Está atirado no chão, tétrico, mórbido, pavoroso, há dias, um braço decepado. A parte amputada desde o ombro, ainda as articulações expostas, não sangra. Reflete nele o sol. À noite a luz de uma lâmpada de um poste próximo. Se parece ao de um bebê, tão diminuto. Os dedinhos da mão aberta aparentam um mudo clamor, um último aceno, talvez em momento até de felicidade. Está no meio da rua estendido. Eu o vejo de passagem. Poderia juntá-lo, tirar dali, afastá-lo do olhar dos demais, que – percebe-se – não se comovem de modo algum. As crianças o vendo podem se impressionar até. Ter pesadelos, quiçá. Há casas à frente, dos dois lados da rua, mas nenhum morador moveu-se para reparar a cena, fazer a limpeza do local. O pequeno braço está ali exposto. Talvez a próxima chuva, uma enxurrada, o leve para um esgoto próximo. Sendo de plástico sensaborão e inodoro, o braço de boneca não serviu sequer de brinquedo para cachorros.
Adroaldo Bauer
Publicado no Recanto das Letras em 30/12/2009
Código do texto: T2003156
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Está no meio da rua estendido. Eu o vejo de passagem. Poderia juntá-lo, tirar dali, afastá-lo do olhar dos demais, que – percebe-se – não se comovem de modo algum. As crianças o vendo podem se impressionar até. Ter pesadelos, quiçá.
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