FINAL...
IMACULADA E FORTUNATO
14.
— Essa é...senhor...senhor... Interessante, qual é mesmo o seu nome? — indagou o homem na quase treva da velha cozinha.
Enfim achava estranho, depois do muito tempo que conversávamos, não saber ainda o meu nome.
— Severino Mantiqueira, às suas ordens.
— Pois bem, senhor Mantiqueira, essa é a real história da dona desta pensão, a mulher do retrato.
Antes que eu percebesse, minha língua me havia traído:
— O senhor ainda não se apresentou.
— Eu sou o garimpeiro Fortunato; e ela é Imaculada...
A suspeita enfim revelada teve a brutal potência de um soco desferido no queixo. Caí no abismo das trevas da inconsciência.
Na manhã seguinte, com a alvorada já nascida, fui acordado pela passarada, saudando o sol triunfante atrás de fiapos de nuvens cândidas. Olhei em redor em busca do homem e da mulher, bem sabido Fortunato e Imaculada, e, não os encontrando na cozinha nem em qualquer outro cômodo da casa, voltei a duvidar de que vivera as intensas emoções que estavam gravadas em minha memória.
Iniludivelmente era tudo real!
A casa se apresentava à luz do dia sem os véus que a escuridão fabricava e em cada canto antes escondido ou parede mal esboçada saltavam aos olhos o abandono de décadas, o limo sem pressa da destruição e a formidável ação do tempo que a tudo consome pacientemente. Nenhum vestígio de cuidados humanos. Apenas a voz do tempo, que é ouvida com os olhos, falava claro no reboco aos pedaços, no soalho podre — que na noite anterior inexplicavelmente era bem mais conservado — e no teto esburacado do andar superior que lançava sobre o soalho réstias da viva luz do sol. As teias de aranha eram um dossel sobre minha cabeça e rebrilhavam quando feridas pela claridade do sol.
Corri à parede da sala de entrada!
Ao lado da porta uma moldura antiga com um retrato quase apagado pela mão do tempo não permitia distinguir as feições de uma mulher. Era uma mulher, estava claro! Mas a fisionomia que a noite realçava a luz do sol paradoxalmente escondia.
“Imaculada”, escapou-me dos lábios.
Imediatamente procurei deixar a casa. Temia de um momento para outro uma nova aparição dos dois fantasmas, talvez agora me querendo exterminar e não mais me aterrorizar com a funesta história.
Enquanto galopava pelo caminho para Monte Dourado, a visão de um pau d’arco morto, resistindo de pé entre as outras árvores viçosas — cujo esqueleto o sol lentamente tornava ressequido —, gelou-me com um calafrio ao inferir a possibilidade de as pessoas também morrerem e continuarem pregando peças nos vivos.
Entrei em Monte Dourado procurando informar-me onde ficava a cadeia pública. Abordei apenas uma pessoa, que me detalhou — com claro olhar de desconfiança — a maneira mais prática de chegar até lá. Na partida, fez-me um alerta: “Não passe por lá à noite”.
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Então, Leandro, lido teu conto posso dizer-te: publique!
Outros leitores gostarão tanto quanto gostei eu, por certo.
Há nele, além da riqueza da liguagem regional ao início, tudo o que se queira de suspense, drama e até mistério, ainda que rápido se passe de um a outro estado d'alma durante a leitura.
Para mim, embora adivinhasse parte do sucedido, deu-se o que te falei lá no teu perfil, um misto de real e mágico, ou fantástico, a nos encaminhar indagações de que possa isso ser mesmo possível (a redundância é proposital!).
Digo porque gostei pela razão simples de que contos e novelas, por mais longos e demandarem mais tempo de apreciação, acabam tendo menos leitores e comentários que outros postados em Overmundo.
E pouco retorno têm os publicistas de suas obras, quanto a mérito e outros quetais literários, até - em meu caso - para que me oriente também pelas críticas.
Nada em contra a postados outros, que também os faço, apenas que por aquela razão te aplaudo a inciaitiva, que aliás também adotei de publicar em partes a noveleta A Hospedaria do Diabo, aqui em Overmundo. Apenas com uma diferença: já vai para o capítulo 8 e sequer eu sei ainda o final e em quantos capítulos encerrará.
Um convite para a leitura dela, então se puderes e quiseres, porque sei, toma tempo e esse é ouro escavado no garimpo ralo.
(Aqui no sul é corrente dizer planície de aluvião, mas separadas umas das outras as palavras, diz-se a planície e o aluvião.)
Amistoso abraço.
Mas bah, tchê, te digo que os viventes se encagaçaram todos e os pelos espetaram no coco e noutras partes com os fantasmas já em meio adivinhados.
O choque de que Fortunato está cobrando até hoje a conta da Imaculada é tri-legal.
A vida dela até pode pagar a vida dele, mas ela vai ter de contar a história pra viajantes poucos daquelas bandas agora sem garimpo, até pagar todo o ouro. Uma eternidade.
Adorei teu trabalho, um aprendizado e tanto das coisas de um outro mundo e não tão longe dos pampas, mas distinto uma barbaridade.
beijin pra ti, guri.
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