Meu pai era um dos novos candangos que chegavam a Brasília, acudindo ao chamado de Juscelino Kubitschek de Oliveira. Era um homem bom, solidário, honesto e trabalhador. Juntava-se a outros homens para auxiliarem os que se mudavam para os lotes vizinhos.
Eles se uniam até construírem um abrigo para a nova família, enquanto as mulheres se ocupavam das primeiras refeições.
Meu pai era muito sistemático. Não era de muita conversa, mas gostava muito da minha mãe e de nós. De vez em quando, aos domingos, ele nos comprava uma revista do Mickey ou do Pato Donald, depois da missa.
Sim, aos domingos, pela manhã, íamos à missa na Igreja de São João Bosco, do Padre Roque.
Eu ia direto para a fila da confissão. Ficava às vezes angustiada porque não me lembrava dos pecados que havia cometido naquela semana. Mas que tinha cometido, isso tinha! O padre sempre dizia: achar que não se tem pecados, já é um pecado!
Ah, eu devia ter pecados, mesmo sendo uma menina mirrada de 11 anos que aprendeu bruscamente a lidar com dificuldades.
Quando eu ia ao mercado, demorava a voltar porque ficava ouvindo Nelson Gonçalves, Anísio Silva e outros cantores da época, no auto-falante da Avenida Central. Eu sabia todas aquelas músicas de cor. Eram canções boêmias, de adultos, mas eu achava lindas: “Quero beijar-te as mãos”, “A noiva”, “A volta do boêmio”, “Boneca de Trapo, “Meu primeiro amor”, “Pensando em ti”, “Boate Azul” e “Mariposa”.
Uma vez ou outra, chegava lá um circo. Meu pai nos levava para ver o espetáculo. E mesmo sentados na arquibancada rústica, ríamos, como nós ríamos! E nesses momentos, meu pai era também uma criança.
Eu não podia reclamar. Até que eu era muito feliz.
Mas, havia momentos em que eu queria muito que meu pai me abraçasse forte e me salvasse de mim. Quando eu ouvia gritos ou barulho de tiros e tinha medo. Queria um abraço, para acabar com aquele vazio doído, que já era meu.
Mas ele não era dado a abraçar os filhos ou tomá-los no colo. Não que nos amasse menos, mas fazia carinhos ao seu modo.
Só fui entender, muito mais tarde, que ele não poderia me dar o que não recebeu. Ele era um sobrevivente da fome de afetos. E compreendi a nós dois.
Então, eu lhe dediquei com muito carinho e saudades, este poema:
“MAIS DO QUE CACAU”:
“ Meu pai tinha vergonha de me abraçar
E me beijar...
Para ele era difícil
Demonstrar afeto.
Mas quando escondia os braços
Atrás de si
A me fazer surpresa
Meu coração era festa
E eu, uma rainha...
Por isso, até hoje,
Para mim,
“Diamante Negro”
é muito mais
Do que delícia,
Muito mais
Do que cacau.
É uma serenata,
Uma prova de amor
São os abraços
E os beijos
Do meu pai
Guardados
No meu coração...”
Relatos sobre a minha infância, parte da minha autobiografia a ser editada em 2008
Sabe que em alguns pontos, sentir similaridade em nossas histórias...
Volto logo mais para votar!
Baci
Oi, Sigrid, obrigada, amiga!
É reconfortante sua presença aqui
e pessoalmente.
Beijos
Wal,
Que linda história menina.
E quanto carinho
nesse poema homenagem.
Meu pai também não era dado a abraçar
mas as histórias que ele contava
valia por tudo.
bjsssss
Doroni!
Essas carências,
o tempo, maior conselheiro,
nos ajuda a superar e compreender.
Obrigada.
Beijos
Walnizia,
comoventes textos sobre sua infância, que tenho o prazer de ler, somente agora!
quem não sonha com esse abraço de um pai? Esse que nos salve de nós mesmas?
Magnífico texto e corajoso alem de bem escrito
Parabéns!
Beijos
CD
Oi, querida CD!
Que grande prazer ter a sua
avaliação tão carinhosa e estimuladora!
Estamos sempre buscando proteção.
E, até que saibamos que podemos ser, nós mesmos,
os nossos cuidadores, apanhamos muito!
Obrigada!
Beijos e abraços
Wal,
a sequência de sua "infância" que traz tão lindamente momentos do início de Brasília na visão de uma família, e, agora, têm-se a figura paterna como foco central. O que você conseguiu construir é algo genial, imagina: quando você escreve que ele não podia dar o que não recebeu e você dá espontaneamente o que também não recebeu, é quebra de ciclos... Para algo mais saudável.
A falta que faz um abraço, um afago paterno ou materno é algo que traz muito ao ser adulto. Mas o abraço de cacau, que só poderia vir dessa cabecinha criativa, ficou belo de se imaginar...
Muito belo. Que tal montar uma biografia de uma candanga?
Beijos minha querida.
PS: adorei nosso encontro na sexta com a Si...Postei aqui isto só para dar um pouco de água na boca dos overmanos, é muito bom conversar com a Wal e a Sigrid...hehehehe
Cris,
Você citou algo muito interessante:
a quebra do ciclo para algo
mais saudável. É bem verdade.
Obrigada pela leitura e pelo carinhoso
comentário.
A propósito, o encontro do trio Cris, Wal e Si
não poderia ser melhor. Três crianças soltas na cidade!
Vamos repetir, antes da saudade apertar.
Muitos beijos.
Mas, não tenham dúvidas, nosso reencontro não tardara... rsrs
A energia transmutada com uma quebra de ciclos é surpreendente quer seja numa família, num grupo de amigos ou até mesmo na sociedade... Parabéns pra vc, pelo ponta pé inicial, os resultados... vc. sabe...foram valiosos!!!
Wal, vc. tem material para um baita livro... engata a 1ª e vaiiiiiiiiiiii... rsrs
Certeza, vc. poder contar comigo e Cris... chique eu, né? Me sentindo a vontade por falar em nome dele... rsrs
Tô de olho, e quero ter a honra de abrir tua votação! Já, já volto!
Baci
Estou saindo, mas deixo pra ti, teus primeiros 4 votos! rs
Já viu nossa foto, no perfil do Cris????? Ficô lindaaaaaaaaaa...
Baci
Estou acompanhando cada capítulo, Walnizia , continue contando por favor.
abraço e meus votinhos.
Vim de novo para dizer que não aguentei e que poço licença para falar do meu pai na poesia que fiz e que trago pela emoção que o seu me causou.
PAI
Pai, por que soltou minha mão?
Por que saiu do meu alcance?
Passamos pela vida pai.
Você meu pai ,e, eu sua filha ,
Mas pai, em linhas paralelas e torcidas.
Fomos como óleo e água,
Mas estavamos no mesmo copo.
Paaaaaai a tua voz estava inteira,
No telefone dia dois, uma manhã comum,
Clara, clara como tua voz.
Como pai de noite não existia
A tua voz na minha linha?
Eu queria voltar no tempo pai,
Para te dar boa noite,
Dizer te amo, dizer bom dia.
Dizer que tudo foi um engano,
Que não passou de teimosia.
Queria segurar forte a tua mão
No teu derradeiro dia.
Dar-te um abraço e um beijo
Como nunca em nossos dias.
Dizer que não me perdi,
Que sou um homem comum.
Pai, nem você nem eu fomos o mundo,
Fomos sozinhos num deserto profundo,
Faltou dentes nos trilhos,
Faltou canto e encantos.
Pai sabe mais de uma coisa?
Na geometria não-euclidiana duas retas
Paralelas se cruzam no infinito.
Nos encontraremos pai,
Na tua canção,o meu lamento.
Ecila Yleus
Publicado no Recanto das Letras em 10/08/2008
Código do texto: T1121088
Sigrid!
Grata minha amiga, por sua presença e
comentários. Conto então com vocês.
Beijos.
Mensagem em sua cx. postal.
Vanessa, minha querida!
Que bom saber que está acompanhando
as minhas postagens. Esse estímulo é muito
importante para mim.
Grata. Muitos abraços.
Ecila!
Que poema maravilhoso e emocionante! Belíssimo! Parabéns!
Fez-me chorar imaginando o meu, o seu e todos os pais,
de todos os filhos que gostariam de voltar no tempo e
esquecer as desvenças...
Quando damos por nós, o tempo passou. Os abraços, os beijos, as oportunidades que tivemos de perdoar ou de pedir perdão foram desperdiçadas...
Obrigada por suas palavras tão lindas.
Beijos
Oi.Lindo seus relatos de sua infância. Em alguns momentos também me transportei aos meus tempos de menino e de minha convivência com meu querido Pai.
Saúde, Paz e grandes realizações para você. Abraços . jbconrado.
Que aperitivo, nos ofereces, Walnizia, que venha logo o cardápio completo !
Até sexta-feira, querida nova amiga !
Um beijo !
Ausente no fim de semana, passo agora para ler.
Gostei tanto quanto da primeira.
Um abraço
Oi, CD, querida!
Obrigada pela visita e apoio.
Até sexta-feira.
Beijos
Ailuj,
Obrigada pelo carinho e voto.
Beijos
Querido Ayruman,
Há mesmo muita coisa em comum
nos nossos tempos de infância.
A convivência com nossos pais é sempre
muito forte.
Beijos
Oi, Doroni,
Mais uma vez tenho a alegria
de lhe ver aqui. Obrigada.
Muitos abraços.
Alcanu,
Já, já chego aí em Sampa.
Obrigada.
Beijos
Edimo, obrigada!
Senti mesmo a sua ausência, amigo!
Como é, vamos para o encontro do over em São Paulo?
De Cutitiba é mais perto do que Brasilia.
um abraço
Walnizia, que bom ler os seus textos. Suas lembranças fazem reviver as minhas. Gosto muito do seu modo simples e direto de contar, da vida que você dá aos seus textos.
bjs
Sônia,
Fico feliz com essa similaridade.
Grata pelo comentário, amiga.
Um beijo carinhoso.
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