Análise de obra editada em suporte digital: “Internet, gramática e a dissipação dos mecanismos de controle de produção.”
páginas do orkut
essa tal de gramática
naum c diskut
Retirado de uma das páginas de um conhecido site de relacionamentos, o poema acima, de autoria de Álvaro Posselt, traz algumas marcas bastante curiosas a respeito de um tema que tende a tornar-se cada vez mais profícuo: a presença da oralidade em textos da Internet; e, nesse caso específico, a presença da oralidade na produção artística que tem como suporte os meios digitais.
Analiticamente, o primeiro fato que gostaria de enfatizar é que no registro de palavras como “naum”, “c” e “diskut” parece não ter havido a intenção deliberada de se utilizar de uma licença poética que permite ao escritor cometer “deslizes” gramaticais conscientes. A não utilização do sinal de aspas (recurso típico da escrita) a indicar que aquilo que foi escrito, foi escrito de forma proposital, parece funcionar aqui como uma espécie de piscadela do autor, que talvez quisesse nos dizer o seguinte: “aqui escrevi assim porque aqui se escreve assim”. Talvez isso reflita o fato de que ao indivíduo não cabe a tentativa de controlar a forma do que é produzido na Internet, isso seria inócuo; ao indivíduo cabe apenas adequar-se e adaptar-se a um meio que já possui características muito peculiares e sedimentadas. E, dessa maneira, chegamos a um dos pontos em que a oralidade e os meios digitais se aproximam e se refletem: em ambos não há possibilidade de controle de produção. Nem indivíduo, nem setores editoriais, nem Estado, nem qualquer outra instituição abstrata detém esse poder. Assim como a fala, a Internet está na boca e nas mãos de quem a produz.
Um segundo ponto que gostaria de abordar na análise desse poema é que ele parece parodiar o próprio meio pelo qual se expressa. E esse tipo de recurso também possui suas raízes fincadas na oralidade. Trocadilhos, tiradas, parodizações são meios que a fala utiliza para autocriticar-se, para desnudar-se diante de si e, não obstante, para rir do inusitado dessa situação e de sua própria falta de pudor. A escrita, através de um suporte digital nitidamente influenciado pela oralidade, parece também estar perdendo sua antiga timidez. A escrita, positivamente, está ficando mal-comportada. Arrombos de formalidade e sisudez estão dando lugar a propostas mais leves e humanas. E, o que é melhor, mais prazerosas.
Grande parte da dinamicidade da fala se deve ao fato de que ela olha para si, olha para sua própria estrutura e então decide desetruturar-se para, em seguida, assumir seu renovado aspecto. A escrita, livre de antigas amarras, talvez esteja caminhando na mesma direção, o que significará uma mudança absolutamente abrupta e sem precedentes, já que ela sempre foi lugar privilegiado de conservadorismos puritanos e elitistas. Não por acaso o poema cita “essa tal de gramática”. Símbolo maior do conservadorismo linguístico, a gramática normativa e suas cadeias parece que tiveram seu acesso negado ao libertino mundo virtual. O termo “essa tal”, no poema, tem exatamente a função de denunciar esse distanciamento, de deixar nítido o abismo intransponível entre a gramática normatizante e a produção, artística ou não, feita na Internet. A gramática, que sempre olhou com escárnio e relegou ao isolamento aqueles que não a dominavam, destituída do sentido prático que o imediatismo da Internet necessita, parece agora estar recebendo o troco na mesma moeda: foi bloqueada no bate-papo, excluída do Orkut. “Há coisas que não podem ser ditas porque existem mecanismos rígidos de controle que impedem a produção de determinados discursos” (Foucalt, 1996). Perfeito: numa abrupta inversão da ordem estabelecida, o discurso até então dominante da gramática enfrenta os mecanismos de controle existentes na Internet, mecanismos que se encontram na mão de seus usuários.
Isso não significa, por suposto, que essa produção prescinda de padronizações. Toda linguagem para se efetivar precisa de um código que seja compartilhado por todos. Mas as padronizações que há são particulares a esse meio e já foram apropriadas e assimiladas por seus usuários. Ninguém põe em dúvida o significado do verso “naum c diskut”, nem de registros como “hehehe” ou :-), o que significa que já há um determinado código e que esse código já foi assimilado pelos usuários: é o surgimento de uma nova linguagem, e, por que não dizer, de uma nova língua. Há normas, mas normas internas e usuais que nascem das micro-relações existentes no próprio meio. É o poder surgido não de cima para baixo, mas no meio, na teia, na rede. Foucaltiana essa tal de Internet...
Aliás, registros como “*-*” , :-o ou :-) são interessantíssimos, pois parecem emprestar à escrita recursos de expressão facial até então dela completamente ausentes devido aos seus limitados sinais gráficos. É a necessidade coletiva sendo responsável pela criação de novos instrumentos.
É claro que esse tipo de recurso não substitui nem de longe a riqueza das expressões faciais e tampouco o contato físico entre as pessoas, o que reforça um certo caráter caricatural da escrita em relação à fala. Dessa forma, a nobreza e supremacia atribuídas à escrita, a partir do reconhecimento desses fatos, devem agora ser vistas com uma boa dose de relativismo.
Voltando ao poema, outro ponto que considero importante e emblemático é que a escolha do vocabulário funciona como uma amostra da hibridização ocorrida entre fala e escrita. Palavras como “páginas” e “gramática”, que claramente se reportam ao universo da escrita, convivem com palavras como “discussão” e com espécies de transcrições fonéticas que têm a intenção de nos remeter ao universo da oralidade. É o suporte escrito dando espaço à voz humana, e é a voz humana encontrando meios para não ser levada pelo vento e, dessa maneira, tornar-se perene; é a escrita descobrindo os prazeres e o dinamismo da fala, e é a fala se apropriando do poder de eternidade ofertado pela escrita. É um caminho sem volta e talvez o início do fim de uma dicotomia extremista e ingênua. Extremista porque quer segregar; ingênua porque não percebe a inter-relação que sempre houve entre escrita e fala. Mas não há que desesperar-se, já que o período é de transição e até que as vozes contrárias se acomodem ainda se faz necessário um certo período de tempo, pois, como já preconizava Marshal McLuhan (para não deixar de por aqui uma citação, já que se trata de um trabalho acadêmico) “ (...) O choque inicial...se vai dissipando, à medida que a comunidade inteira absorve o novo hábito...A verdadeira revolução, contudo, somente se efetiva nessa fase posterior e prolongada de ‘ajustamento’ de toda vida pessoal e social ao novo modelo de percepção estabelecido pela nova tecnologia.” (McLUHAN,1977). Apenas como um comentário à parte, difícil ainda pensar em completo ajuste social se essa nova tecnologia, que tem como símbolo máximo a Internet, ainda é severamente excludente, pois, pelo menos em países menos desenvolvidos, o acesso a ela é bastante restrito.
Para finalizar, devo dizer que a influência exercida pela oralidade sobre a produção artística da Internet não significa necessariamente que a obra vá funcionar bem oralmente. O verso “naum c diskut”, por exemplo, perderia seu tom irônico e jocoso caso o percebêssemos apenas pelos ouvidos, ao invés de também pelos olhos. O que nos mostra que a reciprocidade e interdependência entre oralidade e escrita seja maior do que pensamos. E isso também nos serve como um ponto de apoio para que não cedamos à tentação de saltar de um extremo ao outro. O equilíbrio é uma virtude perfeitamente atingível, e se ainda não o atingimos, é porque adoramos uma boa peleia. Mais isso naum vamu diskuti aki.
Referências Bibliográficas
McLUHAN, Marshal. A galáxia de Gutenberg. Trad. Leônidas Gontijo de Carvalho; Anísio Teixeira. São Paulo: Nacional, 1977.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
Artigo acadêmico sobre Internet, literatura e oralidade entregue à disciplina de Literatura e Oralidade, do curso de pós-graduação em Língua Portuguesa e Estudos Literários da Universidade Tuiuti do Paraná 2009-2010.
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