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Inspire!

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Max Reinert · Florianópolis, SC
25/6/2008 · 110 · 9
 

Acordou.
Sabia que precisava.
Mas, não conseguia abrir o olho.
Quando tentava, sentia uma fisgada na nuca.
Como se algo houvesse ligando estes dois pontos - ininterruptamente.
Havia algo atravessando o cérebro com força, sem parar, sem dar o mínimo descanso.
Poderiam dizer que era tudo por causa do whisky.
Uma ressaca da brava, das piores.
Mas não era só isso.
Com certeza.
Não!

Como?
Um tecido, pensou.
Com a camiseta enrolada no rosto.
Assim pôde impedir que uma grande parte da luz entrasse nos olhos.
Assim pode finalmente levantar-se e olhar em volta, na tentativa de entender o que acontecia.
Definitivamente, aquele não era, nem de perto, o lugar onde morava.
Era um ambiente "clean" demais, moderno demais, caro demais.
Ou seja, vários adjetivos que não combinavam com ele.
Mas, mesmo assim, parecia familiar.
Já havia vindo anteriormente ali.
Passado um tempo, até.
Morado alí?
Vivido?
Ele?
Eu.


Pouco a pouco as coisas começaram a fazer sentido. Talvez tenha sido a dor no braço. Talvez a marca nos pulsos. Talvez o uniforme que estava usando. Vários sinais começaram a ser processados, uma vez que o cérebro começava a se livrar dos efeitos dos remédios. Sim, lembrava de tudo. Lembrava do momento em que tudo havia começado. Lembrava que a relação dos dois não estava correndo como imaginava. Lembrava que estava trabalhando além da conta para poder tirar as malditas férias acumuladas dos últimos três anos. Lembrava das passagens aéreas na mão. Lembrava da casa silenciosa. Lembrava de ter dado esmola ao guri no sinaleiro. No fundo, no fundo era alguém em quem se podia confiar. Então porque retornava alí? Porque retornava àquele lugar horroroso onde havia passado os piores 08 meses e 17 dias de sua vida?


B R A N C O

O bom de estar em lugar sem relógios, onde não se pode ver a luz do sol, onde não há uma televisão ligada é não sentir a passagem do tempo. É não sentir a pressão do mundo sobre os ombros. É simplesmente fechar os olhos e ouvir o silêncio. Um grande e prazeroso silêncio.


B R A N C O


As passagens eram para uma viagem curta. Buenos Aires. 07 dias. Hospedagem em um hotel 04 estrelas, no centro da cidade, próximo ao Obelisco. O dinheiro estava separado para trocar o carro mas, em algum lugar, sentia que seria necessário fazer algo para salvar a relação. Por mais que nos últimos meses não conseguissem se entender, ainda havia amor. Ou algo que a gente se acostuma a chamar de amor. Pelo menos havia a necessidade de tentar salvar isso que vivíamos. Mas, a sala às escuras não era um bom sinal. Devia ter saído. Devia ter controlado seus impulsos. Devia ter se feito de idiota. Não seria a primeira vez. Suas saídas tardes do trabalho. Os cheiros estranhos nas roupas. As desculpas para a falta de sexo. Tudo tão clichê. Tudo tão novela. Isso era o que mais incomodava. Quando abriu a porta do quarto já sabia o que lhe esperava. Assim, quando gritou, já sabia quais as palavras sairiam de sua boca. Já sabia quais palavras iria ouvir. Não conseguia suportar que tudo fosse tão previsível. Na cozinha, pegou a primeira coisa que podia parecer uma arma.


S I L Ê N C I O


O sangue tem uma maneira linda de escorrer pelos braços. Não é como no cinema. Quando se consegue senti-lo escorrer pelos braços, é quente. Quando se consegue perceber as gotas chocando-se com o chão, acalma. Normalmente, em um desmaio, tudo fica escuro. Mas, desta vez, tudo foi ficando claro. Muito claro. De uma claridade ofuscante.


B R A N C O


As únicas visitas que recebia na clínica eram da mãe. As mães sempre perdoam. Nos primeiros dias não falavam nada. Simplesmente ficavam lado a lado, respirando juntos. Quando voltou a contar o tempo descobriu que já havia passado 05 meses e 21 dias que estava alí. Quem salvou sua vida foi o outro, que estava na cama. Ele estancou o sangue que saiu de seu pescoço enquanto ela chamava uma ambulância. Quando puder sair daqui, já terão passado mais 09 meses e 03 dias. Eles estarão juntos, casados. Uma outra história de amor começa, para eles. Mas ainda restam as passagens. Buenos Aires. 07 dias...


S I L Ê N C I O

Enquanto houver ar.
Sempre será possível respirar.
O branco, aos poucos, torna-se menos ofuscante.
Uma mescla de cores começa a invadir seus olhos, lentamente.


I N S P I R E !

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Ilhandarilha
 

Seus textos são dos mais consistentes por aqui. Gosto muito de toda a construção e inspiração .
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 23/6/2008 17:04
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Beto Mathos
 

Entre o branco e o silêncio, maravilhosa inspiração.
Parabéns! (e voto, é claro)

Beto Mathos · Vitória, ES 24/6/2008 18:31
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Nic NIlson
 

Valew, intrigante!

Nic NIlson · Campinas, SP 24/6/2008 21:16
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Doroni Hilgenberg
 

Belo conto...depois de tanto tempo em branco esta volta parece milagrosa. Ninguém morre antes do tempo. Bjsss e votos

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 24/6/2008 23:08
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celina vasques
 

Muito bom!!!!! excelente texto.
Pa
rabéns!
votado

beijos

celina vasques · Manaus, AM 25/6/2008 02:26
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Falcão S.R
 

Alegro-me ao ler tão belo e bem estruturado texto. Voto e abraços

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2008 09:01
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Vanessa Anacleto
 


Seu texto prende até o final. Adorei, parabéns.

Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro, RJ 27/8/2008 12:58
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Elliana Alves
 

texto muito bom...votadooooooooo

Elliana Alves · Petrolina, PE 7/9/2008 05:18
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camuccelli
 

Foi o que eu disse!....

camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2008 14:07
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