Casa de espelhos
Mergulhou
No espelho
Atrás de uma agulha
no palheiro do ego,
e encontrou algo
muito além de um orgulho
cego.
Encontrou desassossego.
Mitotauro
Imito o mito;
Me tomo por
Minotauro,
Não mauro,
Mas o touro
Murado no
Labirinto.
Só omito
Que já não há novelo
Muito menos fio
E que rio do Teseu astuto
E o engulo puto
E depois vomito!
Eis o rito secreto
Do mito que há muito imito.
Fio solto
Puxar pelo fio da memória
E esgarçar o passado
no fio mal puxado.
Ah! Glória momentânea da nostalgia!
Lusco-fusco
Aproximei-me tanto de mim
Que esbarrei no meu avesso.
Com isso, quase que eu cresço
Quase que eu corro esse risco
De ser tanto não quanto sim
Ou pior, o oposto disto
Nem muito breu nem corisco
Nem não, nem sim: lusco-fusco.
A Camareira
Olhando a cena aqui de cima
Não sou tão escravo da rima
Quanto se imagina.
Ela
( a rima)
apenas arruma
A minha cama
Quando o poema cisma de ser
e se esparrama.
Flores do mal
Numa noite sem fundo
Onde flores vãs
Erguem seu mundo negro,
Me alegro tanto com os
Leviatãs de fogo
saltando do lodo do meu medo,
Que me quedo a desejar
Que todas as manhãs
Tendam à mais tarde do que cedo.
A passagem do anjo
Fiar a conversa
E depois desfiá-la
Elegantemente
Até que essa conversa
Inversa
Cesse de repente
E fique na sala,
Como um tapete persa,
Aquela fala que resvala a farsa
de um silêncio urgente
Quando já não há nenhuma pressa
De ser gente.
Ábaco
Estou com os dias contados
Calculo que resta pouco tempo
Descontados os dias de sol
Os dias de sombra espessa
E as horas de pressa,
Restam réstias de desejo
Nas horas esparsas,
Restam medos
E dias que contam-se nos dedos:
Dias de farsa
Dias falidos
Desconsiderados, é claro,
Os dias de riso
Os dias imensos
As horas repletas,
Restam ruínas de lampejos dos anos de festa
Restam rumores
Em dias calculadores.
Desastronauta
Movi céus e terra atrás de ti.
Ah! Como um homem erra!
Só depois de feito o caos
Depois de ter sujado
A minha barra com Deus
Com tanta marra,
Só então percebi
Que nem assim te comovi!
Porra!!
Vou ter que arrumar
Toda essa zorra
Senão o infinito emperra.
Pra que eu fui mover os céus e a terra?
Grua
Um lugar
Fora do lugar:
Alívio e exílio
Ponto suspenso
No pensamento plano.
O Vôo do Óbvio
O vôo do ovo
Levitação da falsa pedra
Do seixo
Nova lua oca
Louca nave decapitada
O vôo do ovo
Antecipação da asa
Catástrofe latente
À flor da casca.
O vôo do ovo
Não-pássaro calvo
Alvo móvel
Da incerteza.
Mal ou Bem
Lembro-me bem.
Mal fui além,
Fiquei de bem
com o mal.
( hoje )
Na minha moral
Imoral
Ninguém intervém.
Nem por bem
Nem por mal.
Ainda bem!
Menos mal!
O tempo pode ocupar uma sala
Um estádio
Se não há quem lhe corte o fio
Com uma faca
Um tapa
Um ato falho.
O tempo pode se espalhar
E vazar pelas réstias
Pelas frinchas de um quarto trancado.
Se nada for feito
O tempo vai se encorpando
Ficando gosmento
E o gel do tempo entranha
Em cada objeto
Se não lhe interrompemos
Com um grito
Um rito
Um feito.
O tempo vai virando uma matéria vasta
À se perder de vista.
E quanto menos nós o limitemos
Mais ele se arrastará pela pista
Fará de dias, meses; de meses, anos.
Já que um tempo que não tem planos
É um tempo que não se arrisca.
Não Há
Há um lugar
Cheio de vazios.
Vazios com recheios ocos
Onde nem ecos ecoam seus anseios.
Há sim um lugar sem veios
Sem lugar para devaneios
De rios só leitos
E de leitos só rumos
Rumos, meios.
Esse lugar sem brancos e pretos
Sem qualidade nem defeitos
Abstratos e concretos
É um locus. É um ethos
Que Deus ( se há!)
Só quis legar ( esse lugar)
Aos loucos
Aos santos
Aos mortos
E à alguns poucos eleitos.
Decerto
Num deserto
Todo perto é longe
O tempo age, impunge
Um parto.
O tempo urge
O tempo range
E o espaço aberto
É um tormento sem margem
De acerto.
Temperamento
O tempo que não passa
Assa até o osso do pensamento.
E não resta sombra de dúvidas
Das dívidas da vida.
No tempo que não avança
Há até quem possa contra o seu pulsar
Astuto
E passe reto.
Mas essa coisa indecisa
Se disfarça em resto
Em louça rompida
E o tempo que não passa
Antes disso
Suicida.
Horatório
Antes da hora
Era tudo ali na mesma hora:
A hora do sim
A hora do não...
Nada era fora de hora
Não havia agora
Nem dias que outrora diziam que virão.
Depois que a hora...
Tudo é uma mesma oração:
A hora da morte
A hora de sorte
A hora agá
A minha hora, a sua
Num depósito sem chão
A propósito,
Que horas as horas são?
Volteio
O amor não é desse mundo.
No fundo, no fundo
o amor é quando não há
mais nada em volta
e a gente volta o olhar,
não para o que não está
como quem se revolta,
mas para o que nos faltará
quando não houver mais volta.
Se dar por achado
Um achado
Não se acha assim
De bate pronto
Ali do lado.
Tem de ser escavado
Ponto à ponto, muito à fundo
Até ao estado de um encontro
Pra lá de desencontrado
Com o germe de outro mundo.
Recordar e Viver
Recordar é viver
O já vivido sem ser
E refazer o prazer
Numa redoma de vidro.
Já imaginar é viver
O que não é permitido
É devolver ao porvir
O devenir da libido.
Indefinição
Poesia é o ápice do lapso da palavra.
Live
Na ponta da minha língua
A palavra água tenta ser saliva
E trampolineia apolínea
Rumo ao vão do ouvido alheio,
E acerta em cheio
O mar vindouro da palavra fêmea
Que a minha língua ainda anseia.
Ouro Negro
O amor parece fácil
No início
Contra a inércia: cio
Contra a inépcia: vício
Mas depois, que coisa incrível!
Vê-se que é um combustível fóssil
De acesso bem difícil...
Apenas
Dei minha palavra
ao poema
De que valeria à pena
Mas deu pena
Do poema
Ali fazendo cena
Enquanto a palavra
Me depenava.
Constatação Inútil
Um prato feito
Sempre tem
Um jeito abstrato
De mesa imposta.
Tormenta
Trabalhar com frases soltas
Exige desprendimento:
Pode vir um vento
Desses de mar de ondas revoltas
E fazer das frases, quases,
Fases sem sedimento
Ou qualquer razões ocultas.
Pra não dizer que não...
Que flor não é receptáculo
Espetáculo na ponta do caule
Que alivia o cálculo das dores?
Que flor não é uma vulva olorífica
Uma órfica visão
Anti-científica
Ao alcance da mão?
Branco
Deu um branco
no papel
e o poema
( meu corcel)
pegou no tranco.
mão na roda
A mão na roda
É uma ode a ação
Na hora do deus nos acuda.
Ainda mais se essa mão
for prendada
ou for caluda.
Nada Pessoal
O poeta mente que nem sente.
Passa sempre rente a um ente
Inexistente, que ele completa
Eternamente com o poder da mente
Desse mesmo ente ausente
Que inexplicavelmente lhe completa
E faz poeta.
Olhos nos Olhos
O que fazer com atos falhos
Como esse
De comer com os olhos
Outros olhos
Como atalhos?
Ou de pular de galho em galhos
Pelo prazer de ter
Os mesmos olhos ( atos falhos)
Como uma penca de penduricalhos?
Palimpsesto
Tornei-me tudo
Quando nasceu de mim
Um vasto mundo.
Hoje eu me gasto infindo
E até me basto. Contudo
No fim do meu sem-fim
Alguém anda mentindo à rodo:
Ou tornei-me tudo
Que nasceu de mim e nisso insisto,
( cri-me Cristo?!)
Ou o mundo em mim
Tornou-se um palimpsesto engodo
E eu nem de mim me resto.
Voilá
Maravilhamento
Momento em que a bolha
Navega o vento
Sem nenhuma escolha.
Lucien Freud (para o Gamba)
O maior pintor vivo
pinta o morto
em carnação passada
à limpo, na altura do seu
salto.
A carne: e a dor crava
a vista no adorno.
Cega ação,
espatulada
tanto que perfura o olfato.
A pintura morta
em natureza aérea,
é tão humanamente séria
que profetiza o erro.
O maior pintor morto
Ainda vive trapo.
e espera, alti-contrito,
o seu desterro.
Pente Fino ( à Quintana)
O poeta afina a pena
sua
Chora
Descabela
Mas passa o pente fino na memória eterna
E a caspinha que cai
Serve de lanterna.
Plano sobre plano
O aeroplano pinça píncaros
e cai
Ave sem força esbanjando graça
Garça aterrizante
Não alça vôo
Não começa.
Traça um plano, pleno de ameaças
Esboça um salto
Boceja
e passa.
Quintessência da dependência
Aeropluma
Aeropleno
Aero-plástica da queda
Agora a barriga banha-se de grama
E o descampado arranha
o braço, o beiço...
Subitamente descamba e pára.
Sai da cabine seu coração
que até então
diagonizava em vôo.
e o aeroplano fica lá
Penélope tomando sol sem sonho.
Afazeres ( À João Cabral)
Dar a todos os sentidos
A conformação de franja
Como se a sisudez do olhar
Fosse a antecipação da lança.
Criar esconsa geografia
Na gramática do sê-lo.
Dar ao cheiro
Seu silêncio e ao silêncio
O mais de exílio.
Mastigar, não pelas carnes
Mas o sêmen do que servem
Mais que sêmen: o cerne.
Ver o mar por seu repuxo,
Não pelo seu desassossego.
Ver o céu, não por seu estilhaço
Mas pelo que tem de vago.
Como se cada narina
Fosse excelentíssima pinça
Como se cada pupila
Fosse uma foice avessa:
Só rasgo.
Dar ao tato o mais do espanto
Pelo extrato do arrepio
Até mais que pelo hirsuto: o à postos
Que antecede o gozo.
Dar a todos os sentidos
A confirmação do anjo.
Caracol ( À Manoel de Barros)
O caracol segue sendo casa
E lodo e inundação e gozo
No corpo transeunte.
É como se o beijo da pedra
Fosse um trilho aceso à palpitações,
Ou mais ainda como se horizontal
O caracol soubesse as lanças
Do descortino.
Ele (o caracol)
Relata sua passagem
Com inocência de quem mija
Rente.
Sobejadamente espera a hora de ser crosta terrestre.
O Livro
O livro que se lê no claro
ensina o preto e branco aceso.
Antes do cérebro que refina,
as linhas se convertem unas.
Alteram rotas as colunas
e o livro surpreende aberto.
Certo e prático, sem cenas
de energia intensa em cima.
E como se dobrasse a esquina
Tenta o livro o pulo ao centro
Que a letra lenta desanima.
Mas contraído elide o cetro
da destreza, o que dá pena:
Descompassado, implode. Quieto.
Áspera
A espera é exausta
Cai gota a gota, sem véus
Penetra o ser incauto
Separa o mundo
Cerceando a coragem
Nublando os céus.
A espera é atônita
Sêca no desaguar
Rica no frêmito
do seu silêncio
Fraca no cerne
do seu remanso.
A espera é diurna
Não teme a chuva
Se mostra sensível
Calada e astuta.
Parece impossível
que ferva no ermo
que nunca se enfurna.
Lente do Salgado
Vulto
magro
Pele
e osso
Desossado
cartilagem
só
Falta pouco pra
pó
Recusa copo
dágua
não carrega
mágoa
Não carrega
nada
Olhos
por dentro
os dentes
se contam de fora.
Clóvis
Espera-se a festa que a roupa
na fresta do tempo aberta.
vaza a naftalina
No muro da casa confeito
a nada sutil fantasia estica-se
toda carne-de-sol.
Diga-se arco-íris!
Preveem-se sorrisos, suores, esgares
Noitadas
Espraia-se a roupa bandeira, estrela caseira
do mar, prato de porcelana pintado na varanda
e o entardecer de domingo boceja madrugadas de momo.
Roda de choro
Era pra ser trançada de silêncio
Uma tarde qualquer de domingo.
A poeira que levanta na praça
Caprichosamente
Desvia dos olhos dos pardais
E as vagens despencam dos oitis
Como orfãos.
Voam sombras de vôos no vão do chão.
Era pra ser bordada de respeito
Uma tarde qualquer
De Domingo
Mas esse bate-estaca
Destrata a tarde
E já é tarde pra chamar
Aquela roda de choro.
Lábios
Lábios
Desses feitos de polpa
Que melam minha íris de anseios
Lábios escuros, prontos, terminados
Com argamassa e auto-sustentados
Com peso em ouro
Princípio, muito meio, e fino fim
Lábios que não cabem mais na boca
Viris de meigos que adoro-lhes
Quase beiços, beijos próximos
Lábios, como eu prometo tê-los!
Entre os meus lábios
Confundidos num descuido.
Sonho
Já ficou banal sonhar um sonho
Por isso resolvi capturar o sono
E espalhar pelo dia os seus vestígios
E nele construir meu redelírio
Um sonho feito mais de pedra
Do que idílio.
Deixo ao meu amor esse sonho em brasa
Muito nuvem bruma névoa rasa
Que sempre me enviesa.
Corpo Estranho
Meus olhos
Reclamam artelhos
E os rins de joelhos
Imploram nariz
A cuca fundida
Acredita que sem axilas
Ninguém é feliz
Meus cantos da boca
Banguelas de ciso
exigem pentelhos
e solas dos pés.
Meus lábios suspensos
Não passam nem mais
Uma noite sem cordas vocais
Os braços exigem
Titanicamente
Meus ácidos estomacais
As mãos sonham
um lance romântico
com meus tendões
Pulmões bufam porque
Desejam desde priscas eras
os meus genitais.
e o meu cerebelo ama
com certo atropelo.
eriça meus pelos
fazendo pulsar
os meus cem corações.
Arraias não ruminam
As Arraias pastam na encosta
que ladeia a lagoa salgada
Passantes apedrejam-nas de surpresa
e minha revolta é instantânea.
Elas fogem atabalhoadamente
para um mar mínimo e profundo
( embora visível nos seus abismos )
Uma arraia tomba ferida.
Púrpura sobre piche.
Arraias não ruminam
Ainda não aprendi
essa lição inequívoca.
Arroio
Não sei um arroio
Sei um rio
E sua lerdeza de rio
E sua correnteza
E sua beleza não acesa
Em cascatas, mas escura
Como uma dor póstuma.
Um rio e não um arroio
Mas eu cheiro o arroio
E seu infinitesimal
Sorriso de dentes de pedra
Riso sem fundo: rio.
Riso raso: arroio
Onde contam-se as gotas do desassossego
Onde colhem-se seixos a granel.
Ou não?
Não sei o arroio.
Sei o riacho. Solerte.
Aviso de ritmo no meio do espesso.
Água contorcionista
Bilobilando rumos.
E o arroio?
Talvez arrimo de família
Talvez água errante
Na planura.
Volteio.
Aboio.
Arroubo.
Soneto
Se há uma flauta de fôlego contínuo
Que, findado o coro, persevera em som;
Tudo será passado sem destino
Tudo uma orquestra à interpretar néon...
Se, do contrário, a flauta sempre cala
E no descanso do seu som: a tuba;
A hora muda e o tempo nada fala
Para que o instante do instrumento ecloda
Numa ilusão de farto afã, futura.
Uma ilusão bem vinda ao pé do ouvido
De que ao soar, o mundo mais se apura.
Mesmo seguindo um tempo pervertido
De um maestro que não se segura
Ante uma orquestra que não faz sentido.
Meus votos com carinho!
beijo no coração!
"E que rio do Teseu astuto
E o engulo puto
E depois vomito!
Eis o rito secreto
Do mito que há muito imito."
A sua palavra não "depenou",poeta!Abraços.Nina.
Achei maravilhoso teu poema.Fico feliz de ter recebido um pedido de um amigo para vir ver.
Deixo aqui meu carinho.
Gostei:
Numa ilusão de farto afã, futura.
Uma ilusão bem vinda ao pé do ouvido
De que ao soar, o mundo mais se apura.
VOTO CERTO
Sílvia
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