INSONE
Elias Paz e Silva
I
Aquele que brincava com a garrinchinha, a t'ramela na mão, olhando as pernas que passavam apressadas para o fazer compras; aquele incapaz de sorrir, preso no seu próprio silêncio, no seu choro, angustiado, com medo da mula-sem-cabeça. Ou, ainda, aquele que teimava inutilmente em aprender as lições de aritmética. Não sei qual deles sobrevive. Todos os dias, com a placidez habitual de sempre, coloco flores nos túmulos dos que teimam, vivos em mim, estampados como uma cauda grossa que um animal estúpido leva na traseira.
Finjo que não os conheço quando, por real acaso, um foge do seu túmulo e vem embalar-me, nas noites de insônia profunda - o medo enrijece-me os membros, tento escapar de suas mãos estranhamente inofensivas, mas acabo prisioneiro.
II
- Seu nome, por favor. - diz-me a moça do rosto azulado e terrivelmente bonita. Dou-lhe as costas e saio. Sinto seus olhos frios me acompanharem até a saída.
Desço a rua nervosamente.
As casas em ruínas, a péssima urbanização, flores murchas atiradas em canteiros imundos; uma criança feia e desdentada a sorrir, os paralelepípedos desentranhados do solo: como se tudo fosse um espelho.
III
- Sente-se. Qual o seu problema?
Olho-o da cabeça aos pés. Como se fosse grande coisa esse curador de loucuras psíquicas tentando resolver um problema-que-nem-mesmo-eu-sei-se-é-problema. A sala é refrigerada, há quadros pelas paredes, diplomas disso, daquilo. Para mim pouco importa tudo isso: poderia eu tranquilamente ocupar seu lugar por trás dessa mesa, pedir-lhe que me cantasse uma canção do tempo do Tropicalismo. Sob a cabeça os aviões... ou seria sobre? Me esqueci.
A porta estronda atrás de mim.
IV
Papai me pega jogando peteca com meninos sujos e descabelados. Não diz uma única palavra, não reclama: só sorri e aquiesce. Tenho vontade de gritar-lhe que não sou eu, e sim o outro. Calo-me, enquanto fico no "casobila" com um garoto de dentes podres.
Retiro-me silencioso e arfante, um náufrago em terra desconhecida. Os garotos me olham com desdém, ouço murmúrios: "Tão Grande..."
Vagueio.
Leio no jornal a grande manchete: "HOMEM MORRE AFOGADO NAS ÁGUAS TURVAS DO RIO". Grande coisa. Um rio... águas turvas... E se um homem morresse afogado em si mesmo? Ninguém nunca entende. O sexo? Onde anda meu sexo? Tiro-o ali mesmo, para confirmar sua presença. Olhares violentos sobre mim. Entonteço.
V
Estou dentro de uma cela imunda, ratos pelos cantos, homens. Tudo se mistura. Subo nas grades como um símio e grito palavrões. Um guarda se aproxima e me aponta um revólver, sorrio-lhe indiferente. E se eu morresse? Besteira. Distraio-me.
- Alguém pagou a fiança, disse o homem de óculos escuros e cara redonda, pode sair. Atentado contra a moral e os bons costumes. Da próxima já sabe...- rematou solene.
Tive vontade de gargalhar, porém um braço reteve-me e me conduziu até a saída. De onde? De mim mesmo?
A oração que sei: PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU... Não consigo dormir. Abro a janela, a noite prescinde de estrelas: tudo muito sem luminosidade lá fora. Alguém me toca, viro-me.
- Sou a moça que o Sr. contratou para vir dormir aqui.
Eu? Por que ela vem violar minha paz, oferecendo seu sexo como um animal cioso? Agarro-a pelo pescoço, estrangulo-a. Ela expira suavemente. Sinto-me exausto. Que importa?
VII
Um galo rasga o silêncio. Acabo de descobrir que andei em círculo durante toda a noite, aliás, que não saí do quarto
SILVA, Elias Paz e. Outros contos piauienses. Teresina, Projeto Petrônio Portella, 1986. Páginas 37-38.
INSONE I Aquele que brincava com a garrinchinha, a t'ramela na mão, olhando as pernas que passavam apressadas para o fazer compras; aquele incapaz de sorrir, preso no seu próprio silêncio, no seu choro, angustiado, com medo da mula-sem-cabeça. Ou, ainda, aquele que teimava inutilmente em aprender as lições de aritmética. Não sei qual deles sobrevive. Todos os dias, com a placidez habitual de sempre, coloco flores nos túmulos dos que teimam, vivos em mim, estampados como uma cauda grossa que um animal estúpido leva na traseira.
Finjo que não os conheço quando, por real acaso, um foge do seu túmulo e vem embalar-me, nas noites de insônia profunda - o medo enrijece-me os membros, tento escapar de suas mãos estranhamente inofensivas, mas acabo prisioneiro.
II
- Seu nome, por favor. - diz-me a moça do rosto azulado e terrivelmente bonita. Dou-lhe as costas e saio. Sinto seus olhos frios me acompanharem até a saída.
Desço a rua nervosamente.
Adorei o texto, fragmentado, como são nossos pensamentos nas noites insones. Gostei muito!
Deixo um convite aqui para você dar uma passadinha pelo meu perfil e checar minhas postagens, ok?
Já estás entre meus favoritos...
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!