ÍNDIO TEM QUE...

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Ademario Ribeiro · Simões Filho, BA
4/8/2009 · 9 · 9
 

ÍNDIO TEM QUE...

Índio tem que
botar o pé na massa
na estrada
na universidade
na ancestralidade
no tribunal
nas cotas!
Chega de pés em suas costas
ou de lhe virarem às costas
ou de lhe negarem as cotas

Índio tem que
botar p’ra correr
os que lhe roubam
- a mulher
- o filho
- as plantas
- as aves
- os bichos
- a terra
- a língua
- o sagrado
- o profano
- o sangue...

Índio tem que
se representar
não só se apresentar
como artistas natos
suas plumagens e pinturas e artesanatos...

índio tem que
sair da mata
fazer acontecer
porque senão
não vai acontecer...

Só vai acontecer
se índio
botar o pé
meter a borduna
botar o saber p’ra circular
contextualizar
retomar os rituais
a antropofagia
e meter a cara
a boca
dar a louca...

“Eles” meteram o pé
meteram a cruz
meteram as doenças
meteram o canhão
meteram o machado
meteram o trator
meteram as multinacionais
meteram a transposição
e são cheios de nhen-nhen-nhen!!!

Não somos a favor da revanche
nem à favor do desmanche
mas sabemos que o que era tudo teu
agora é de “todos” que aqui estão
e têm alguns que
já meteram a mão no rio,
no mar, na terra,
na lei, na bíblia, nos planaltos
e estão fazendo de tudo
para que “tudo” seja só deles
e há outros que deveriam ser
aliados como no passado de Pindorama
mas estão confusos pensando que
“a farinha é pouca...”
que é “tempo de murici...”

Mas eu digo que ainda é tempo
de mojar cecê! “unir o que foi cortado!”.
Nda s-ar-i abati ranhé!
“a espiga ainda não tem milho!”
Mas estamos no potyrõ:
nos adjutórios, mutirões
e é possível (ainda)
um pedaço p’ra tua gente
p’ra teu guri, curumim, mitã, kunhãtaí,
kybyra, anama, anakã ou ramuia!

Se um dia todos acordarem
deste sono que a serpente atiçou
ou da ganância voraz que a serpente envenenou
entenderemos que não precisamos partir,
apartar - e aí, virá o reino da yby mara-e’yma:
“a terra sem males” de todos os povos!

Índio tem que meter
Então que meta a sua meta
meta apito
meta borduna
meta o que puder
afinal, “eles” nunca tiveram pena de você.
Você até vestia e ainda veste pena
e pode despenar “eles”
e fazer um dabacuri
em pleno século XXI
ou você incorporou a pena cristã?!?!?!

A terra sem males está
para todos, enfim,
p’ra você,
p’ra “eles” e “elas”,
para juntos construirmos
os sonhos sonhados de todos os povos
do mundo inteiro!
este mundo é possível!

Não espere
não desespere
é só você continuar
neste movimento de pé ante pé
por aí, por aqui, por lá
em todo lugar
afirmando quem você é
o que você quer
porque você sabe quem você é
e sabe aonde quer chegar!

Índio tem que!

Abá am-iõ-te!
“Indio vai continuar de pé!”

Sobre a obra

Poema parido no constructo do meu sentimento ao participar da Conferência Indígena em Salvador e em outras caminhadas em porandubas e pensamentações com: Graça Graúna, Eliane Potiguara, Juvenal Payayá. Nádia Tupinambá, Jerry Matalawê, Ary Txay, Crisoston Terto Vilas Boas, Natalina e Yã Bomfim Ribeiro, Celene Fonseca, Heitor Kayowá, Oscar Charrúa, entre outr@s caminhantes que tanto me ensinam...

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Ademario Ribeiro
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Ademario Ribeiro
 

Pronto, gente amiga! Agora saiu de vez! Esta condição de criar, gestar, parir, oferecer ao outro um fruto saído de suas forças/crenças/pulsações é um ato - quase odisséia individual entre terra e céu para o coletivo, é de uma sensação estranha - maior do que quem cria!

Paz, saúde e prosperidade!

Ademario Ribeiro · Simões Filho, BA 4/8/2009 12:17
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ayruman
 

Um grande abraço de afeto, emoções e idéias compartilhadas. Paz na Terra. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 4/8/2009 13:07
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Doroni Hilgenberg
 

Adenario,
Pé ante pé o indio esta conseguindos e fazer notar
e atinguindo seus objetivos. Em municipios do Amazonas indio já é prefeito e vice prefeito. Nada mal né, não?
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/8/2009 15:47
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graça grauna
 

Ademario, negrindio: um grande poema você escreveu. Um poema de paz, onde se vê e se sente a nossa sede de justiça, a nossa identidade, a riqueza da nossa cultura e a força da ancestralidade para afirmar a nossa autonomia. Que Ñanderu nos acolha pelos caminhos ainda que difíceis. Que a nossa Mãe Natureza desabroche sempre em harminia pela união de todos os povos. Você é lindo, meu irmão. Beleza de poema afroindígena brasileiro. Grata pela dedicatória. Bjos de luz, Grauninha

graça grauna · Recife, PE 4/8/2009 16:03
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Ademario Ribeiro
 

Airuman, querido amigo, parceiro alado. Paz, meu irmão. Paz na Terra! Não dá para viver sem Paz! Paz! Paz! Paz!...
Doroni, amiga das prineiras horas no Overmundo! Pois é, Índio sabe onde "meter" a sua borduna e arandu!
GG, minha amiga desde os fundos dos quintais, aldeias, povoados, quilombos, universidades até às pensamentações e partos! Dois parideiros somos, meusamor!

Beijo vocês com ternura!!!

Ademario Ribeiro · Simões Filho, BA 4/8/2009 21:00
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Almirante Águia
 

Querido Ademário

Não digo lindo para ensebar, é lindo mesmo, uma dança, mistura ancestral no movimento, um grito de fé derrubando tudo, pé ante pé, olhar para frente, cabeça em pé.

Abração

Almirante Águia · Itaberaba, BA 14/8/2009 18:54
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Andre Pessego
 

Fico aqui pensando.
Pensando no tempo. Ah! o tempo!.
E nestes pensamentos -
uns dentro,
outros fora do temo
E me pergunto se ainda há tempo (?)
E não desisto, por isto corro em todas as direções, na cata do tempo
E no tempo nos encontramos. Nos encontramos no tempo
Fora do espaço, (ver se é possível (?))
E é assim.......
abraço
andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/9/2009 09:55
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Ademario Ribeiro
 

cabra amigo e caminheiro de sendas iguais ou semelhantes...
também me pego a pensar assim...
Creio também que se não se envolvemos - não desenvolvemos...
Numa embolada genial diz algo assim: " Cada qual para o que nasce
cada qual com sua classe
seu estilo de agradar..
quem tem o fel dá o... (fel)
quem tem o mel dá o... (mel)
quem nada tem... (nada dá)...

Tenho sido colocado no "canto" com esta questão indígena... tem sido tanta indiferença... Graúna sabe bastante sobre isto pois lhe confidencio e um outro cara bom: Keitor Kayowá...
mas, insisto no que acredito... claro não sei de tudo... o pouco de sei já estou com a cabeça a prêmio...

Paz, irmão caminhiero!!!

Ademario Ribeiro · Simões Filho, BA 11/9/2009 10:04
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Cláudia Campello
 

...e aos poucos vamos nos tornando uma só naçao...que ainda nao é nem branco nem indio....palidos idiotas no sistema que dis-crimina.
indio tem um "Q" de soberano....i é. E esse teu canto, poeta é linnnnnnnndo.

gostei, mto mto mto.

bjsssssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 7/4/2010 04:23
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