Hoje plantou-se um milagre
no vale, até então, sem vida
não fosse a humana lida,
por bela e intensa fosse
e seja e é.
Na azáfama de um dia grave
e cruel e desafortunado
pelas horas imensas
da ausência de qualquer
mÃnima possibilidade
de construção,
o Arquiteto, corpo vazio
acorda
com um tropel incomensurável
Um Engenheiro é chegado,
juvenÃssimo e belo,
e examina seu projeto,
com avidez espantosa.
Logo, vê o Construtor
a percorrer os jardins internos
do vale.
Soberbo e inteiro,
extasia-se com os planos
do Arquiteto
e o adora, de joelhos.
Abre os folhos um a um,
suas mãos tremem
seus olhos se fecham
sua boca infantil se entreabre,
em ofego e espasmo.
Aproxima mais o rosto
daquela imagem que já venera,
e, então, se transfigura.
Bicho,
rosna, morde, arranha,
empurra com a cabeça,
novilhinho recém-nascido
mamando como louco
nas tetas da vaca sagrada
que abre todo o compasso
e deixa ele fazer o resto,
mugindo suave.
Ele empurra a vaca para o pasto
e alça suas ancas com cordas,
amarra-as nas traves do curral
mantendo-as à altura de seu rosto
e começa um ritual de fases múltiplas,
seja com mãos, seja com boca.
seja com variados objetos -
todos trazidos em sua bagagem,
preciosos, escolhidos a dedo,
cada qual com sua função
e cada qual mais especializado.
Trata-se mesmo de um perito.
E a vaca muge alto, então,
muge, muge, muge, muge!
Muge por muito tempo,
até que se revira nas cordas
e baba a baba santa,
fertilizando o solo.
Seu ventre espástico
busca o sossego,
anseia pela luz plena,
todo o corpo a tremer
durante um tempo desmedido.
Depois, o Arquiteto entende.
Ele é agora uma mulher e uma vaca.
São tarefas do tempo no templo
do corpo, as oferendas,
esse esplendor do desejo e da entrega.
Há-de ter toda a coragem,
abaixar a cabeça até o chão,
lamber o pó dos pés do macho,
rastejar para que ele a esmague,
muito, com ambos os pés,
de costas e de frente,
e a esprema muito, com as mãos.
Mas há-de haver prazer
nesse esmagamento, a mulher
terá de sentir muitas dores,
mas de gozar muito com elas.
Gozar como louca, enlouquecer
de tanto gozo.
Loucura santa, loucura imortal.
E isso é responsabilidade
de seu macho.
Pois houve a Queda,
e a Serpente, e foi Eva
a primeira a oferecer o fruto
ao desprevenido Adão no ParaÃso.
(depois viria a Imaculada, esmagar
a Fera e redimir a mulher reptilizada).
E há o tempo e a história
a ser cumprida, antes da Revelação.
Pois mesmo Abraão,
o Pai, o lÃder de muitos,
da linhagem de Sem,
marido de Sarah
não ofereceu o próprio filho
de coito febril,
aos noventa e nove anos,
em holocausto?
Isaac levava a lenha
sobre a qual seria
morto e queimado.
“Eis o fogo e a lenha
onde está o cordeiro
para o holocausto, Pai?â€.
“Deus proverá para si, meu filho,
o cordeiro para o holocausto.â€.
Viria o outro, o Filho de Deus,
O nosso irmão e pai e amigo e filho
E esposo e salvador e redentor
E Caminho e Verdade e Vida,
Jesus, o Cristo.
Ruth, avó de David,
vestida de branco,
untada de óleos olorÃficos,
com os longos cabelos
nora de Noemi de Belém,
uma estrangeira,
a penetrar em território inimigo
se deitou com Booz,
teve uma noite a que poucas,
muito poucas prostitutas se sujeitariam,
de tão sórdida e devassa -
para salvar seu povo.
Há-de se manter a leitura apropriada
da construção harmoniosa
da intriga com um todo:
o seu suspense rumo ao epÃlogo infinito.
As matriarcas do Gênesis
eram vacas fecundas,
deixam-se coitar continuadamente
tudo faziam pelo desejo dos seus homens
e gargalhavam nas ruas como loucas,
as saias levantadas, sempre,
para encontrar o êxtase pleno
da alma, da face rutilante de Deus.
O arquiteto sabia.
Então,
faz o Construtor deitar-se.
O menino está transtornado,
parece exausto,
Beijando a sua fronte,
O Arquiteto
continua o trabalho sozinho,
com dedicação nunca vista,
mãos sedosas e certeiras.
Enfia a cabeça na bifurcação
que leva à viga mestra
com seus dois gonzos.
Molha-os completamente
com sua própria saliva.
Afasta com a mão a pelÃcula
que recobre a viga.
Desce-a até o possÃvel.
Mira-a e a suga, enquanto
com a mão dobra e desdobra
desdobra e dobra o que pode
o que pede e o que pode,
o que já pede o Construtor,
já descansado
em andamento lento, logo
andantino, logo moderato.
Cada vez mais Ele comanda
a obra. Arrogantemente.
Mais rápido, cada vez mais,
afinal, aos berros,
se mexendo muito, muito mesmo,
batendo com o malho na cara do Arquiteto
que sorri pega a viga mestra de novo,
na labuta, escaliçando os resÃduos
furiosamente, agora,
porque assim o pede o Engenheiro,
pensando nas sinfonias e nos maestros
que abriga dentro do seu peito,
no eito, no leito, no tapete,
no chão, na janela, na parede,
na porta,
e o Arquiteto abocanha os gonzos
para lubrificá-los bem, enche a boca,
e retirando-os, passa a lÃngua
na parte inferior e a leva até mais longe,
mais longe, mais longe, até cair em um buraco
profundo onde a lÃngua se retorce
e o Engenheiro grita:
mais! mais! mais! Mais!
(Como ele grita alto e se mexe!).
Se remexe tanto
que derruba o Arquiteto
no chão e voa em cima dele,
se esfregando como louco
em todo o corpo
e atingindo a cara,
onde faz verdadeiro carnaval
não só se esfregando,
mas pulando, batendo,
em mexeção acelerada
para um lado e para o outro,
para frente e para trás,
girando como um liquidificador
(que velocidade impressionante aquela!)
tomando como centro
o nariz do Arquiteto,
pernas enrodilhadas
em volta do rosto e pescoço,
de modo a não permitir
que o Arquiteto escapasse
(coisa de criancinha boba,
o Arquiteto se comprazia
com toda aquela mexeção).
E a mão do Arquiteto
não interrompe
sua incessante lida,
usando a mão para fazer
muitas outras coisas:
ou lixa a viga
em todas as direções, levando
a pelÃcula protetora até a ponta
ou mete o dedo na cova e o agita bem
ou sobe ambas as mãos molhadas de saliva
até os mamilos e os torce e retorce
ao sabor das ordens do Engenheiro
ou atinge a boca e ali enfia a mão
que o engenheiro chupa e mordisca
com um ruÃdo de tapa em passos
em lama fresca e solta
ou vai até as orelhas e mete os dedos
agitando-os nos orifÃcios úmidos de suor
ou, com as unhas percorrer o tronco
em todas as direções, frente e dorso
e muito, muito mais,
enquanto o Engenheiro ainda ordena:
mais, mais, mais, mais!
Então, percebe outro desejo
do Engenheiro e pára.
E o Engenheiro se põe de pé.
E dá a viga para o Arquiteto lixar
com a boca, mas o empurra no chão,
de joelhos.
E, ali, dentro da sua boca,
faz uma festa!
Dança, dança, dança,
já quase se modera e cala,
pulsando e gemendo em alegrete
Cada vez mais rápido e a fricção
é tão forte que assa os cantos da boca
do Arquiteto,
que se queixa um pouquinho.
Aos urros, o Engenheiro retira a viga,
e com um riso de deleite libertino,
com um sorriso herege, saduceu,
escandaliza a fé do Arquiteto –
cuja crença nos anjos não se abala,
nem na ressurreição dos mortos,
nem na providência divina,
pois vive, ali,
um ritual de purificação, por isso
tudo inventa e aceita e perpetra e
nisso faz seu “Fiat†–
toma da mangueira e dá um banho
no Arquiteto, tão suado do trabalho,
e o rega dos pés à cabeça,
sacudindo a mangueira com força,
mirando a cara, os cabelos,
o corpo todo do Arquiteto.
Corpo já amanhado
pela bestialidade pura
do Engenheiro
em sua construção.
Não demora muito,
o jovem perito,
fisicocultor
finca a viga mestra
num só arremesso gigante
na estreita cova ardente
de gêiseres insuspeitados,
corpo do Arquiteto
vaca sagrada de pernas
abertas e levantadas até a cabeça.
Ali, ali mesmo,
naquele instante e hora,
o cotidiano se faz
antologia de sussurros,
corrigindo os soçobros
de mãos estrangeiras,
Ali, irrompeu uma florescência
verde, um broto
rico em açúcar,
a polpa invaginada,
a abrasar-se fresca
e virgem de qualquer toque,
sapoti dulcificado ainda mais,
pendendo da fronde
até então elevada,
entre sombras.
O látex do tronco
já se via na rama desbordando,
matéria prima,
e o aroma e o sabor
de jovem prostituta
em primeira noite.
Diz-se, e crê o Arquiteto,
que, crescida, seu porte
surpreende em copa e sombra
e agasalho,
alegria de parques e jardins
para o infinito semeados
além da polpa doce,
além do atrito feroz
do arÃete nos ares virgÃneos
do Arquiteto,
Orfeu metamórfico sonhando
com outro Orfeu,
seu gêmeo e seu gênio,
o Engenheiro das Horas
submersas no tempo.
no amargurar,
até o instante da visão,
quando o Engenheiro,
sem sua régua de cálculo,
o tomou, comeu todo, degustou
e viu que era bom
e, assim, perpetuou o gesto
ao infinito.
"Um Engenheiro é chegado,
juvenÃssimo e belo,
e examina seu projeto,
com avidez espantosa".
irretocável!
belo, corajoso...
falta fôlego para falar desta obra!
Perfeito !...pelo seu óbvio e mÃnimo...
"...falta fôlego para falar desta obra!..." (Renato de Mattos Motta)
verdadeira psicografia !
A poetisa foi apossada...Por espiritos da Roma das bacanais...Que PRECISAM expurgar de suas exsitências eternas, as orgias do esponsais de Baco e Afrodite, às avessas...
bj
Joe
( essa foi de lascar , hein, poetisa !!!...rsrsrs)
Renato, sua generosidade é imensa. Devo esclarecer que este é o poema de abertura do livro cujo 1o. tÃtulo provisório foi "Estudos de Geometria Espacial", para modilizar o modus operandi desde uma ótica euclidiana. Em seguida foi batizado de "Cantiga" e assim está. Estou aberta à s sugestões.
Beijo.
Joe, tem razão, é o que parece. Já falamos de possesão. À noite, há dias de visita... Ultimamente foram o Jorge de Lima, O Fernandinho, O Luizinhinho, tadinho, sempre ceguinho de um oho. Agora essa voz pagã mesclada ao teÃsmo e, ainda mais, ao Xto.
Aquina Bahia, é "baixou o santo". Esse aà acho que é uma Pomba-Gira redimida.
Beijinho, meu lindo
so faltou o "esprÃtu" do João Cabral de M.N....dái completava o gancho todo...rs..."é a parte que te cabe desse latifundio na pedra que é a pedra...da pedra"..rs
beijo...de qq forma, pomba-gira, exú ou não, é uma obra extraordinária...
Joe
Uau! Inspiração pura! Uma obra maravilhosa, menina! E eu com a minha voz! É um privilégio abrir a votação. Beijos, menina!
Lena Girard · Belém, PA 12/8/2008 00:25
Joe Brazuca quase infantil falando em esponsais, palavra certa não há pra essa... coisa !
Um beijo, Querida !
Joe... gancho, né? rsrsrsrsrs... você é um danado!
Tem razão, sim, seria preciso selar com a pedra o pacto. Não deve faltar muito. Cabral aponta para a mineralidade arrulhante da fêmea, pedra em chama e vôo e eu te envio um beijo.
Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sobre seus cabelos.
(A visita espera na sala;
a notÃcia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse.
Lena, obrigada. Uma honra para mim você abrir a votação.
Beijinho carinhoso
Alcanu e sua sensibilidade de gigante, o seu terno caminhar, sua linda arte.
Obrigada por entender, querido.
Beijo e beijo.
Brida,
Interessate seu poema
parece um choque entre o Santo e o profano.
bjssssss
Bah! Que profusão hein guria! Muito Bom!!!!!!!!
Somente quem já sentiu a emoção de uma entrega, queimando-se na febre do desejo envolto de um tanto querer e de um todo medo, bem entende a entrega em sacrifÃcio num profano-sacro delÃrio de amor...
Saudações Cordiais,
Paulo Maciel.
Pois é. S
São assim os poetas.
Obrigada, viu Paulo?
Enviei um email para sua caixa de entrada aqui.
Beijo, querido
Trabalho questionativo, discursivo e enigmático. Excelente quando o escritor traça uma linha de conhecimento e desenvolve o trabalho dentro de um pontencial riquÃssimo e deixa a possibilidade de compreensão para todos.amei.
Ecila Yleus · Recife, PE 14/8/2008 13:49
Nossa,quanta inspiraçao menina
Muito bom memso,adorando te ler
beijos e nem precisa mas to votando
Doroni, sim, você percebe. Creio que a santidade, neste poema, nasce do profano. Beijo.
Ecila, entre outras coisas, você chama a atenção para o discursivo. Com razão. Ao contrário da marca de contenção de minha poesia lÃrica, este livro (é um livro, e aqui está apenas o poema 1.) é retórico ao extremo. Aproxima-se do conto. Obrigada, querida.
Ailuj-Julinha, que bom você ter gostado. Beijinho
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