Ela desce do elevador carregando uma sacola de plástico em cada mão. A bolsa à tiracolo, pensando em como vai pegar a chave. Já não é mais dia, e ainda não é noite. As velhas lâmpadas do corredor começam a impor sua luz suja sobre a luz do sol que ainda teima em entrar pelos vidros quebrados das pequenas janelas. Depois de se mexer um monte para achar a chave e abrir a porta, agora ela tem de fazer tudo ao contrario, para fechar a porta. E isto a deixa mais irritada ainda. Hoje, ontem, antes de ontem, antes de antes de ontem, semanas atrás, meses passados, anos. Para ser mais exato, para ser insuportavelmente exatos: 2 anos. Hoje, há 2 anos atrás, ela ocupava este apartamento, após desocupar um outro muito semelhante. Morando sozinha num pequeno apartamento, de segunda a sexta segue a rotina do trabalho, levantar as 07:00, tomar café, pegar o ônibus, sempre o mesmo ônibus. Quantos cobradores deste ônibus já conheceu? Quantos motoristas? Quanto inveja secreta ela já sentiu quando encontrava um novo cobrador, imaginando que o cobrador que não estava mais ali no seu lugar de sempre teve a coragem de mudar, de quebrar a rotina. Entrar no trabalho,o mesmo trabalho há anos, as 08:00. Sair as 18:00. Chegar em casa quase todo dia a mesma hora. Bem na verdade, hoje ela chegou em casa um pouco mais tarde, pois é quarta-feira, dia de passar no supermercado. E ela se sente ainda mais deprimida devido a isso, pois a quarta-feira deixa claro que mais uma semana se passou, e nada mudou. Ela pensa que sua vida é tão monótona que ir ao supermercado é um acontecimento, esperado com certa ansiedade. Agora ela irá ate a geladeira guardar o que comprou, depois talvez vá tomar um banho, lavar algumas roupas, fazer alguma coisa para comer, depois ver televisão, depois dormir. Bem isso é o que ela faz normalmente, todo dia. Mas não hoje. Hoje após fechar a porta, antes de acender a luz da sala, ela ficou pensativa, parada, olhando o vazio sem querer ver nada. E então, lentamente, desabou no chão. Não sabia se ajoelhava, se deitava. Simplesmente se soltou, e deixou a lei da gravidade cuidar do resto. Agora, como um monte amorfo, entre as sacolas do supermercado, chorando baixinho, comemora seu aniversario. Sozinha.
Um micro-conto, contando um dia 'especial' na vida anonima de alguem.
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Que minha boca não diga
um ótimo texto o seu, ele mostra a solidão em que muitos de nós vivemos quando tornamos a nossa vida uma rotina constante em que acontecimentos se repetem constantemente. Ele mostra o quanto em cidades grandes mesmo arrodeados por muitas pessoas podemos nos sentir muito sós. Ótimo texto votado
Robson Coelho · Trindade, PE 23/1/2009 11:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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