Lembro da portaria do prédio em que morei quando nasci. Morava muita gente lá. Não na portaria, é claro. Era um corredor que terminava num grande declive em forma de escada.
Um dia rolei dessa escada. Só ouvia os gritos, não os meus. Cheguei lá em baixo e vi algo no capacho que me lembrou hospital. Por um momento, achei que estava em um. Mas, não quebrei nada, talvez tenha feito um arranhão no braço. Saí ileso.
Às vezes, como nesses casos, penso que há um anjo por perto. O tal anjo da guarda, diria minha mãe ou o Paulo Coelho. Não sei se tem asas, não sei se precisa disso. Entendo apenas que, diversas vezes nestes meus anos de vida, me safei de situações de imenso risco graças a isso que chamo de anjo.
Na queda, lembro que rolei tão rápido e tão suavemente pelas escadas que não consigo entender como fiz isso. Minha impressão é a de que simplesmente me deixei cair, não resisti. Por isso, não me machuquei. Mas, é como se uma voz, alguém, te dissesse o que fazer.
Houve outras ocasiões, com hottweilers, por exemplo. A voz, houve realmente uma voz, me disse: olha pra cima, que tudo vai ficar bem. Eu obedeci. Não levei nem uma mordida.
Essa voz me disse uma vez, quando eu estava em Curitiba, em 1998, que entre um grupo de meninos e meninas que passava estava alguém que ainda seria muito importante na minha vida. Acabei casando – e casar, nesse caso, significa amar intensamente – com uma mulher curitibana, que bem tinha idade para estar naquele grupo. É uma pessoa muito importante na minha vida. Hoje, a mais importante.
Digo que hoje comecei a morrer porque acredito que somente começamos realmente a morrer quando começamos a lembrar. Só as lembranças nos matam. Se não tivéssemos memória, estaríamos na plenitude do presente. Seríamos eternos no nirvana da inconsciência.
Voce tem toda razão poeta.Lembranças muitas vezes nos tras a tona coisas que gostariamos que estivessem enterradas.Belo texto.Maressa Marins
Faça-me uma visita e deixe seis comentários - a ultima obra lembra seu "causo" é VIRÔANJU.bjcas.
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