Porque razão ela começara a esconder os pezinhos de meu olhar, que era só de casual admiração eu não sei dizer ainda hoje.
Não conseguiu o mesmo intento para os olhos verde água ou não os quis fechar. Ainda que o fizesse, eu já os fotografara, em memória e máquina, furtivamente, pensei ter sido.
O brilho intenso dos seus olhos, não esqueço.
As mãos, dedos longos, finos, delicados, pousados sobre as pernas, as coxas explodindo as costuras do jeans. Quem sabe dizer como pessoas assim vestem desse modo as roupas? A tese é que costuram no próprio corpo, já em posição de vestir...
Parecia esculpida, ela. Linda, talhada em madeira fina, adornada de metais e pedras raras, entre elas a que me é mais cara. Safira era o nome escrito no caderno que apertava contra o busto. Para esconder os seios? Ou por assim sempre ser.
Eu não considerei que a encarasse ou a asustava, pensara, pareceu-me ter bem dissimulado, imperceptível. Ela, no entanto, percebi tarde demais, fazia o mesmo comigo.
Eram pés pequenos, delicados os dela. Formosos até se podia dizer deles, contidos por sapatinhos singelos, baixos, também verdes.
Ah! Teriam sido postos para combinar?
Inesquecível visão do paraíso. Parecia-me, agora, quando novamente pude ver-lhe os olhos, grandes, redondos e, surpreso, pensei que piscavam para mim, insinuantes. Descombinavam encantadoramente da blusinha mostarda e do jeans azul claro, também da echarpe multicor, harmonioso conjunto, no entanto... também bonitos.
Teria mesmo piscado de modo insinuante ou a minha imaginação, querendo, voava? Iludia-me, por certo!
Os cabelos lisos, louros, finalizam, longos, em caracóis discretos. Escová-los, acariciá-los, percebia-se poder aproximar-se ao delírio, às delícias raras, suaves que se apresentavam.
Os pezinhos mexeram-se rápidos e se formaram para sustentar o corpo levantando do banco do ônibus à minha frente, desses um contra o outro. Fitei-os entristecido com a perspectiva da perda se anunciando. E só então os percebi priosioneiros de tirinhas finas no sapato, o que não vira ainda, até aquela hora. E os apertavam aquelas tiras a ponto de fazer aparecer, por certo como protesto, marcas; tênues saliências à semelhança de quando se pressiona leve finíssima esponja.
Seria uma bailarina? Que linda bailarina seria ela, fantasiei imaginando-a em elegane pliêu.
Levantei.
Segui-a até a saída do ônibus. Docemente, piscou os grandes olhos verde água. E deu-me um leve abano de mão.
Congelei.
O ônibus partia enquanto a via sorrindo graciosamente, ainda em minha direção, mas já acompanhada de um outro homem, que lhe passara o braço à cintura e a beijara suave no rosto.
Não mais a vi. Nunca a esqueci.
Agradecido, Marley. Feliz fico com tua presença.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 20/11/2009 17:46Instantâneos que o coração guarda mais que a memória... Tê-la visto e disso ter resultado tuas linhas já é uma vitória... Eis que ela já é eterna posto que a chama da Poesia agora a consome... Por ora, me despeço, Adroaldo... Mas deixo-lhe pistas do Esconderijo do Poema... Abraços...
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/11/2009 22:34
... era pra ser e se foi!
gostei do conto.
bjsss;
Adroaldo...inversamente, ou seja...seguindo um 'menino' que nunca mais vi...senti esse frio ele sendo esperado por alguém...
Ah! Memória que dói, mas ainda que seja doce...
comecei o dia bem...afinal Hoje é sábado e tudo acontece e pode acontecer...
Bravo, Adro!
Como sempre seus dizeres são bem arquitetados - e belos!
Abçs!
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