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História real: Uma cadeira condenada à morte

Cecília
1
Frazao my brother · Anastácio, MS
8/8/2007 · 44 · 8
 

O que resta da triste menina é a lembrança do seu pálido sorriso e dos seus grandes e suplicantes olhos, que insistem, de vez em quando, regar os meus.

Aquela menina-moça, curvada em sua cadeira de rodas, ainda consegue sorrir. É um sorriso cada vez mais esporádico, furtivo e eivado de dor, mas é a sua única arma com a qual tenta, quase que inutilmente, cooptar a sensibilidade do mundo, que gira perdido em rodas de felpudas cadeiras, de poder, de egoísmo, indiferença, avareza e falso altruísmo.

Eu sei da metamorfose daquele sorriso que está se apagando junto com ela. Quase sei o quanto vai durar. Sei que o destino lhe reservou esse sacrifício, mas vejo também que a solidariedade à sua volta se atrofia mais que ela, pois a dor da menina-moça vem sendo apenas apreciada pela multidão de olhos curiosos.

Sei, ainda, que muitos desses olhares inertes podem semear neste texto a pecha do oportunismo, própria da ignorância que os conduz. Porque são propensos a desconhecer a anuência dos personagens desta história real a quem empresto minha pouca e confidente lavra, como último apelo para salvar uma vida.

Neste momento, a literatura fala sério porque o imaginário não é páreo para a realidade, porque os monstros e quimeras invadiram o mundo real para sentir na pele o que somente os ossos ainda vivos daquela cadeira de rodas são capazes de traduzir. Para ouvir os gritos silenciosos da menina dos olhos da menina da cadeira.

Seria apenas uma triste história de ficção se não fosse real e cruel. Se a verve do escritor não fossem seus próprios olhos. Mas a verdade, leitores, é que, pela décima sexta vez, o Natal da jovem anastaciana Damires não será como o das outras pessoas. A sua esperança é terminal porque o mundo fingido, insensível, vê apenas uma cadeira condenada à morte, entre rodas de outras humildes e esquecidas cadeiras, enquanto o sorriso da menina-moça está morrendo de esperar pelo socorro médico que não vem e aonde sua cadeira de rodas não vai sozinha.

Vítima de meningite quando criança, Damires vive na juventude o pior estágio da doença neurológica que vem atrofiando seu corpo, esmagando-a de forma inexorável. O problema é que ela é pobre e seus direitos à saúde não proveram além de uma cadeira de rodas no antro miserável e repugnante do assistencialismo político que, covardemente, se alardeia misericordioso.

Parece-nos, às vezes, que a deformação física é o que menos preocupa Damires, que já se acostumou a rastejar e a depender dos cuidados carinhosos de sua mãe, com quem mora em um, também deficiente, casebre na periferia da cidade. As fortes dores na coluna frágil e vergada sobre pernas e braços murchos e imóveis e a dificuldade para respirar e alimentar-se a incomodam profundamente no seu progressivo sofrimento diário. Mas a dor maior, ainda, é a desesperança, alimentada pela omissão social e o descaso de quem tem o poder de encaminhá-la e de abrir as portas da casa de saúde especializada, que se apresenta como única salvação, a despeito de milagres que o Divino tem poupado à beça nesse mundo ímpio.

Damires já mendigou o que podia, já implorou o que devia, enfrentando a impassibilidade humana, a humilhação, a discriminação e a exclusão. Abatida no seu peregrinar, quase não fala, quase não olha, quase não sorri. A sua luta inglória já faz dezesseis anos e ela vê cada vez mais distante o seu sonho de um dia poder andar, aprender a ler e a escrever como as jovens de sua idade. A menina-moça com jeito de criança nem se importa tanto com os presentes tradicionais de Papai Noel. Ela só deseja que alguém da alta roda...
(Obs.: O último parágrafo não coube aqui. Leia no arquivo anexo)

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informações

Autoria
José Pedro Frazão
Ficha técnica
Poeta e romancista pantaneiro
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Frazao my brother
 

Continuação do texto acima, para quem não conseguir fazer o "download":
Ela só deseja que alguém da alta roda do poder saia da ficção e abrace de verdade a sua cadeira, abrindo-lhe o coração e as portas do Hospital Sarah Kubitschek, em Belo Horizonte.
Faz dezesseis anos que pessoas poderosas e insensíveis inclinam a cabeça apenas para olhar o sorriso rasteiro daquela cadeira. O resto eu não vou falar, porque o poeta Gabriel Garcia Marquez já nos antecipou quando disse: “um homem só tem o direito de olhar o outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”.

P.S.: Infelizmente, a cadeira de rodas que me visitou para solicitar esse apelo literário, não resistiu à dor da espera: ficou vazia logo após a publicação desse texto. E o que resta da triste menina é a lembrança do seu pálido sorriso e dos seus grandes e suplicantes olhos, que insistem, de vez em quando, regar os meus.

Frazao my brother · Anastácio, MS 6/8/2007 18:30
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PhiaSophia
 

Caramba, rapaz, isso me sensibilizou e lamento a sua dor. O aprendizado vem através, também, da literatura. Com pesar pelo sofrimento da garota eu o parabenizo pela coragem e sensibilidade.

PhiaSophia · Rio de Janeiro, RJ 6/8/2007 20:16
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Sérgio Franck
 

Cara, cara, meu brother Frazão. Têm coisas que nos fere. Mas Deus é pai, meu irmão. A dor só doi porque traz desafios consigo. às vezes ganhamos, outras vezes perdemos... desistir é algo que não combina com correrias.

Você cumpriu o seu papel, cara.

Forte abraço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 7/8/2007 12:30
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Andre Pessego
 

Prof., eu fiquei imaginando que palavras caberiam aqui. E não
as encontrei. Porque de que elas adiantariam. E, é isto Frazão,
mais nada - que não se saiba, abraços, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 9/8/2007 15:52
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Frazao my brother
 

Phia, Franck, André, amigos, obrigado pela solidariedade.
Relutei antes de republicar essa crônica que fiz à garota da cadeira mais triste que eu vi. Mas decidi fazê-lo, muito mais para alimentar a minha (e a nossa) eterna indignação com a desumanidade que nos cerca, porque existem muitas outras cadeiras que estão seguindo o mesmo trajeto de Damires.
Entendo mesmo que a literatura pode ser usada como uma arma de defesa social, pelo menos para tentarmos, além da arte pela arte, desarmar o espírito das pessoas contra a omissão e a segregação social.
abraços

Frazao my brother · Anastácio, MS 9/8/2007 16:10
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Benny Franklin
 

A dor deveria ser suprimida da face da terra. Exceto os beatos de plantão com suas redmoas de vidro e morte, acho que dor é sinônimo de pieguice. Não dá para suportá-la, impunemente, em nossa sociedade que se diz fraterna e divinal.
Abçs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 10/8/2007 07:40
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BETHA
 

FRAZAO,
sem palavras...
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 10/8/2007 08:41
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DecoraVip
 

Muito bacana a historia pela busca da Art e Design das cadeira somos Fabricante De Moveis 42 anos de Tradição Artificie Américo Neves mais de 6001 projtos executados em madeira de lei certificada pelo Dof e Fsc direto da fabrica.
VEJA MODELOS !!!!!!!!!!!!!!!!

www.americonevescadeiras.com.br
www.americoneves.com

DecoraVip · São Paulo, SP 8/4/2010 22:03
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