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HOJE PLANTOU-SE UM MILAGRE
Brida · Salvador (BA) · 12/8/2008 18:08 · 101 votos · 17 comentários ·  
1
overponto

Hoje plantou-se um milagre

no vale, até então, sem vida

não fosse a humana lida,

por bela e intensa fosse

e seja e é.



Na azáfama de um dia grave

e cruel e desafortunado

pelas horas imensas

da ausência de qualquer

mínima possibilidade

de construção,

o Arquiteto, corpo vazio

acorda

com um tropel incomensurável



Um Engenheiro é chegado,

juveníssimo e belo,

e examina seu projeto,

com avidez espantosa.



Logo, vê o Construtor

a percorrer os jardins internos

do vale.


Soberbo e inteiro,

extasia-se com os planos

do Arquiteto

e o adora, de joelhos.



Abre os folhos um a um,

suas mãos tremem

seus olhos se fecham

sua boca infantil se entreabre,

em ofego e espasmo.


Aproxima mais o rosto

daquela imagem que já venera,

e, então, se transfigura.


Bicho,

rosna, morde, arranha,

empurra com a cabeça,

novilhinho recém-nascido

mamando como louco

nas tetas da vaca sagrada

que abre todo o compasso

e deixa ele fazer o resto,

mugindo suave.



Ele empurra a vaca para o pasto

e alça suas ancas com cordas,

amarra-as nas traves do curral

mantendo-as à altura de seu rosto

e começa um ritual de fases múltiplas,

seja com mãos, seja com boca.

seja com variados objetos -

todos trazidos em sua bagagem,

preciosos, escolhidos a dedo,

cada qual com sua função

e cada qual mais especializado.



Trata-se mesmo de um perito.

E a vaca muge alto, então,

muge, muge, muge, muge!

Muge por muito tempo,

até que se revira nas cordas

e baba a baba santa,

fertilizando o solo.

Seu ventre espástico

busca o sossego,

anseia pela luz plena,

todo o corpo a tremer

durante um tempo desmedido.



Depois, o Arquiteto entende.

Ele é agora uma mulher e uma vaca.

São tarefas do tempo no templo

do corpo, as oferendas,

esse esplendor do desejo e da entrega.



Há-de ter toda a coragem,

abaixar a cabeça até o chão,

lamber o pó dos pés do macho,

rastejar para que ele a esmague,

muito, com ambos os pés,

de costas e de frente,

e a esprema muito, com as mãos.



Mas há-de haver prazer

nesse esmagamento, a mulher

terá de sentir muitas dores,

mas de gozar muito com elas.

Gozar como louca, enlouquecer

de tanto gozo.

Loucura santa, loucura imortal.

E isso é responsabilidade

de seu macho.



Pois houve a Queda,

e a Serpente, e foi Eva

a primeira a oferecer o fruto

ao desprevenido Adão no Paraíso.

(depois viria a Imaculada, esmagar

a Fera e redimir a mulher reptilizada).



E há o tempo e a história

a ser cumprida, antes da Revelação.

Pois mesmo Abraão,

o Pai, o líder de muitos,

da linhagem de Sem,

marido de Sarah

não ofereceu o próprio filho

de coito febril,

aos noventa e nove anos,

em holocausto?



Isaac levava a lenha

sobre a qual seria

morto e queimado.

“Eis o fogo e a lenha

onde está o cordeiro

para o holocausto, Pai?”.

“Deus proverá para si, meu filho,

o cordeiro para o holocausto.”.



Viria o outro, o Filho de Deus,

O nosso irmão e pai e amigo e filho

E esposo e salvador e redentor

E Caminho e Verdade e Vida,

Jesus, o Cristo.



Ruth, avó de David,

vestida de branco,

untada de óleos oloríficos,

com os longos cabelos

nora de Noemi de Belém,

uma estrangeira,

a penetrar em território inimigo

se deitou com Booz,

teve uma noite a que poucas,

muito poucas prostitutas se sujeitariam,

de tão sórdida e devassa -

para salvar seu povo.



Há-de se manter a leitura apropriada

da construção harmoniosa

da intriga com um todo:

o seu suspense rumo ao epílogo infinito.

As matriarcas do Gênesis

eram vacas fecundas,

deixam-se coitar continuadamente

tudo faziam pelo desejo dos seus homens

e gargalhavam nas ruas como loucas,

as saias levantadas, sempre,



para encontrar o êxtase pleno

da alma, da face rutilante de Deus.



O arquiteto sabia.

Então,

faz o Construtor deitar-se.



O menino está transtornado,

parece exausto,

Beijando a sua fronte,

O Arquiteto

continua o trabalho sozinho,

com dedicação nunca vista,

mãos sedosas e certeiras.



Enfia a cabeça na bifurcação

que leva à viga mestra

com seus dois gonzos.

Molha-os completamente

com sua própria saliva.

Afasta com a mão a película

que recobre a viga.

Desce-a até o possível.

Mira-a e a suga, enquanto

com a mão dobra e desdobra

desdobra e dobra o que pode

o que pede e o que pode,

o que já pede o Construtor,

já descansado

em andamento lento, logo

andantino, logo moderato.

Cada vez mais Ele comanda

a obra. Arrogantemente.





Mais rápido, cada vez mais,

afinal, aos berros,

se mexendo muito, muito mesmo,

batendo com o malho na cara do Arquiteto

que sorri pega a viga mestra de novo,

na labuta, escaliçando os resíduos

furiosamente, agora,

porque assim o pede o Engenheiro,

pensando nas sinfonias e nos maestros

que abriga dentro do seu peito,



no eito, no leito, no tapete,

no chão, na janela, na parede,

na porta,



e o Arquiteto abocanha os gonzos

para lubrificá-los bem, enche a boca,

e retirando-os, passa a língua

na parte inferior e a leva até mais longe,

mais longe, mais longe, até cair em um buraco

profundo onde a língua se retorce

e o Engenheiro grita:

mais! mais! mais! Mais!

(Como ele grita alto e se mexe!).



Se remexe tanto

que derruba o Arquiteto

no chão e voa em cima dele,

se esfregando como louco

em todo o corpo

e atingindo a cara,

onde faz verdadeiro carnaval

não só se esfregando,

mas pulando, batendo,

em mexeção acelerada

para um lado e para o outro,

para frente e para trás,

girando como um liquidificador

(que velocidade impressionante aquela!)

tomando como centro

o nariz do Arquiteto,

pernas enrodilhadas

em volta do rosto e pescoço,

de modo a não permitir

que o Arquiteto escapasse

(coisa de criancinha boba,

o Arquiteto se comprazia

com toda aquela mexeção).



E a mão do Arquiteto

não interrompe

sua incessante lida,

usando a mão para fazer

muitas outras coisas:

ou lixa a viga

em todas as direções, levando

a película protetora até a ponta

ou mete o dedo na cova e o agita bem

ou sobe ambas as mãos molhadas de saliva

até os mamilos e os torce e retorce

ao sabor das ordens do Engenheiro

ou atinge a boca e ali enfia a mão

que o engenheiro chupa e mordisca

com um ruído de tapa em passos

em lama fresca e solta

ou vai até as orelhas e mete os dedos

agitando-os nos orifícios úmidos de suor

ou, com as unhas percorrer o tronco

em todas as direções, frente e dorso

e muito, muito mais,

enquanto o Engenheiro ainda ordena:

mais, mais, mais, mais!



Então, percebe outro desejo

do Engenheiro e pára.



E o Engenheiro se põe de pé.

E dá a viga para o Arquiteto lixar

com a boca, mas o empurra no chão,

de joelhos.

E, ali, dentro da sua boca,

faz uma festa!

Dança, dança, dança,

já quase se modera e cala,

pulsando e gemendo em alegrete

Cada vez mais rápido e a fricção

é tão forte que assa os cantos da boca

do Arquiteto,

que se queixa um pouquinho.



Aos urros, o Engenheiro retira a viga,

e com um riso de deleite libertino,

com um sorriso herege, saduceu,

escandaliza a fé do Arquiteto –



cuja crença nos anjos não se abala,

nem na ressurreição dos mortos,

nem na providência divina,

pois vive, ali,

um ritual de purificação, por isso

tudo inventa e aceita e perpetra e

nisso faz seu “Fiat” –



toma da mangueira e dá um banho

no Arquiteto, tão suado do trabalho,

e o rega dos pés à cabeça,

sacudindo a mangueira com força,

mirando a cara, os cabelos,

o corpo todo do Arquiteto.



Corpo já amanhado

pela bestialidade pura

do Engenheiro

em sua construção.



Não demora muito,

o jovem perito,

fisicocultor

finca a viga mestra

num só arremesso gigante

na estreita cova ardente

de gêiseres insuspeitados,

corpo do Arquiteto

vaca sagrada de pernas

abertas e levantadas até a cabeça.



Ali, ali mesmo,

naquele instante e hora,

o cotidiano se faz

antologia de sussurros,

corrigindo os soçobros

de mãos estrangeiras,



Ali, irrompeu uma florescência

verde, um broto

rico em açúcar,

a polpa invaginada,

a abrasar-se fresca



e virgem de qualquer toque,

sapoti dulcificado ainda mais,

pendendo da fronde

até então elevada,

entre sombras.



O látex do tronco

já se via na rama desbordando,

matéria prima,



e o aroma e o sabor

de jovem prostituta

em primeira noite.



Diz-se, e crê o Arquiteto,

que, crescida, seu porte

surpreende em copa e sombra

e agasalho,



alegria de parques e jardins

para o infinito semeados

além da polpa doce,

além do atrito feroz



do aríete nos ares virgíneos

do Arquiteto,

Orfeu metamórfico sonhando

com outro Orfeu,

seu gêmeo e seu gênio,

o Engenheiro das Horas

submersas no tempo.

no amargurar,



até o instante da visão,

quando o Engenheiro,

sem sua régua de cálculo,

o tomou, comeu todo, degustou

e viu que era bom

e, assim, perpetuou o gesto

ao infinito.


sobre a obra
"Um Engenheiro é chegado,

juveníssimo e belo,

e examina seu projeto,

com avidez espantosa".


tags: Salvador BA poesia voz mulher cantico amor sexo bestial ritual acasalamento violencia corpo redimido
 
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irretocável!

belo, corajoso...

falta fôlego para falar desta obra!
Renato de Mattos Motta · Porto Alegre (RS) · 10/8/2008 18:17 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Perfeito !...pelo seu óbvio e mínimo...
"...falta fôlego para falar desta obra!..." (Renato de Mattos Motta)

verdadeira psicografia !
A poetisa foi apossada...Por espiritos da Roma das bacanais...Que PRECISAM expurgar de suas exsitências eternas, as orgias do esponsais de Baco e Afrodite, às avessas...

bj
Joe
( essa foi de lascar , hein, poetisa !!!...rsrsrs)
joe_brazuca · São Paulo (SP) · 11/8/2008 14:41 
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Renato, sua generosidade é imensa. Devo esclarecer que este é o poema de abertura do livro cujo 1o. título provisório foi "Estudos de Geometria Espacial", para modilizar o modus operandi desde uma ótica euclidiana. Em seguida foi batizado de "Cantiga" e assim está. Estou aberta às sugestões.
Beijo.
Brida · Salvador (BA) · 11/8/2008 14:57 
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Joe, tem razão, é o que parece. Já falamos de possesão. À noite, há dias de visita... Ultimamente foram o Jorge de Lima, O Fernandinho, O Luizinhinho, tadinho, sempre ceguinho de um oho. Agora essa voz pagã mesclada ao teísmo e, ainda mais, ao Xto.
Aquina Bahia, é "baixou o santo". Esse aí acho que é uma Pomba-Gira redimida.
Beijinho, meu lindo
Brida · Salvador (BA) · 11/8/2008 15:14 
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so faltou o "esprítu" do João Cabral de M.N....dái completava o gancho todo...rs..."é a parte que te cabe desse latifundio na pedra que é a pedra...da pedra"..rs
beijo...de qq forma, pomba-gira, exú ou não, é uma obra extraordinária...
Joe
joe_brazuca · São Paulo (SP) · 11/8/2008 16:27 
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Uau! Inspiração pura! Uma obra maravilhosa, menina! E eu com a minha voz! É um privilégio abrir a votação. Beijos, menina!
Lena Girard · Belém (PA) · 12/8/2008 00:25 
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Joe Brazuca quase infantil falando em esponsais, palavra certa não há pra essa... coisa !
Um beijo, Querida !
alcanu · São Paulo (SP) · 12/8/2008 01:21 
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Joe... gancho, né? rsrsrsrsrs... você é um danado!
Tem razão, sim, seria preciso selar com a pedra o pacto. Não deve faltar muito. Cabral aponta para a mineralidade arrulhante da fêmea, pedra em chama e vôo e eu te envio um beijo.

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sobre seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse.



Brida · Salvador (BA) · 12/8/2008 11:55 
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Lena, obrigada. Uma honra para mim você abrir a votação.
Beijinho carinhoso
Brida · Salvador (BA) · 12/8/2008 12:06 
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Alcanu e sua sensibilidade de gigante, o seu terno caminhar, sua linda arte.
Obrigada por entender, querido.
Beijo e beijo.
Brida · Salvador (BA) · 12/8/2008 12:08 
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Brida,

Interessate seu poema
parece um choque entre o Santo e o profano.
bjssssss
Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 12/8/2008 13:07 
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bela poesia.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 12/8/2008 13:24 
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Bah! Que profusão hein guria! Muito Bom!!!!!!!!
Somente quem já sentiu a emoção de uma entrega, queimando-se na febre do desejo envolto de um tanto querer e de um todo medo, bem entende a entrega em sacrifício num profano-sacro delírio de amor...
Saudações Cordiais,
Paulo Maciel.

Dubem · Salvador (BA) · 13/8/2008 00:29 
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Pois é. S
São assim os poetas.
Obrigada, viu Paulo?
Enviei um email para sua caixa de entrada aqui.
Beijo, querido
Brida · Salvador (BA) · 13/8/2008 12:26 
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Trabalho questionativo, discursivo e enigmático. Excelente quando o escritor traça uma linha de conhecimento e desenvolve o trabalho dentro de um pontencial riquíssimo e deixa a possibilidade de compreensão para todos.amei.
Ecila Yleus · Recife (PE) · 14/8/2008 13:49 
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Nossa,quanta inspiraçao menina
Muito bom memso,adorando te ler
beijos e nem precisa mas to votando
Ailuj · Niterói (RJ) · 18/8/2008 00:04 
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Doroni, sim, você percebe. Creio que a santidade, neste poema, nasce do profano. Beijo.
Ecila, entre outras coisas, você chama a atenção para o discursivo. Com razão. Ao contrário da marca de contenção de minha poesia lírica, este livro (é um livro, e aqui está apenas o poema 1.) é retórico ao extremo. Aproxima-se do conto. Obrigada, querida.
Ailuj-Julinha, que bom você ter gostado. Beijinho
Brida · Salvador (BA) · 18/8/2008 17:37 
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