Quando as palavras nos deixam,
a alma, que precisa expressar a dor,
o amor, as pequenas felicidades,
fica prisioneira,
não do escuro,
que ela brilha,
mas do silêncio...
um silêncio duro,
bruto, que aferrolha.
Já, os versos, todos, fingem,
porque representam.
E, se assim o fazem,
não são exatamente
o que afirmam do ser,
talvez ainda resulte,
para imensa dor,
fiquem do que dizem aquém .
Quem não quer então tal fidelidade?
Quem ousará pedir então tal infidelidade?
E se não a tem, há de sonhar-te infiel!
Imensidão de amor
Dor dessa devoção
infiel à fidelidade é fiel à infidelidade.? Cada um com sua fidelidade? ;))
Sim, Cedê!
Cada um com seu cada qual!
Ainda que os versos não me traduzam, penso que serei sempre um versejador, serei fiel toda vida a essa imensa dificuldade, enorme dificuldade, grandissíssima dificuldade, de tentar traduzir, verter dor em palavras, amor em palavras, aromas em palavras, sentimentos em palavras, desamor, em palavras, felicidade e inflecidade, em palavras, paz em palavras, porque palavras são por demais infiéis ao que se sente e se queira dizer a outrem o que se sentiu, mesmo porque, palavras, nos dizem há muito prosadores e poetas são só e tão somente, apenasmente, palavras.
Então, et por cause, infiel à fidelidade, porque não posso ser fiel ao que não existe, nem está provado que poderá existir: uma coisa vir a ser exatamente a outra.
Isso porque, uma coisa é uma coisa e outra coisa, ainda que coisa, é outra coisa.
O que resulta em que uma coisa é uma coisa e coisa outra, então, portanto, outra coisa é.
Words, words, words
...
Quando desloca a frase hamletiana Words, words, words..., Machado a funde em sua escritura de tal forma que ela faça parte dos comentários dos acontecimentos da semana, nivelando-a a banalidades:
Eu, se tivesse de dar o título Hamlet em língua puramente carioca, traduziria a célebre resposta do príncipe da Dinamarca Words, words, words, por esta: Boatos, boatos, boatos. Com efeito, não há outra melhor que diga o sentido do grande melancólico. Palavras, boatos, poeira, nada, coisa nenhuma.
(23 de abril de 1893)
(...) Uma vez que a deixam ficar, podem discuti-la, examiná-la, revirá-la, redigir relatórios sobre relatórios, oficiar, inquirir, citar; words, words, words, diz ela também para citar alguma coisa. E ainda não saindo de Hamlet:.. Se o sol não pode fazer nascer bichos em cachorro morto, não serão cães mortos que lhe faltem. Quanto ao lençol de água, vê-lo-emos feito um formidável lençol de papel. Papers, papers, papers.
(18 de outubro de 1896)
Distanciada de seu contexto trágico, esta frase, esvaziada devido a seu sentido clicherizado, torna-se dessacralizada na medida em que é, paradoxalmente, pervertida em boato. É exibida na superfície textual, num jogo paródico com acontecimentos da semana, e provoca uma nova tragicidade: a do nada, a do esvaziamento do sentido de onde advém a melancolia do homem moderno em face da consciência da perda da sua originalidade e da sua singularidade.
No diálogo entre Polônio e Hamlet, no original shakespeareano, Polônio considerava as idéias de Hamlet como desconexas, só possíveis naquele que perdeu o fio da razão.
Há em Hamlet a intenção de que assim pareça o seu discurso, mas o subtexto denuncia a máscara linguageira de que se cobre o texto primeiro: a anarquia de idéias é um mecanismo de que se utiliza Hamlet para desvelar um outro sentido, oculto pelo discurso manifesto.
Colocados em cena, os conceitos de loucura e razão são mobilizados de tal forma que se perceba que sandice ou não é uma questão de ótica.
Ou, como diz Machado: As cousas têm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina. (31 de maio de 1896)
O jogo cênico diante de Polônio denuncia que razão e verdade são meras convenções e que o discurso do louco é o discurso do excluído, daquele que expõe o que há de contraditório e diverso na uniformidade da ordem racional e científica.
O senso comum impede a manifestação deste discurso, capaz de invalidar os mais caros valores da classe dominante.
Institucionaliza-o como patológico e o obriga a calar.
O não dito invade a escritura, fragmentando o enunciado, numa relação dialógica e paradoxal. Da tensão surgida entre os dois discursos - o manifesto e o latente - é que se faz o sentido, cuja finalidade é denunciar a relativização dos valores e dos parâmetros humanos: razão, lucidez, verdade, loucura, farsa são relativos e fazem parte do mesmo espetáculo encenado pela linguagem.
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Beijos e terno abraço.
Para quem não queira ir até o linque no word triple azul aí de cima, fique patente que estou referindo o texto:
O DRAMA ERA HAMLET... E A IRONIA, MACHADIANA, de Maria Luiza de Castro da Silva (UNIPLI e UNESA)
Entendo, Adro. Valeu a conversa. beijos e votos de sucesso!
Compulsão Diária · São Paulo, SP 16/9/2008 10:06
Quem não quer então tal fidelidade?
Quem ousará pedir então tal infidelidade?
E se não a tem, há de sonhar-te infiel!
Gostei pampa!
Claudinha
Mentem os versos todos?
Talvez esteja certo e estes "fiquem aquém" do que poderia ser dito, senão quando quem o faz é mestre das palavras, assim como você.
beijos
Deixa ver se eu entendi.
Quando eu sinto que amo eu pisco, beijo, amasso, me esparramo.
Boto a mão em tudo que lugar, beijo, espalho batom.
Roço tez na tez. Tesos ficamos.
Se eu disser apenas que amo, fico devendo pro tamanho do que sinto.
É issso?
Então, se assim, é concordo: o que sinto é maior e o verso, as palavras...
Ah! O verso é pequeno, acanhado, pouco,
mas, se estou distante, assanhada, é ele só
que diz que tanto amo.
Uma coisa é a palavra...outra coisa é o beijo...o cheiro...a textura....ahh...essas coisas não mentem...não fingem....como a palavra que ,se quiser, se transforma em outras...
Nunca se diz do amor por inteiro..sempre fica algo a ser dito... e muitas vezes somente entendemos no silêncio...
Belíssimo,Adro!
um beijinho azul_perfumado...
Blue
Adroaldo,
Texto de infinito saber.
Bom de ler.
Beijos,
Regina
Adroaldo
Teus versos caminham para a beleza, levando nas asas da dor, o perfume do amor. No amor tudo é possível.
Abraços
Noélio
Como ser fiel ao que não existe? Perfeito!
Bjssssss
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