Imaculada e Fortunato
1.
No início de outubro, no norte da província de Goiás, as tempestades de chuva formam-se de inopino e surpreendem até moradores experientes. O vento esgalha árvores e polvilha em todas as direções sementes que revigoram o cerrado. Aves e bichos promovem um espetáculo singular enquanto procuram refúgio nos momentos que antecedem a procela, e quem não é do lugar tem mais um motivo para ver crescer sua apreensão. Costuma ser tamanha a apreensão que não há tranqüilidade para apreciar o espetáculo.
Em minhas andanças de caixeiro-viajante no final do século XIX vivi várias dessas situações, mas só interrompia a marcha da récua de bestas em casos extremos. Há tempos, que quase não mais recordo, um desses casos aconteceu.
Era uma sexta-feira, com sol já quase posto. Monte Dourado, meu destino, estava próximo, coisa de uma légua, e a proximidade aumentava minha vontade de continuar. Era minha primeira viagem ao povoado e o caminho desconhecido por si só justificava meus temores. Além disso, três semanas percorrendo paragens ermas do cerrado tornavam-me pressuroso; a despeito de ser obrigado pela profissão a grandes deslocamentos por áreas desabitadas, isso nunca foi capaz de tornar o insulamento suportável. Também não havia como negar que era imperioso estar na praça da Matriz sábado cedo para a melhor feira da semana no povoado. Entretanto, escuras nuvens surgidas de repente no horizonte a minha frente ameaçavam frustrar meu intento.
Instintivamente acelerei a marcha, ao tempo em que as nuvens negras precipitavam a noite que chegava lenta. O alarma de aves e bichos encheu de gravidade o lusco-fusco artificial e não demorou para um silêncio assustador dominar a imensidão. Como a imprevisão é a regra dessas ocasiões no cerrado, um vento zangado do norte fustigou para longe o silêncio, enchendo de fúria a vastidão do planalto. A força com que ele chegou — que a olhos humanos parece exagerada e destruidora — é adequada à Natureza.
A noite privou-me de observar com detalhes a soberba chegada da estação chuvosa, e por algum tempo a farta água gelada da chuva aliviou-me a opressão do mormaço sem diminuir a inquietação provocada pelo risco de vagar sem rumo na escuridão.
Fora surpreendido pela tormenta no pior momento da viagem, à entrada de um restingão, cuja trilha a água e o breu da noite tornavam um obstáculo difícil de transpor. O controle dos nervos era indispensável a quem só tinha mulas como companhia; e avançar com segurança dependia de não permitir os nervos fraquejarem aos ruídos e fantasmagorias da mata. Quem já enfrentou solitário tal situação sabe que os sons da mata avultam nos ouvidos, pregam peças, e o medo torna-os de difícil identificação, ora parecendo urros de feras esfaimadas, ora sussurros de seres fantásticos.
SEGUE NA PRÓXIMA POSTAGEM
Eia, conto de sertão e de passado... ainda por cima com caixeiro-viajante... delícia de ser lido!
Aproveito para fazer um comentário (mais para aqueles overmanos que são mais citadinos)...
Os ruídos de uma floresta à noite são absurdamente altos, intrigantes, diferenciados - e vão mudando com o correr da madrugada... Quem já andou pela floresta amazônica durante a noite sabe o que é: inenarrável!
Estou aguardando a continuação e este aqui já está agendado para a votação, porque merece demais!
Ê sertão! Meus vinte e poucos anos, jornalista recém-formado e documentando para a Embratel, onde trabalhava, a implantação da Rede Nacional de Telecomunicações.... Sertão e selva!
Abraços!
Baduh
Que bom, Baduh. Não sabia dessa sua faceta. Também pudera, não sou adivinho. Mas o interessante é que o que vivemos nos toca profundamente. e de fato, os ruídos da mata avultam aos nossos ouvidos. na madrugada, quando tudo está quieto, qualquer pequeno estalido é uma explosão. Sei disso pq convivo com a zona rural em Caseara - To.
abcs
Leandro,
Soberbo iniciar de um Conto que tem tudo para hipinotizar
seus leitores. Primor de escrita e enredo.
Parabéns!
Está aí um escritor sério, que já deveria ter vários livros publicados. Você já os têm JJLeandro? Bem, se tiver já, ainda não os vi nas vitrines das melhores livrarias das cidades grandes. É injustiça.
Muito bem.
Ivo Sotério de Souza - Valença - RJ
Ivo, obrigado pela força. Com palavras assim, nesse espinhoso mister de escrever, sentimo-nos revigorados. Tenho apenas um, de poesia, Quase Ave, que venceu em 2002, em Goiânia, o concurso nacional para poetas inéditos Cora Coralina. De lá para cá tenho um romance, três de poesias, um de conto e um de crônicas prontos para ir à gráfica. Mas a questão de furar o bloqueio das editoras é, para mim se assemelha assim, mais difícil que escrever. Mas não esmoreço, sigo em frente.
abcs amigo
....
Benny amigo. Obrigado uma vez mais.
abcs
Leandro, estou por aqui aguardando o resto, deste conto, ou será um livro?
Parabéns pelo início.
Abrçs
Leandro, da minha terra para Ponte Alta, outros iam a Porto Nacional, (meus avós maternos eram de Ponte Alta), se fazia este percuso, do jeito que descreve, a cavalo e um outro com a carga dos trens de uso na estrada e quando chegasse ao destino.
Andre Pessego · São Paulo, SP 19/8/2007 21:01
Leandro,
Não havia lido a ficha técnica mas já encontrei o "Imaculada e Fortunato" 2.
Abçs
Maria G. , uma vez mais obrigado.
abcs
...
André, essa é a verdade desse mundão aqui até a década de 1950. E vc, quem diria, esse mundo é mesmo pequeno, tem família aqui na região. Um grande abraço.
Êba! Cheguei mais tarde, mas já li e gostei do 1.
Vou pro 2, aproveitando o feriado do dia do professor, fico com tu escritor bem pertim do meu coraçãozim.
Beijin, té ali.
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