Hinos

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
2/10/2009 · 11 · 7
 

“A Federação Paulista de Futebol determinou que antes da realização de partidas do campeonato de futebol deste ano seja executado o Hino Nacional Brasileiro”
(Dos jornais)

Pra que serve um hino? Faço a pergunta menos para tornar pública minha ignorância e mais para tentar explicar porque os jogadores de futebol ficam mascando chiclé, fingindo que cantam alguma coisa naquele momento nervoso que antecede um jogo de futebol da seleção brasileira. Ou outro jogo de futebol, vá lá.
Um jogador de futebol saber cantar o hino é algo importante? Por que? Para que? Cartas à redação.
A princípio, um hino sugere uma tropa de militares marchando, carabina no ombro, passos cadenciados, em dupla fila indiana, se eu puder dizer isso. É impossível ouvir a Marselhesa e pensar em sílfides, borboletas ou cisnes, como ocorre quando ouvimos o Lago do Cisne, do Offenbach ou a Barcarolle, do Saint Saens. Ou seria o contrário? Mais cartas esclarecedoras, por favor.
Pense naqueles primeiros e famosos versos do hino francês, que poderiam ser traduzido por “vamos lá, moçada”. Lá está a tropa pisando firme o solo pátrio lá deles e gorgeando:
Alonzan (pé esquerdo) fan (pé direito) de (p.e.) la (p.d.) pa (p. e.) triiii (p.d.).
Verdade que é difícil imaginar os franceses pisando neve nesse ritmo a caminho de Moscou. Talvez um moderato ma non troppo até que fosse bem nas circunstâncias. Ou uma Barcarolle, agora tendo ao piano Frédéric Chopin, comme il faut. Ou uma valsa vienense, sei lá.
Curiosamente, nem todos os hinos têm esse ar marcial, alguns mais parecendo cortejo fúnebre, o que contraria a palavra marcial, pois Marte é o Deus da Guerra, até onde me consta. Uma espécie assim de um George W. lá do Olimpo. Vejam, digo, ouçam o quase-hino norte-americano, naquele slow motion em que soldados levam o féretro até o sepulcro, com bandeira sobre o caixão, é claro. Refiro-me ao America, the Beautiful, de Katharine Lee Bates e Samuel Ward, que é, ao ver de muitos entendidos, mais bonito do que o outro, o hino oficial, tanto que o John F. Kennedy tentou oficializá-lo, sem êxito. O cortejo vem-se arrastando e lá pelas tantas temos aquele lamento doído (olha o acento no i, minha gente) que me arrepia sempre que o ouço:
América! América!
Para meu gosto musical, este é mais bonito do que o hino considerado oficialmente o oficial. Só não sei bem que tipo de sentimento ele deve despertar em quem o ouve. Vontade de lutar é que não deve ser. Esse grito de dor é mais adequado para recepcionar os soldados que voltam do Vietnã ou do Iraque do que para incentivar os soldados que estão partindo para despejar bombas nos guerrilheiros do Vietnã ou da Somália.
Temos aqui no Brasil uma reconhecida cópia da Marselhesa. Mudemos o tom: nosso hino é unanimemente considerado uma obra inspirada no hino francês. Assim ficou melhor e poupa meus lombos de novas chibatadas. Ou em composição do padre José Maurício, professor do autor oficial do hino, como dizem outros fofoqueiros. Se o Noel Rosa quase perpetrou um plágio do Hino Nacional Brasileiro, ao compor o seu Com que roupa?, por que nosso compositor, qual é mesmo o nome dele?, não poderia inspirar-se, para dizer o mínimo, no hino francês ao compor o nosso? Até a batida dos pés é a mesma:
Ou (pé esquerdo) viram (pé direito) doipi (p.e.) ran (p.d.) gasmargens (p.e.) plááá (p.d.) ci (p.e.) das (p.d.)
O problema dele é que, onze entre dez brasileiros não sabe cantá-lo com a confiança com que rezamos um Pai Nosso, por exemplo. Vem sempre aquela vozinha nos assoprando no ouvido: “Brasil um sonho intenso” é na primeira metade ou na segunda? E aquele “garrida”: quantos brasileiros sabem o que quer dizer isso? Mais cartas para a redação.
Faça o seguinte teste: consulte seus melhores amigos, os mais cultos, os mais preparados, os mais patriotas e faça um desafio. Peça a eles que descrevam, em palavras próprias, o que diz o nosso Hino Nacional. Fique só na primeira parte, para não desanimar o auditório. Se dissermos que “as águas plácidas do (riacho) do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico” fica parecendo DVD de ópera com close caption em português, é ou não é? “Quer dizer que aquele magnífico agudo da Kiri Te Kanawa em italiano significa apenas isso em português?” Ou então missa rezada em português. Você não entendia nada quando era em latim, ou quase nada, mas que era mais imponente, lá isso era. Tanto que o Joseph Campbell, católico na infância, compara a missa atual a um programa de televisão, em que o celebrante se parece com certa apresentadora de TV de um programa de culinária. O que lhe valeu tijoladas cristãs no lombo, aliás. Estamos aí, companheiro.
Não falo apenas dos hinos nacionais, que a lei brasileira dizia serem coisa sacra, tanto que não era possível fugir da partitura original, ouviu Fafá de Belém. Até que um compositor estrangeiro, que gostava tanto do Brasil que aqui morreu, Louis Moreau Gottschalk, resolveu ir além do que escrevera o Francisco Manoel da Silva, produzindo uma belíssima Grande Fantasia Triunfal, nele inspirado.
A propósito, o tal compositor, a julgar pelo nome, era francês ou alemão? Façam suas apostas. E percam, pois ele nasceu em New Orleans, Estados Unidos da América do Norte.
A parte instrumental da introdução do Hino Nacional Brasileiro possuía uma letra, que, felizmente, acabou excluída da sua versão oficial. Essa letra é atribuída a um tal Américo Moura, fosse lá quem fosse.
Eis a preciosidade:

Espera o Brasil
que todos cumprais
com o vosso dever.
Eia avante, brasileiros,
sempre avante!
Gravai a buril
nos pátrios anais
do vosso poder.
Eia avante, brasileiros,
sempre avante!
Servi o Brasil
sem esmorecer,
com ânimo audaz
cumpri o dever,
na guerra e na paz,
à sombra da lei,
a brisa gentil.
O lábaro erguei
fo belo Brasil.
Eia sus, oh sus!

Cruzes!

Sobre a obra

Há certas instituições que nos deixam perplexos.

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joe_brazuca
 

...adorei a "free version" da Vanuza, muito louca, que arabesqueou todo o hino, quase recorgitando calmante no microfone, e criou lá um contraponto que até o João Sebastião, mestre no estilo, se enchafurdaria em lágriams, tamanha perfeição...rs
Mas...ca pra nós : que hino dependendo da bagaça, acaba arrepiando, arrepia, né não ?...rsrs
imagina a Sarah Vaughan, viva estivesse, cantando o hino americano, à capela, com a tessitura maravilhosa que o Todo Poderoso lhe concedeu, na posse historica do Barak...Ja pensou ?...é de derreter iceberg....

muito bom, "seu" Adauto ! viva ouvirundum !

abs

joe_brazuca · São Paulo, SP 2/10/2009 20:11
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Cláudia Campello
 

prefiro do jetinho que é!
e cada patria tem o hino que merece........e cada povo
se arrepia, por certo, ao ouvi-lo.

bravo poeta

bjsssssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 2/10/2009 23:42
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Eldo Meira
 

Mestre. Já escutastes o hino nacional cantado pelo Guri de Uruguaiana, com letra do Nico Fagundes (Canto Alegretense)? Se não procures no Google que eu não sei como acionar esses tangs overmundianos.
Um abraço.

Eldo Meira · Carazinho, RS 3/10/2009 11:13
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Cleanto Farina Weidlich
 

Querido Mestre Adauto: Não importa que seja hino, canção, música, ou qualquer outra lorota, fã é fã, assim que o Roberto lota o Maracanã, e você sempre mantém lotado de alegria o meu coração.

Cleanto Farina Weidlich · Carazinho, RS 5/10/2009 11:52
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Cintia Thome
 

O hino deveria ser cantado todos os dias nas escolas, antes do início das aulas , como era e uma oração também. Quem sabe, além de aprender a honrar o País quando mais velhos, seriam mehores na humildade.
Rui Barbosa já dizia: Tenho Vergonha de mim...


ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 11/10/2009 14:36
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wam nick
 

Grande texto. Votado e deliciado com todo o meu cinismo patriótico.

wam nick · Recife, PE 26/10/2009 14:32
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Selma Santos
 

Você tm cada uma! Muito legal...

Selma Santos · Socorro, SP 17/11/2009 13:32
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