Ira!

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Max Reinert · Florianópolis, SC
1/7/2008 · 96 · 9
 

Irado! Era essa a palavra que mais o definia naquele momento. Irado por não ter dinheiro suficiente para pagar suas contas. Irado por não poder sair pra beber com os amigos. Irado por trabalhar tanto e não ter o retorno devido. Todos os dias ele acordava cedo. Cumpria com todas as suas obrigações. Era um bom pai. Um marido atencioso. Um vizinho prestativo. Participava da vida política do país. Votava. Pagava impostos. Cortava a grama. Limpava o carro velho.

Um dia, decidiu que não iria continuar do jeito que estava. Começou a pensar no que poderia fazer para melhorar sua vida. Ele queria ter mais conforto. Poder oferecer para seus filhos o que não tinha recebido de seus pais. Não queria mais chegar em casa e ouvir reclamações. Queria poder chegar numa casa melhor. Queria poder...

Sua primeira idéia foi conseguir outro emprego. Conseguiu. Trabalhava em dois turnos diferentes. Alguns dias chegava a trabalhar dezesseis horas. Conseguiu aumentar um pouco sua renda, mas não conseguia fazer outra coisa a não ser trabalhar. Não tinha tempo para seus filhos. Vivia irritado pelo cansaço constante. Brigava mais com a esposa. Continuava infeliz.

Sua segunda idéia foi abrir um negócio próprio. Conseguiu. Vendeu quase tudo o que tinha para poder arranjar um capital inicial. Abria cedo, fechava tarde. Mas, pelo menos, trabalhava em casa. Podia estar mais próximo da família e estava trabalhando para si mesmo. Todo o lucro obtido era seu. Tinha uma grande sensação de realização. Trabalhou durante dois anos para colocar tudo em ordem e poder contar com um mínimo de retorno de seu investimento. Era assim que o cara do Sebrae havia explicado.

No momento em que tudo começava a entrar nos eixos, houve um acidente. Um dos funcionários machucou-se em uma das máquinas. Máquina quebrada. Prejuízo na produção. Multa por quebra de contrato. Indenização para o funcionário machucado. Despesas com hospital. Franquia do seguro. Muitos etceteras. Faliu.

Irado! Essa era a palavra que mais o definia naquele momento. Descobriu que sua mulher o estava traindo. Chegou em casa e a encontrou na cama com um dos vizinhos. As crianças brincavam no quarto delas.

Sexo! Sexo e dinheiro, pensou. Eram essas as duas coisas que moviam o mundo. Dinheiro! Sua mulher tentava, em vão, dizer algo. O vizinho já havia saltado pela janela, levando suas roupas na mão. Sua cabeça não parava de pensar. Seus pensamentos, pela primeira vez depois de muito tempo, eram claros. Saiu. Desapareceu.

Sua mulher ficou sem saber o que fazer. Não sabia se arrumava suas roupas e sumia com as crianças. Não sabia se esperava por sua volta. Quatro horas depois ainda estava nessa indecisão, sentada no quarto e chorando pela ausência do marido. Foi quando ouviu as crianças chamarem:

- Mamãe, vem ver o Papai na televisão.

Foi. O boletim extraordinário do jornal local mostrava o Papai com uma arma em punho, segurando o gerente do banco pelo pescoço. Irado.

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Cristiano Melo
 

Max, seu estilo narrativo é muito bom de ler. Com ele, traz á baila algo tão costumeiro no nosso cotidiano, pessoas iradas, sem um julgo crítico, um anti-herói do dia-a-dia. Sem julgamento de valores, encerra seu escrito muito bem, com a conclusão de tal conduta movida pelo sexo e dinheiro e trabalho modelado.
Encaixar-se num padrão/modelo societário é o alerta que seu texto aponta: leva a ira!!!rs
parabéns
abços

Cristiano Melo · Brasília, DF 29/6/2008 11:25
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celina vasques
 

é amigo um pouco da sua narrativa encaixa-se em quase todos nós brasileiros, eu também em dibversas vezes da minha vida senti-me assim...trabalhando feito louca pra sustentar 3 filhos...perdendo o emprego...colocando a empresa na justiça..brigando uma decada por meus direitos...e isso o tempo passando e sem conseguir resolver nada e ainda tendo que "não parar" de colocar menino na escola, deveres de dona de casa, divorciada, é ...eu também tive meus momentos de IRA!
sE EU PUDESSE TE DARIA UMA NOTA 1000 NO TEU TEXTO, como não posso voltarei para votar e te darei além dos meus votos meu desejo que consigas publicar essa verdadeira estória da vida!
Beijos

celina vasques · Manaus, AM 29/6/2008 16:31
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celina vasques
 

por sinal errei, estou votando!!!!

celina vasques · Manaus, AM 29/6/2008 16:32
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Nic NIlson
 

Cronica diária. Possivel de acontecer. Pode ate ja ter acontecido por aeh.....
Maravilhosamente escrita!
aplausos!

Nic NIlson · Campinas, SP 29/6/2008 18:53
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Beto Mathos
 

Fiquei impressionado com o seu estilo visceral de escrever.
Muito bom. Parabéns (e voto)!

Beto Mathos · Vitória, ES 30/6/2008 19:30
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Renato de Mattos Motta
 

Muito bom!
Gostei mesmo
um texto
irado!

Espero que goste do meu também!
http://www.overmundo.com.br/banco/nunca-mais-2

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 30/6/2008 19:52
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clara arruda
 

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 09:51
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Doroni Hilgenberg
 

Max, que legal. Este conto deixou a gente na expectativa. Pensei até que ele fosse se matar de tão irado com o mundo. Mas não! Virou assaltante. Vixe!!! Essas coisas acontecem bem mais do que imaginamos. A injustiça cega! Gostei
Bjssss e votos

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 1/7/2008 10:38
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silviaraujomotta
 

Maquiavel ensinou a lição: Os fisn não justificam os meios...
Vale a pena tirar as lições dadas há mais de quase quinhentos anos ...
Um bj
Sílvia

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 2/7/2008 07:32
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