Minha vida é teimosia
e nada foi fácil até agora
foram tears and fears
muitos, demais espaços abertos de angústia
paços cerrados para outras paisagens
mas escapei por um triz
eu mesmo fiz meus caminhos
the long and wide road
muitos beatles e rolling stones
no satisfaction desde sempre.
Hoje continuo a rolar
que é pra não criar limo
que é pra não deixar mofar o mofo que me constitui e corrói
que germina nos recantos de minhas células
no silencioso processo de demolição
que é toda maldição de sermos nós
cadáveres ambulantes
casca de árvore
no apodrecimento da cortiça
erva daninha a subir no muro.
Mas não dou mole.
É de teimosia em teimosia que faço meus dias
e se antevejo a demolição, a derrocada,
assobio uma canção jobiniana:
que coisa mais linda!
Quantas vezes estive morto
em mim mesmo me enterrava
quantas vezes fui sonâmbulo petrificado
mas ressuscito toda manhã
rompo a casca do dia, pintinho assustado mas decidido,
fosse um mergulhador hipóxico e desesperado
que explode à tona dágua,
sería menos doído, ou doido.
Amo as pessoas tristes
que vivem seus dias com gosto de sangue na boca.
Sou o que sou.
Engulo meu próprio sangue, regurgito, escrevo,
faço respiração boca-a-boca em mim mesmo
massageio o coração, córdis pré-claro,
de repente, draculamente, revivo de um salto
de um sobressalto venho à luz (ironia de vampiro...)
à escuridão dos dias desensolarados.
Amo as pessoas tristes, até as desesperadas,
porque engolem suas tristezas diárias, seus choros,
sues fantasmas mais íntimos.
Porque choram mansamente. Eu engulo.
Eu engulo teus líquidos, teus lábios,
teus pentelhos,
bebo até a cor dos teus cabelos,
que é pra ficar enjoado dos teus gostos.
Engulo minha solidão.
Somos números de prontuários,
óbitos desassistidos.
Somos cruéis.
De que barro corrompido fomos feitos?
Amo as pessoas tristes,
amos as solidões de seus rostos,
o olhar meigo assustado.
Mas que venha a vida:
olé, touro!
Profundo, um tanto quanto doido, mas talvez real.
Cleide Loureiro · Rio de Janeiro, RJ 16/6/2008 17:47Que poema triste. Você clama pela vida mas destoa de tudo. Mas enfim, como você diz: " Sou o que sou" , Bjsss e meu voto.
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 17/6/2008 22:10Parabéns pela originalidade. Abraço e voto.
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2008 05:27
Que grande Inventário.
Já tinha raciocionado sobre isto: "Nalguns momentos estive morto".
Será? Grandes recordações,.
abraço
andre.
Vleu pessoal pelas palavras e pelo carinho do voto. Sou triste mas sou alegre! Amo a vida, as pessoas (algumas, é verdade). Viver pra mim é isso. Abraços.
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2008 10:46
Sensacional.
Realista e surpreendente.
Ja votado, para sempre visitado.
OBS: Em "seus choros, sues fantasmas mais íntimos."
Seria talvez, "seus choros, seus fantasmas mais íntimos."?
Que vienga el toro...
mas que vienga en forme de bife...
Também seria uma saida...
Gostei
Vai pro banco
Um abraço
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