Intrangeiro

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Roberto Moreno · São Paulo, SP
19/8/2006 · 90 · 2
 

Já faz muito tempo que saí em viagem pelo Brasil. Naturalmente, perdi a conta dos quilômetros percorridos e da quantidade de cidades e lugarejos visitados, principalmente se levarmos em consideração que raramente percorro uma trajetória linear. Esses caminhos passam pela mesma localidade repetidas vezes, pelo simples motivo que, se estou em um ponto e sinto vontade de ir a outro, vou, sem me preocupar se é perto ou de fácil acesso. Porém, quando acontecem estas interseções, tomo todos os cuidados para apenas circundar as cidades, jamais atravessá-las. É inadmissível revisitar um local, assim como reler um livro ou rever um filme. Lembro que quando saí para viajar tinha 14 ou 15 anos. Antes disso nunca havia deixado o bairro.

Não que considerasse os muros em volta do bairro uma barreira, nada disso. Apenas não tinha vontade de sair. Os muros, vazados a cada 150 metros por grandes portões abertos, com placas de "volte sempre" eram, na verdade, um convite para aventuras, com a certeza de um porto seguro no retorno. Pensando bem, uma vez, acho que só uma, pensei em viajar antes disso. Cheguei até o portão oeste, quando me dei conta de que não tinha dinheiro para o ônibus e me resignei. Agora, também, não tenho um centavo.

A andança é custeada com trabalhos prestados pelo caminho. Pedir carona, nunca. Aceitar comida grátis, nem pensar. E você deve imaginar como é difícil conseguir trabalho quando se é forasteiro. Já aconteceu de passar quase um ano na mesma cidade me abastecendo de recursos para próximas etapas, evitando o risco de seguir viagem e não encontrar outro bar ou restaurante que estivesse precisando de um lavador de copos.

Sim, esta é minha profissão. Aprendi cedo. Existe muita resistência por parte dos empresários em contratar um lavador de copos, principalmente se for um desconhecido, sem referências. Quando precisam de um lavador de copos, recorrem a generalistas que também lavam talheres, pratos, até panelas. Não faço isso. Tenho uma reputação profissional a zelar - sou lavador de copos, o melhor. Mas não digo que sou radical - por força da necessidade, já cheguei a lavar e enxugar xícaras durante alguns dias, mas o proprietário da cantina deve ter notado que aquela não era minha especialidade e me dispensou. O dinheiro só foi suficiente para uma passagem de ônibus até a cidade vizinha.

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Roberto Moreno
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j.alves
 

hehe, nunca lavei nada mas sei do que voce fala.tb fui intrangeiroum abraço.

j.alves · São Paulo, SP 16/8/2006 20:11
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

que inveja. Já fiz isso rapidamente na Europa, mas nunca no Brasil - que era onde eu mais queria.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 1/9/2006 20:41
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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