Meu pai nos disse que teríamos vida nova em Brasília, a Capital da Esperança.
Eu sabia que as casas não eram de alvenaria, como as de Goiânia. Então, eu sonhei com uma casinha pintada de branco, com um jardim enfeitado de rosas e margaridas.
Mas, meu sonho era só um sonho de menina.
Chovia muito em dezembro de 1957. Nossa casa era apenas um barraco de madeira de apenas um cômodo com telhas de amianto e piso de terra. Tínhamos de espalhar latas dentro de casa para aparar as goteiras.
Meu pai nos entregou baldes e nos levou ao local onde recolheríamos água para o nosso consumo. Era preciso pisar no barro escuro e frio até quase os joelhos, para alcançar a mina d’água.
Aprendi a lavar roupa com mamãe no riacho, a quarar e a usar anil no enxágüe e ficava orgulhosa vendo a roupa bem alvinha no varal.
Aprendi a juntar gravetos e acender o fogão de lenha, a torrar o café verde, moê-lo e passá-lo no coador de pano. A colocar sempre água na “talha” São João. Aprendi a cozinhar de um tudo, a varrer o chão de terra do barraco, a aguar o quintal para abaixar a poeira, a lavar as vasilhas com areia e limão-china até o alumínio brilhar ao sol.
Eu gostava do nosso fogão de cimento vermelho. Derretíamos banha e toucinho e púnhamos nas latas onde iriam ser conservadas as carnes cozidas ou fritas, que geladeira a gente não tinha. Só mesmo as pessoas abonadas possuíam aquelas moderninhas, a querosene.
De manhã ia para a escola – Ginásio Brasília. À tarde fazia os deveres e ajudava meu pai no minúsculo espaço da Avenida Central, também chamado de “A Hora Certa”, onde ele consertava relógios e vendia despertadores.
À noite eu fazia acabamentos nos vestidos, enquanto mamãe costurava na máquina de pedal. Eu recolocava querosene nas lamparinas e atiçava o pavio, para que ela enxergasse melhor. Fazia sempre um café novo e levava até a máquina de costura. Dava-lhe ânimo para continuar costurando madrugada adentro.
Eu sentia muita pena da minha mãe. Por isso, com apenas onze anos, eu buscava dividir com ela o trabalho e a dor que, às vezes, eu via em seus olhos.
Ela não reclamava de nada e era corajosa e destemida como uma guerreira.
Minha mãe era carinhosa e solidária com todos. Fazia sempre chás para a família e vizinhos que adoecessem: de mastruz, de limão com alho, de cidreira, de mentrasto e de boldo. Até de fedegoso, que é o chá mais horroroso que existe. Se fosse dor de esbarrão ou de queda, preparava emplastos feitos com farinha de mandioca cozida e colocava sobre o machucado. Se fosse corte, amassava uma folha de couve com açúcar e punha sobre o local. Se fosse tosse forte, fazia xarope com mel e fruta de lobo.
Mamãe era uma santa. Curava todo mundo, não com os chás ou ungüentos que fazia, mas com o amor imenso que misturava neles.
Trecho dos relatos sobre a minha infância, nos idos de 1957, que é parte da minha autobiografia a ser editada em 2008.
Walnízia,
A sua biografia em fase infante é muito comovente e bela. É de uma imensa pertinência, trazer o cotidiano dos primeiros dias dos pioneiros da construção de Brasília. Fiquei emocionado com suas estórias e, ao que me parece, herdaste a força guerreira e criativa/criadora de sua mãe. Pelo pouco e rápido contato que tive com você, consegui identificar o enorme carinho que emana de seu ser. E olha só onde chegas, com uma família e frutos já criados na utópica capital, que se tornou real. Muito bonito.
Meus parabéns emocionado.
de seu amigo Cristiano
Meu amigo Cristiano,
O seu comentário é que me emocionou bastante...
Não fosse a sua sensibilidade e também o seu carinho
tão generoso, não teríamos nos identificado.
Muitíssimo importante para mim a sua avaliação, meu querido.
Vamos estreitar a amizade. De minha parte, não há como retroceder.
Abraços e beijos para você.
Walnizia, querida!
Que relato lindo e comovente.
Parabéns por ter tido uma mãe tão altruista.
que soube transmitir valores que por certo
ajudaram a você chegar até aqui.
Qualquer dia, desando a falar da minha
que também foi especial.
Parabéns pelo texto maravilhoso.
bjssssssss
Minha querida Doroni,
Especial é você, amiga,
sempre carinhosa e presente.
Obrigada, amiga. Saudades.
Beijos
Que bonito! Que comovente! A gente termina revivendo a nossa infância e as nossas mães.
A mãe sempre cura a gente com amor
Que lindo!!! Lições de vida e coragem, de amor e respeito aos pais, de gosto pela vida e vontade de vencer. Estou comovida e sobretudo, maravilhada!! Abraços, Nina.
nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 26/8/2008 22:23
Oi, Hideraldo, você tem razão.
As nossas mães possuem esse dom
de agasalhar e de curar.
Obrigada por sua presença carinhosa.
Beijos
Nina, querida!
Muito grata por suas palavras
tão carinhosas e também comoventes.
Recebe o meu abraço.
Mas que belo texto. Parabéns
Um abraço
EdimoGinot
Bela lição de vida, seu poema retrata uma garra maravilhosa, uma aleria de viver acima de tudo. Sua biografia deve ser muito bela, a julgar por esse prelúdio. Parabéns! Agradeço de coração a sua visita e as palavras carinhosas. Beijos Mil!!!
Dete Reis · São João de Meriti, RJ 27/8/2008 22:13
Edimo, meu querido conterrâneo!
Seu comentário vale mais do que mil palavras...
Obrigada.
Um abraço
Dete, sua presença e suas palavras me
envaidecem.
Agradeço o seu carinho.
Abraços.
ooi Walnizia, que emocionante, confesso, fiquei comovida e ao mesmo tempo encantada com o amor que sua mãe transmitia... adorei ler esse teu pedacinho de passado que emociona, e nos faz ver o quanto é importante o amor no seio de uma família... volto pro voto..
beijos no coração...
Zíngara, querida!
Obrigada por sua leitura,
sua acolhida e pelas
palavras lindas que me diz.
Recebe meu carinhoso abraço.
meus votos mais que merecidos.
parabéns
beijos
Walnizia, primeira visita, primeiro encanto. Seu texto comove.
Lembranças de infância escritas com ternura e poesia. Lindo!
agradeço ao Cristiano ter mecionado vc. Ele tem razão, vc é grande!
bjos
CD
Querida CD, obrigada!
Muito me alegra seu comentário
tão carinhoso a respeito do meu
singelo relato. Eu é que admiro você,
sua inteligência e seus textos.
Ah, o nosso Cristiano.
Que bom tê-lo como amigo, não é?
Beijos
Walnízia,
parabéns pelo texto
tão bem elaborado e
por esta família que
você nos apresenta
aquí com tanta garra
pra mostrar
beijo,
ps. dá um pulo na sua
caixa!
Parabéns amiga poeta, relatos são sempre tristes, embora costumamos contá-los com alegria. Votado e acredite, todas as mães, são GUERREIRAS.
su angelote · Jaboatão dos Guararapes, PE 28/8/2008 12:39
Carlos,
obrigada por suas palavras estimuladoras
e por ter lido meu relato
com olhos de compreender
e valorizar a família.
Abraços
Su, você está certa. Relatos tristes,
mas contados com a alegria da
superação e do amor.
Obrigada, querida!
Beijos.
Doroni, mais uma vez,
grata minha amiga,
por estar aqui.
Você fica devendo os relatos
sobre a sua mãe. Saudades!
Beijos.
Parabéns, Walnizia. Seu texto é delicado e verdadeiro, como a vida deve ser. E as dificuldades só nos fortalecem.
Meu abraço.
Queridos amigos poetas!
Dete
Vanessa
O NOVO POETA
Obrigada pela presença e pelos votos.
Procurei pelo texto na fila de votação e vocês
já o haviam publicado.
Meu carinho e meu abraço especial para vocês.
Escutei também, um pouco dessa historia de vida, minha poeta já tão querida, quero repetir esses momentos...! rs
Votado
Baci
Walnizia, votei, se possível ouça meu conto Silvia de Monrabeth, poderia me dar seu msn e/ou mail? Para que eu possa enviar-te novos áudios. fiquei interessado na tua autobiografia, porque, por motivos particulares, Brasília me evoca um amor que nao deu certo, mas que foi muito lindo!
Rogério Silvério de Farias · Tubarão, SC 30/8/2008 17:00
Walnisia, suas recordações de infância me levaram de volta no tempo.
Fiquei aqui parada, lembrando-me de coisas parecidas que aconteceram na minha infância . Minha mãe também costurava até altas horas. Em nossa casa e na casa de minha avó, quando chegava uma visita inesperada, não havia problema com a mistura, era só tirar da lata de banha aquela carne saborosa, sem comparação com a que temos hoje.
Havia tristeza naqueles dias, mas havia doçura também.
Obrigada por essas boas recordações que você me trouxe.
Um beijo.
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