alheio e colher o que a natureza ali plantasse. Res nullius, res omnium, diriam elas, se soubessem aquela língua estranha que jamais haviam ouvido alguém falar por ali. E da qual ninguém necessitava para ser feliz.

Naquele dia, na classe, a colega morena exibira ao menino loiro um sorriso diferente daquele que costumava entregar aos outros colegas, sempre gentil e tímida. Era preciso retribuir-lhe a especial atenção. Mas como? Ali estava agora a oportunidade de mostrar sua valentia, andando sobre o muro alto da casa grande, à maneira de um nefelibata, palavra que ele jamais ouvira na vida. E jamais ouviria.

Sob os olhos espantados das demais gralhas, o menino atravessou a rua, veio correndo e conseguiu, com salto felino, alcançar o cimo do muro pretendido. Com algum esforço pôs-se de pé lá em cima, abriu os braços em cruz e digeriu gostosamente o aplauso dos colegas. E, mais do que aplauso, o sorriso especial da menina morena.

E o sorriso foi o estimulante que o fez caminhar, lentamente, o estreito caminho que escolhera para mostrar à menina que era, de todos aqueles machos, a gralha que a natureza havia reservado para ela. Que ainda não havia visto toda sua valentia, pois tinha ainda de alcançar o cetro comprobatório de seu triunfo. Saltar do muro para dentro do terreno, colher frutas silvestres e, supino esforço!, com o troféu na mão, galgar de novo o muro, trazendo à rainha o butim de sua pilhagem, viking romântico.

A vida, porém, é feita de surpresas, aprendeu ele, ao perder o equilíbrio e cair do lado de lá do muro, despertando um oh! dos colegas e um ar de preocupação no rosto da menina morena.

Do outro lado do muro, o receio dos adultos diante de questiúnculas que vinham ocorrendo além, muito além daquelas terras geladas e que poderiam vir a molestá-los algum próximo dia, fê-los cercarem-se de cuidados desdobrados. E aquilo que se mostrava bosque era, na verdade, um campo minado, preparado para o pior.

O fato é que as gralhas não souberam explicar aos policiais ali chamados, falando todas ao mesmo tempo, se o grito veio antes ou depois da explosão. O menino loiro, única pessoa autorizada pelas circunstâncias a esclarecê-lo, jamais poderá fazê-lo. E isso era o que importava.

E a menina morena ficou sem as frutas silvestres, substituídas por uma dor profunda que lhe agulha o peito sempre que vê, na classe, aquela cadeira vazia.



Sobre a obra

Este conto pertence ao livro Contos da Noruega, ainda inédito. A bela poesia da Elizabeth Norton, em tradução livre, diz:
“Jamais ame alguém! Jamais ame alguém!
Ó inúteis seres de barro,
as alegres grinaldas da esperança são feitas de flores efêmeras,
coisas destinadas a esmaecer e morrer
e que florescem por apenas insignificantes horas.”


Duas explicações a respeito do texto: naquele país há uma regra consuetudinária milenar segundo a qual toda pessoa pode colher frutos silvestres em qualquer terreno, desde que seja para consumo imediato. Isso está incluído no allemannsretter, isto é, “direitos de todas as pessoas”.

A bandeira norte-americana apresenta vistosas treze listras e cinqüenta estrelas. Stars and stripes. As listras representam as colônias inglesas iniciais, e as estrelas representam os atuais Estados, que se uniram formando a Confederação.

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Renato de Mattos Motta
 

Já tinha gostado quando li no Circus! Volto pro voto!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 9/9/2008 06:50
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Coluna do Domingos
 

MINHA OPINIÃO

É isto que considero um grande escritor, linguagem rebuscada e rica de ritmos e perspectivas que a gente se envolve e se embriaga, pois nós, já não vivemos a nós mesmos, mas ao se deixar levar por um conto bem presilhado, bem redigido, com idéias claras precisas e as as etapas de construção linguística seguindo uma ordem conceitual lógica que envaidece a todos nós que escrevemos, Circus do Suannes, em Gralas, mais uma vez nos ensina, através do seu exemplo, como construir uma linguagem que edifica, cosolida e dá a força elástica para o enlarguecimento da epistemologia genética da humanidade.
Parabéns mais uma vez.

Comentário Conceitual extraido de Gralhas, Circus do Suannes, São Paulo(SP) Edição Overmundo.

Coluna do Domingos · Aurora, CE 9/9/2008 12:49
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Lila Su
 

O que dizer? que os homens são iguais no tempo e no espaço. Necessidade de aprovação dos demais, exibicionismo que, muitas vezes tem um alto preço.E, que, igualmente, a vida do próximo "não é problema meu..." Você consegue prender a atenção do leitor até o fim. E, a ilustração com foto do Xande é simplesmente linda. Lila Su

Lila Su · São Paulo, SP 10/9/2008 09:59
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Cherry Blossom
 

Ficou muito, muito bom meu querido Suannes! Linguagem precisa, apurada,ótimo ritmo!
Muito Bom!
beijos

Cherry Blossom · Dracena, SP 10/9/2008 17:29
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Renato de Mattos Motta
 

Votado!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 11/9/2008 07:36
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Langinha
 

Voto em você, querido maninho: Boa Sorte...Bjs Langinha...

Langinha · São Paulo, SP 11/9/2008 08:48
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Zé Preá
 

Li, querido mestre, ao som da valsa "Véu de Grinalda" que o divino Sivuca deixou gravada para a gente esquecer de muitas coisas e lembrar de outras. Ocê sabe que ele era muito amado naqueles países nórdicos onde chamava tudo de vikings. E essa valsa Véu de grinalda [Slarhaler] (Jons Rasmussen) quando é ouvida por um cidadão chamado Eric Peterson simplesmente faz o homem chorar. Lembra do músico albino que se confundia no meio daquela brancura e que, talvez por isso mesmo, era tratado como um deles. Belíssimo texto! Abraços do,

Zé Preá

Zé Preá · Recife, PE 11/9/2008 09:45
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Lila Su
 

Voto em você que tem apresentado trabalhos tão lindos. Lila Su

Lila Su · São Paulo, SP 11/9/2008 09:57
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Zé Preá
 

No meu comentário acima corrijo duas coisas: 1) A valsa dinamarquesa chama-se Slorhaler; 2) O amigo de Sivuca é Eric Petersen. Abraços

Zé Preá · Recife, PE 11/9/2008 09:58
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alcanu
 

Antes as pombas, hoje as gralhas, amanhã o que ameaçará a Paz ?
Um abraço !

alcanu · São Paulo, SP 11/9/2008 10:06
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delen
 

Só posso dizer que esta perfeito , é dificil não gostar de seus trabalhos este apresenta uma linguagem direta e rica em todo o conteúdo , parabéns , deixo meu voto e admiração. Abraço...

delen · Cotia, SP 11/9/2008 10:10
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Cherry Blossom
 

Voto e beijos!

Cherry Blossom · Dracena, SP 11/9/2008 10:17
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto
bem elaborado mas que triste conto!
Desde criança aprendemos a chamar a atenção
de quem gostamos e muitas vezes
as consequencias são desastrosas.
bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/9/2008 10:19
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

desculpe meu comentário direto, mas ficou maravilhoso e bem elaborado seu texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 11/9/2008 10:33
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Wellington Coelho
 

Circus,
Este conto engajado ultrapassa as fronteiras da literatura e penetra na filosofia, levantando questões que deveriam ser motivo de refelxão para todos nós. A construção do conto foi primorosa, a epígrafe é explicada na narrativa.
Parabéns!
Prazer em conhecer sua arte.
Abração e votos

Wellington Coelho · Belo Horizonte, MG 11/9/2008 11:25
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EdimoGinot
 

A vida, não deixa de ser um campo minado.
Para o alento ou desalento.
Beleza de prosa.
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 11/9/2008 13:53
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Juscelino Mendes
 

Que conclusão chocante,
mas belamente retratada!
Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 11/9/2008 16:38
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Eldo Meira
 

Já havia lido no CIRCUS. Realmente digno de nota máxima. É pra ler e ficar refletindo. A imagem alegre e sinfônica da gritaria das crianças, num comparativo aos gritos dos pássaros, com o trágico e triste desfecho.

Eldo Meira · Carazinho, RS 11/9/2008 17:49
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Cintia Thome
 

Isso que é texto!
Posso só dizer que essa é a dor mais, mais profunda
esse abismo inexplicável que alguns destinam aos outros....
belezamesmo .ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 12/9/2008 09:34
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CEARUCHO
 

Conheci o espetáculo das gralhas no Circus.

Voto no DIRETOR DO CIRCUS, acrescentando que os cearenses "sabem das
coisas", não só aos DOMINGOS, como TODO DIA; não só na AURORA, como
durante TODO O DIA.


Francimar.

CEARUCHO · Porto Alegre, RS 12/9/2008 17:40
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Ailuj
 

:)

Ailuj · Niterói, RJ 13/9/2008 01:59
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Sérgio Franck
 

Um contaço massa. Acho que, a cada dia vem chegando contistas ainda melhores no site. Tínhamos bastante poesia e poucos textos assim. E o melhor de tudo, é que todos saimos ganhando.

Costumo comparar a vociferação de uma vizinha com o sonido de uma gralha. Sozinha, ela chega a parecer um tumulto de gente.

abço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 13/9/2008 11:12
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Karla Gohr
 

Votado e amei a foto! (fofo d+). Beijo.

Karla Gohr · Curitiba, PR 13/9/2008 12:42
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Saavedra Valentim
 

Realmente Suannes,
Seu texto é de um brilhantismo ímpar.
Fato triste e comovente vinda de um mestre da literatura.
Parabéns!

Saavedra Valentim · Vitória, ES 17/9/2008 19:14
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