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I - Tremaría (Suméria)

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Bruxinhachellot · Nova Iguaçu, RJ
17/7/2008 · 87 · 9
 

Tremaria é uma cidade portuária que recebe diariamente visitantes, comerciantes e trabalhadores vindos de diversas partes do continente sumeriano, das ilhas próximas e de outras terras que vêem na cidade um meio de vida lucrativo e encontram diversões sem igual em qualquer lugar do Mundo Conhecido.
O Porto das Gaivotas fervilhava na manhã ensolarada do quarto dia do Solário, período que predomina o clima quente e úmido. O forte odor de maresia, misturado ao suor e ao cheiro de especiarias dominava o porto. Pescadores traziam para a terra caixas de pescados e mercadores desembarcavam seus produtos importados como tecidos, alimentos e ferramentas em geral. Alguns homens, nitidamente piratas registrados, carregavam baús contendo ouro e armas.
Uma enorme muralha de pedra circundava a cidade, uma antiga proteção contra invasores e inundações. No lado leste via-se um aglomerado de pessoas formando um círculo fechado em torno de uma estrutura monumental: uma pedra redonda e lisa de cerca de cinco metros de altura. O que mais atraía a atenção dos homens e das crianças era um homem, visivelmente um guerreiro, erguendo um enorme machado. A pancada foi ouvida há vários metros de distância e o som de estilhaços ribombou pelo ar. O olhar admirado dos observadores notou que os milhares de cacos espalhados pelo chão pertenciam ao machado e não a pedra, que por sua vez continuava ilesa como sempre esteve, desde que apareceu misteriosamente na cidade do porto. A fisionomia do guerreiro era de pura frustração. As moedas passavam de mãos em mãos, pois sempre que alguém tentava quebrar a pedra as apostas sobre quem sairia vencedor, pedra ou homem, rolavam livremente pelo porto.
De frente para a Grande Pedra, uma taverna, também de pedra, acolhia os viajantes e qualquer um que desejasse uma boa comida, bebida gelada e um canto para dormir.
O som de canecos de barro sendo enchidos ressoava na taverna entupida de frequentadores dos mais variados tipos e condições sociais. Encontrar uma mesa vazia era impossível aquela hora da noite. A taverna, que fazia vezes de hospedaria, era toda de pedra retirada da Montanha dos Anões, no lado oeste de Suméria, inclusive as mesas e bancos. O local era iluminado por lamparinas à querosene e tochas. Numa mesa à direita, um ruidoso grupo de mercadores discutia produtos, preços e negociavam suas dívidas. Noutra mesa à esquerda quatro pescadores jogavam cartas. Suas vozes alteravam-se a todo momento e, não era incomum que houvesse xingamentos e agressões entre eles. Expressões nada sutis eram cuspidas no ar para quem quisesse ouvir. À frente, ficava o balcão onde um homem marcado por algumas cicatrizes no rosto e nos braços, enchia os canecos com um líquido dourado. Num canto acima do balcão, um gato de pelagem escura dormia impassível a balbúrdia que dominava a taverna. Numa mesa ao fundo, cinco hóspedes conversavam enquanto lhes era servido hidromel e coelho assado na brasa. Um deles, de aparência nada convencional, chamou o servente e lhe fez um estranho pedido.
- Você têm carne de cachorro? Venho há muito tempo desejando provar essa iguaria. E aí têm? - perguntou Dovan, um rapaz jovem usando um manto de couro escuro por cima de um corselete também de couro. Seus olhos eram azuis como o firmamento e os cabelos compridos tinham um tom prateado jamais visto por aquelas bandas.
- O senhor disse carne de ca-cachorro? - perguntou o homem espantado. - Não senhor. Aqui só temos coelho, cabra, veado e carne do mar.
- Quer dizer que não tem carne de cachorro? Que taverna é essa afinal? - reclamou Dovan desapontado.
- Não assuste o pobre homem Dovan. - disse Jocelyn, uma bela moça de cabelos castanhos e olhos cor de avelã, trajada com uma túnica verde folha. Encostado a seus pés, um alaúde , um instrumento de cordas em forma de gota.
- Senhor, se não tem carne de cachorro pode servir carne de gato mesmo. Aquele alí parece apetitoso. - comentou Jocelyn apontando para o felino no canto do balcão, que como sentisse o perigo no ar seus pêlos se eriçaram de medo.
- Aquele gato pertence ao dono da taverna e eles são muito chegados. Se os senhores desejarem posso trazer o veado agora. - informou o servente e, após o consentimento dos outros ocupantes da mesa, voltou para a cozinha e de lá não saiu mais até que a taverna estivesse fechada.
- Vocês deviam parar com essa brincadeira. O nosso propósito não é comer carne de cachorro ou de gato e sim arrumarmos um serviço. Nossas moedas estão rareando e não tenho a intenção de roubar ou mendigar comida. - disse Kági, visivelmente um guerreiro obstinado.
- O que há de errado em roubar para comer? - perguntou Sáfio Liso meio que ofendido com o comentário do amigo. Sáfio era um rapaz magro e dono de um olhar atento e sagaz. Vestia uma roupa cheia de bolsos e pequenas sacolas penduradas na cintura e usava um corselete formado por dezenas de chaves dos mais variados tipos e tamanhos.
- Eu concordo com Kági. Numa cidade como essa não deve ser difícil encontrarmos alguém que precise de nossos serviços. - disse Armando, outro guerreiro forte e robusto.
- Vamos descansar por hoje. Amanhã caminharemos pela cidade e buscaremos algo de útil e lucrativo para fazer. - disse Jocelyn. - Agora que tal uma música para acalmar os ânimos?
A moça pegou o alaúde e uma melodia suave e calmante encheu o ambiente agitado da taverna. Alguns frequentadores animados com a novidade, atiraram-lhe moedas que rapidamente foram parar nos bolsos de Jocelyn. Aos poucos só se ouvia o rumor das ondas do mar batendo nas rochas como a lançar um feitiço sobre a cidade adormecida.

Sobre a obra

Um conto de aventura com alguns toques de humor.
Eis o primeiro capítulo do conto Suméria. Tremaría é a cidade em que tudo acontece e onde aventureiros corajosos hão de viver grandes aventuras.

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informações

Autoria
Cláudia Valéria Miqueloti (Bruxinhachellot)
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celina vasques
 

Iniciando sua votação!

beijo no coração!

celina vasques · Manaus, AM 15/7/2008 23:59
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

belo texto.tem o meu voto de coração.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/7/2008 12:05
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Nic NIlson
 

Maravilha de conto. Otimo. Aplausos de pé!

Nic NIlson · Campinas, SP 16/7/2008 15:36
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Doroni Hilgenberg
 

Bruxinha.
Lindo conto!
Vai ver que hoje a gente come carne de cachorro sem saber.
Olho meio de lado para os cachorros quentes.
Bjssssssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 16/7/2008 21:31
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Sônia Brandão
 

Que venham os próximos capítulos.
Beijo.

Sônia Brandão · Bauru, SP 17/7/2008 01:46
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Sheila Fonseca
 

Obrigada pela força!
Beijo grande,
Sheila

Ps.: devidamente votada. ;)

Sheila Fonseca · Rio de Janeiro, RJ 17/7/2008 07:53
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Ailuj
 

Publicando seu texto querida
mais uma vez :)

Ailuj · Niterói, RJ 17/7/2008 14:12
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Bruxinhachellot
 

A todos agradeço os comentários e os votos.
Beijos de sol e de lua.

Bruxinhachellot · Nova Iguaçu, RJ 17/7/2008 15:43
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

que bela construção de texto,parabéns.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 17/7/2008 15:48
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