INDIGENTE
E fez-se o índio
Nu, em carne e espírito.
Teve o céu como teto,
O chão como casa, a mata como lar.
E fez-se índio e índia
E nada mais natural
Que a junção culminasse em indiozinho
Respeitado, amado, educado para a vida.
E a aldeia, uma confraternização.
Os ritos, as festas, as crenças.
Todos são um. Um é cada um.
Um vale como todos valem.
O respeito é pela bravura,
Pelo conhecimento, pela experiência
Na ciência da vida.
Até o dia
Que a civilização predomina
E dizima, sem dó, sem respeito
Sem humanismo ou piedade.
A ganância civilizada,
A violência avançada, a doença,
O fantasma do fogo, a morte.
A evolução e a revolução do espelho,
O mistério das contas de vidro,
A magia do álcool.
E o índio fez-se pessoa,
De bermuda, sapato, camiseta.
Civilizado, desculturado, aniquilado.
Restolho de cidadão,
Resquício de dignidade,
Cultura primitiva,
Pureza primitiva,
Harmonia primitiva,
Primitiva humanidade.
Sombras, desalento,
Marcas de uma história sem futuro.
Índio, antes gente,
Agora indigente.
As minorias, paradoxalmente, são extremistas: ou estão no topo da pirâmide ou no fundo do poço. E ainda mais paradoxal: quando estão por baixo são quase sempre mais volumosas.
Há vários semblantes que se observa em cada minoria (no sentido de desfavorecimento social, econômico ou cultural), e cada um merece um olhar, uma reflexão.
Quem há de lutar pelo índio, se a gente num luta nem mesmo pela gente ?
Um beijo !
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