Um avô narrava ao neto de seis anos histórias da mitologia grega: “Ifigênia acorrentada, próxima ao mar sentido que o sentido fugia-lhe pelo laço que prendia os seus cabelos. Ela os queria soltos. Ser vítima da devoção cega dos sacerdotes e de seu pai Agamenon, com a brisa a carregando com toda delicadeza. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ela olhou para o céu e foi salva por Ártemis para quem era oferecido o sacrifício. No seu lugar ficou uma vitela, e ela tornou-se sacerdotisa do templo da deusa”.
Depois o avô, por puro senso de contador loquaz, imaginou o céu de Varsóvia coberto de cinzas de corpos incinerados. Os becos, repletos de vítimas, cada uma delas aguardando a perseguição dos coturnos furiosos, irracionais. A Ifigênia polonesa estava estirada num gueto com uma perfuração no crânio provocada por um tiro disparado por um soldado alemão.
Alguns dias depois, a notícia no mundo era a chuva química que arrasou Hiroshima. A Ifigênia japonesa morreu abraçada ao seu pai Agamenon. Eles desapareceram instantaneamente. As meninas “Ifigênias” não encontraram deusa que as salvassem. Mas isso ele não revelou ao neto. Ele não entenderia a violência.
O pequerrucho foi à janela olhar a vizinha Ifigênia dançar, quando tudo ocorreu: tiroteio na favela. Uma favela como outra qualquer do Brasil. Ifigênia ensaiava para ser bailarina. Ganhou em um concurso uma bolsa de estudo para frequentar a mais renomada escola de balé do Canadá. Qual o sacrifício que imputariam a Ifigênia? Sua mãe orgulhosa preparava o jantar, o pai, um pedreiro dedicado, emocionava-se com os boletins da sexta série da inteligente filha. Tiroteio e pânico nas ruas. A família protegeu-se dentro do seu lar. Uma bala batizada como “perdida” invadiu a moradia de Ifigênia alojando-se em seu seio direito. Ela ao ser atingida deu um belo giro que arrancaria aplausos de uma platéia encantada. O corpo frágil da menina alcançou o chão encerrando uma violenta encenação de um coreógrafo tradicional. O mesmo de todos os sacrifícios proibidos que são forjados a revelia das vítimas.
O menino a tudo assistiu. O avô correu para a janela, puxou o neto para junto do corpo dele e jogou-se no chão. Duas infâncias perdidas na realidade. Nem o mito é tão poderoso.
Avô conta histórias ao neto. Mitologia, possíveis histórias da Segunda Grande Guerra Mundial. Coincidentemente todas as vitímas chamavam-se Ifigênia, nome da vizinha deles. O que o avô não sabia era que a violência urbana do Brasil invadiria a vida dessas doces crianças.
...talvez por isso a fantasia seja tao oportuna!
talvez acreditar em deuses e rainhas......em dragoes e olimpos....salve nossas crianças do amargo da vida.
adorei o conto........me conta mais?!
bjssssssssssss;)
A fantasia para contar uma realidade dura e amarga. Mas a realidade é imbátivel. A violência não escolhe idade, raça ou sexo, destrói a todos. Belo e triste conto!
Juliene Leite · Cuiabá, MT 22/6/2009 12:53
nossa!
você fala de uma forma impactante!
chega ser triste!
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