HÁ (OU NÃO HÁ) COMPAIXÃO NAS QUEBRADAS?
Era madrugada profunda quando o homem se apercebeu em pé. Atrás de si o portão de sua casa permanecia trancado, a lua emprestava àquela escuridão úmida um prateado singular que lhe tirava todo o pesar das horas mortas. Ao permitir que seu olhar vagueasse pelas possíveis distâncias pode reconhecer a rua onde morava com admiração e surpresa pelo fato de ali naquele momento habitar tanta paz. A escuridão e o brilho gris do luar - talvez por não haver estrelas no céu - tornavam as casas ao longo da rua estreita qual figuras uniformes, com um suave contorno, cuja penumbra remetia a antigos desenhos de sombra e luz dos tempos de escola. Ao longe se ouvia cães ladrarem parodiando um repente ritmado. Lá, quase no final da rua, chamou-lhe a atenção uma enorme ratazana que farejava com seu focinho tudo a sua frente, o bicho pôs-se a destruir um saco de lixo largado junto à esquina e isto revelou ao homem toda a solidão a que ele estava entregue, mas não era uma solidão pesarosa, a paz que sentia era-lhe extremamente confortável. Enredou-se em direção contraria a ratazana para não incomodar sua procura por alimentos e sentiu-se satisfeito de poder fazê-lo. Caminhou absorto pelas ruas do bairro e depois de algum tempo passou a não mais reconhecer a vizinhança, casebres paupérrimos ladeavam ruas que mais pareciam labirintos; o asfalto cedeu lugar à terra batida e a alvenaria que outrora protegia moradores dormentes alternava-se com barracos de madeira cada vez mais constantes até que estes passaram a predominar na paisagem. Verdadeiras montanhas de lixo eram banquetes para ratos e ratazanas que fugiam ao aproximar de seus passos. Dos tortuosos postes de madeira, um caótico emaranhado de fios partia em direção aos telhados que ostentavam antenas de diferentes tipos onde se exibia o que sobrara de pipas, rabiolas e pares de tênis.
O clima agradável fora de ímpeto substituído por uma rápida e fria brisa o que fez ranger madeiras e telhas de zinco e o homem, num movimento mecanizado, levou à cintura sua mão direita; tateou um frio e metálico volume e recordou-se que, já havia muito, deixara sua casa em busca de algum sentimento que lhe trouxesse de volta a motivação que faz com que um homem moderno possa batalhar dia-após-dia pela manutenção de seu lar, pelo o bem estar de seus familiares e pelo seu próprio bem estar. Neste instante notou que mais à frente brilhava uma fraca e amarelada luz, tão tênue, porém tão persistente que o atraiu qual a uma mariposa. Era um boteco minúsculo onde calendários, pôsteres de mulheres nuas e um velho relógio, que parecia não funcionar, decoravam sordidamente as paredes de madeiras irregulares. Além do pequeno balcão e uma rústica e improvisada prateleira na qual se viam algumas garrafas de aguardente popular, havia também uma mesa de sinuca onde dois homens disputavam silenciosamente uma partida de mata-mata, enquanto bebiam e fumavam. Ao entrar pareceu-lhe, pelos olhares dos jogadores que não era bem vindo no local, sem dar importância a este detalhe, encostou-se ao balcão. Um velho com seu chapéu surrado de palha, e camisa de mangas curtas, que tempos atrás deveria ter sido branca, veio até ele soltando uma densa baforada de seu fétido cigarro de palha, serviu-lhe sem que pedisse uma dose de cachaça e uma garrafa de cerveja, cochichos e olhares de soslaio oriundos da mesa de jogo o incomodavam e o homem voltou até a porta do bar sem ter tocado nas bebidas. Lá, parado, ...
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Robert, amigo
Belo e real conto da vida. O cotidiano sempre presente. A dureza da vida e o final 2, é o retrato da esperança e que anuncia que aquele homem recuperou seu caminhar, comemorando com quem, uma noite, acreditou na dor da sua alma.
Excelente,parceiro.
Forte abraço
Noélio
Noelio!
Agradeço-te muitíssimo a visita sempre honrosa e incentivadora.
Forte abraço!
Robert,
Belíssimo conto "não aumento um ponto" pois não consegui abrir o download para optar por final!
Parabéns pelo trabalho!
Um aBRAÇO, Marluce
Oi Marluce!
O fato de você ter lido já me deixa muitíssimo feliz. Obrigado pela visita.
Vou mandar o arquivo para você via e-mail, ok?!
Bjs.
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